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Full text of "Arte da caça de altaneria"

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ARTE DA CAÇA 


DE À ; 


Diogo Fernandes Ferreira 
VOLUME 1 e E 
ESCRIP TORIO x 
147 =RUA DOS RETROZEIROS= 147 
LISBOA - 
1809 , 
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BIBLIOTHECA 
BRR SSICOS POR TUGUEZES 


DIRECTOR LITTERARIO 


CoNsELHEIRO Z UCIANO CORDEIRO 


PROPRIETARIO E FUNDADOR 


MELLO DAZEVEDO 


A 
SUA MAG ESTADE 


O 


REI DE PORTUGAL 


SENHOR D. CARLOS | 


Com a devida venia con- 


sagram esfa edição 


O director e o proprietario 


Ri 


BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Direcror LitrERARIO—CONSELHEIRO LUCIANO CORDEIRO 


Proprietario é fundador — MELLO D' AzevEDO 


ARTE DA CAÇA 


ALTANERIA 


POR 


Diogo Fernandes Ferreira 
VOLUME 1 


ESCRIP TORTO 


147=-RUA DOS RETROZEIROS= 147 
LISBOA 


1899 


Pa 


A TIBERAL, offcina bpogra 


NoTA PREAMBULAR 


O frontespicio da edição de 1616, — a unica, — da 
obra de Diogo Ferreira, diz assim : 


ARTE 
DA CAÇA DE 
ALTANERIA 
COMPOSTA POR Droco 
FERNANDES FERREIRA 
MOÇO DA CAMARA DEL 
Rey, & 
DO SEU SERVIÇO. 
DiriciDa A Dom FRANCISCO 
DE MELLO, MARQUEZ DE FERREYRA, CONDE 
; DE TENTUGAL ETC. 
REPARTIDA EM SEIS PARTES. 
NA PRIMEIRA TRATA DA CRIAÇÃO DOS (GAVIÃES & SUA CAÇA. 
NA SEGUNDA DOS ÂsSsORES & SUA CAÇA. 
NA TERCEIRA DOS FALCÕES & SUA CAÇA. 
NA QUARTA DE SUAS DOENÇAS & MEZINHAS. 
NA QUINTA DAS ARMADILHAS. 
Na SEXTA DA PASSAGEM & PEREGRINAÇÃO DAS AVES. 
Com LICENÇA DA S. Inquisição, ORDINARIO & Paço 
ato Em Lisboa. 
NA OFFICINA DE JORGE RODRIGUEZ. 
ÁANNO DE 
M.DCXVI. 


Com PRIVILEGIO REAL POR DEZ ANNOS. 


8 BrBLIOTHECA DE CLAssiCOS PORTUGUEZES 
a 

Por que sahe em breve diversão do campo heroico 
da Chronica, não deserta, a nossa Bibliotheca, do 
compromisso e do culto que a fundou e rege. 

Não tem senso critico, — estou em dizer até que 
não tem senso commum, — a mal humorada extra- 
nheza de Rivara de que a obra de Diogo Fernandes 
ande averbada ao indice dos Classicos quando lhe pa- 
rece suspeita em pontos de linguagem e não póde ne- 
gar-se que muito desleixadamente vestida pela im- 
pressão se apresenta na olympica assembléa. 

Alem de que é claro que não vale por authorisa- 
do arresto a suspeita delle, se os pecadilhos e lapsos 
de regencia grammatical fossem embargo rasoavel á 
valorisação historica e philologica de um monumento 
litterario, quantos, — e dos melhores, e dos consagra- 
dos, — teriamos de arredar e excluir á voz tyrannica 
do pseudo purismo dos grammaticos que á força 
de querer regulamentar e mechanisar a linguagem só 
pode e consegue esvasiar-lhe a exponteineidade e a 
vida ? 

Certo é que entre nós passa ainda, não raro, por 
licção e modello de classica litteratura, a logomachia 
artificiosa e procurada, — de muitos requintes regrados 
e postiços, — muito puchada á fieira de uma prosodia 
casquilha, —em summa: o peralvilhismo precioso da 
convenção academica em que a idea, a naturesa, a 
vida; a impressão immediata, o sentir ingenuo, a noção 
e a relação directa, a expressão expontanea e simples 
são trauteadas e atazanadas cruamente pela preoccupa- 
ção absorvente da fórma alindada, purista, embora 
morta, sediça, incommunicativa. 

Mas é de vêr e saber que não ha-de ser esse ridiculo 
e retardatario preconceito que nos ha-de dar a bitola 
para a escolha das nossas reproduções, que se tal fosse 
nem teriamos acabado agora de reproduzir Fernão Lo- 


o 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA [e) 


pes, — por não citar outros, — cujas sem-ceremonias 
grammaticaes e puristas bem mais nos terão agrade- 
cido os leitores do que se lhes offerecéramos as fila- 
granas e primores de muita fancaria academica. 
Quanto aos desleixos e incorrecções da impressão 

chega a parecer pueril impertinencia que se faça da 
vulgarissima pecha, obice apresentavel ao conceito e 
estima critica da obra de Diogo Ferreira. 

Longamente esquecido, — quasi inteiramente esque- 
cido hoje, —o trabalho do «moço da Camara delRei» 
é, sob todos os aspectos incluindo mesmo o da lingua 
e o da lexicographia nacional um precioso repositorio, 
uma utilissima e copiosa memoria, um monumento lit- 
terario, — unico no seu genero entre nós, que saiba- 
mos. 


Pi 
Licenças 


Não tem cousa por a qual se não possa imprimír. 
Fr. ManveL CogLHO. 
Vista a informação pode-se imprimir este livro intitulado 
da Caça das Aves d Altaneria, e depois de impresso torne a 
este Conselho para se conferir e dar iicença para correr, e sem 


ella não correrá. 
Em Lisboa, o primeiro de Julho de 614. 


O Bispo DE NIcOMEDIA. BARTHOLOMEU DA FONSECA. 


Antonio Dras CARDOSO. 


Pode-se imprimir este livro. 
Aos 27 de Janeiro de 615. 
Damião VIEGAS. 


Dão licença para se imprimir este livro da Arte da Caça. 


IO BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES. 


GA Dannaaaam 


visto a licença que tem do Santo Officio e do Ordinario, e de- 
pois d'impresso tornará para se taxar, e sem isso não correrá. 
Em Lisboa, a 12 de Março de 615. 


ÁLMEIDA. , MACHADO. 


Taxam este livro em um tostão em papel. 
Em Lisboa, a 5 de Maio de 1616. 


Francisco Vaz Pinto. Luiz MAcHADO. 


Traslado do Privilegio 


Eu El-Rei faço saber aos que este alvaràã virem, que Diogo 
Fernandes Ferreira, meu moço da camara, me enviou a dizer 
por sua petição que elle imprimira um livro intitulado da 
Arte da Caça d' Altaneria, e porque tivera n'elle muito trabalho, 
e lhe custara muito a impressão, me pedia lhe fizesse mercê 
de lhe conceder privilegio na forma costumada, para que ne- 
nhuma pessoa o podesse imprimir nem vender sem licença 
sua, € visto seu requerimento e por lhe fazer mercê, hei por 
bem e me praz que por tempo de dez annos, impressor, li- 
vreiro, nem outra alguma pessoa de qualquer qualidade que 
seja, possa imprimir nem vender em todos estes reinos e se- 
nhorios de Portugal o dito livro, nem trazel-o de fora d'el- 
le, senão os impressores, livreiros ou pessoas que para isso ti- 
verem licença do dito Diogo Fernandes Ferreira, e qualquer 
impressor, livreiro ou pessoa que durando o dito tempo de 
dez annos imprimir ou vender o dito livro nos meus reinos e 
senhorios, ou trouxer de fora d'elles sem a dita licença, per- 
derá para O dito Diogo Fernandes Ferreira todos os volumes 
que assim imprimir, vender, ou trouxer de fóra, e além d'isso 
incorrerá em pena de cem cruzados, metade para o dito Diogo 
Fernandes Ferreira, e a outra metade para quem o accuzar. 

Pelo que mando ás justiças, officiaes e pessoas a que O co- 
nhecimento d'isto pertencer, cumpram e guardem este alvará 
como n'elle se contem, o qual será impresso e encadernado 
no principio de cada volume do dito livro, e quero que valha, 
tenha força e vigor, posto que o effeito d'elle haja de durar 
mais d'um anno sem embargo da ordenação em contrario. 

Pedralves d'Almeida o fez, em Lisboa, a 26 de Maio de 1616. 
Manuel Fagundes o fez escrever. 

Rer. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA II 


In laudem autoris 


Scire si nisi rapientis ungues 
Quries, hunc lector bone curre librum 
Ales aterris super alta surgit 

Nubila pennis. 


Concinit normas. quibus in volucres 
Itur, insignes meditatur artes 
* Et dolos toto struit in vagantes 
ZEthere turmas. 


Nulla per celsos avis haret ulmos 

Qua levi tantum subeat volatu 

Ut sibi technas bene fabricatas 
Fallere possit. 


Ergo sit felix liber, et patrono 

Tutus, augustas eat Orbis arces, 

Ut sibilinos, Pylios quod gratus 
Vivat in annos. 


Icari Ponto maduere penna, 

Quas prius Titan radiis cremavit 

Scripta Jacobi feret in remotos 
Gloria fines. 


In laudem autoris 
Doctoris Sebastiani Alfari. 


Carmen 


Quem juvat aucupii, varias cognoscere formas 


hac legat : exiguus magna libellus habet, 


Quod nisi subtili scruptari lumine posset, 


- Subtili potuit Didacus ingenio. 


Naturas volucrum exponit, fremitusque ferarum 


Comprimit, illaqueat retibus, arte dogmat : 


Non Aquila hunc fallet, quanvis petat ardua cceli 


nec quanquam latitent sub cava lustra fere. 


Ergo huc Heroes, quibus est captare volutas, 


penigeras gentes, quadrupedumque genus. 


BrgLiorHECA DE CLASSICOS PoRTUGUEZES 


Ejusdem autoris 


ms 


Parve (nec invisus) vastum liber ibis in orbem, 
nec poteris domino non decus esse tuo 

Vade nec incultus, qualem decet aucupis esse 
Qui volucrum docta detigit arte modos 

Inequod te pudeat Critico si forte legendus 
Nil, quod te quisquam carpere posset habet. 

Rarus es aucupiis, dominus rarissimus auceps 
Miteris et raris non nisi Principibus 

Cur ergo in lucem intrepidus prodire recusas 
Quando sub tanto tegmini tutus abis? 

Et si populo quisquam te emendet : Apellis 
Scomate dic, Sutor, quid tibi trans crepidam ? 


Francisco Feio de Macedo, secretario do marquez, ao author 


ODE 


Tomou por alta empreza 

O Romano imperio 

Dominando do mundo a Monarchia 
Das aves a Princeza, 

A que com vituperio 

Os filhos prova ao sol quando os cria: 
No vó d'altaneria 

(Ferreira peritissimo) 

Com armas e signal 

D'outra Aguia Reai 

Sobis nas azas da fama ao Altissimo 
Dos ares mais subtis, 

Com vossos Gerifaltes e Nibris. 


D'uma ave pequenina 

Contam os naturaes 

Que debaixo das azas d'Aguia voa, 
E quando mais se impina 

Nos giros seus caudaes 

Sae, e voando sobre ella se corda: 
Roubar persume a loa 

Na levantada ponta, 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 13 


a ra 


mas 


Tal vós grão caçador 

Debaixo do favor 

D'esta Aguia que nos Ceus mais se remonta, 
Invejastes a fama 

Que o mór caçador ao marquez chama. 


Soneto ao auctor, de D. Affonso Fernandes de Angulo 


Tu bien cortada pluma e summo buelo 


A las aves del ayre y de rapina, 
Con tal arte las caça, y tal dotrina 
Qne doma a los Alcones con seríuelo 


Qual la prima dize, qual elle truçuelo 


Qual avenobre sea peregrina, 
Qual a la patria dexa, y se inclina 
Ir bolando buscar ageno suelo. 


À ty Diego doto naturaleza 


De angelicas alas y bolaste 

Con las aves del ayre y su pureza 
Y d'ellas los secretos nos mostraste 
Con ingenio, con arte e sutileza, 
La caça doctamente ensenaste. 


Soneto do author 


Busca o caçador lá no abscondido, 

O Cervo fugaz: e pela espeçura, 

O bravo Javali, o qual procura 

Nunca ser do sabujo conhecido. 
Depois do navegante ser partido 

Do porto com a náo busca altura 
Attento navegando só procura 

Não ser das bravas ondas consumido. 


Eu saio á luz de novo mas armado 

Com armas como vedes sem receio, 

De ser dos moles peito murmurado, 

Que tenho aos Reis do mundo por esteio 
É principes de sangue assignalado 

Me armam me estimam e tem no seio. 


14 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


/ 


Í 


A D. Francisco de Mello, marquez de 
Ferreira, conde de Tentugal, etc. 


+ OSTUMAM OS escriptores, tendo suas obras escri- 
ptas, offerecel-as a pessoas de authoridade, 
para que amparadas com ella sejam dos leito- 

res mais estimadas e melhor recebidas. 

Esta sciéncia e arte de caça das aves d'altaneria é 
propria de reis e principes e dos descendentes das 
reaes casas. E por V. S. ser liado em consanguinidade 
com os reis d'este reino e com todos os grandes de 
Hespanha, e amicissimo d'esta sciencia e arte da caça 
(na qual me criei de menino, com as mercês do sr. 
D. Francisco de Mello, marquez de Ferreira, de quem 
V. S. é dignissimo neto) me pareceu seria notado de 
culpa, se para ella buscasse outro amparo, senão o 
de V. S. a quem offereço as primicias da minha mo- 
cidade, agora por mim reduzidas em arte sendo de 
edade madura, o que fiz levado mais do desejo de 
desenterrar esta sciencia da sepultura do esquecimento 
(em que hoje n'este reino estava) que cubiçoso do 
interesse nem vangloria de ser o primeiro que puzesse 
esta pratica da caça das aves em feição (que me não 
custou pouco, mas como minha tenção foi fazer a 
V. S. este serviço, me ficou sendo o trabalho leve). 

V. S. o receba de mim com a benignidade que cos- 
tuma, e acceite a vontade grande com que a V. S. o 
offereço: a quem Nosso Senhor, etc. 


Diogo Fernandes Ferreira 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA I5 


Prologo ao leitor | 


UVANDO me dispuz a escrever esta sciencia da caça 
d'altaneria, meu principal intento foi mostrar 
aos meus naturaes uma arte com a qual fu- 

gissem á ociosidade, e os principes e senhores tivessem 
homens scientes e praticos que os scubessem n'ella ser- 
vir com satisfação e agradar com experiencia. 

Esta arte se divide como as mais em pratica e 
theorica: a theorica podem saber reis e principes e 
senhores, e todos o genero de pessoas, lendo esta 
ainda que a não exercitem, que tem regras e perceitos 
que ensinam a caçar. 

A pratica anda no uzo, sabe-se pelo costume (o 
qual entre nós está sepultado). Pelo que não perdoei 
ao trabalho, sendo de setenta annos, de tirar a luz” 
esta sciencia, por me criar nella desde minha meni- 
nice, caçando com Açores, Falcões, Gaviões e Esme- 
rilhões; a qual ensina como os homens hão-de criar 
estes em pequenos, soltos no ar, e depois de criados, 
a caçar, e como podem vir do mar em fora bem tra- 
tados. 

Nomeia todas as sortes d'aves de rapina e quaes 
sejam as reaes, e quantos generos ha de Falcões, e 
como pelas plumagens, talhes e feições se conhecem 
os melhores. 

Mostra quaes sejam suas doenças e os remedios 
para cada uma d'ellas. 

Declara a causa porque das aves de rapina são 
maiores as femeas que os machos, e melhores caça- 
doras, e como a natureza tambem criou aves de ra- 


16 BrepLioTHECA DE CLAassicos PORTUGUEZES 


sp remmerammammame 


pina nocturnas, e como com o bufo se tomam Fal- 
cões, Gaviões ec Açores, e todo o genero d'aves 
de rapina se sustentam, com armadilhas que ensina. 

Dá preceitos aos curiosos para saberem governar 
todo o genero de aves de caça, e como se procederá 
com us Açores vindos de Noruega, no ensino de sua 
caça, que é o contrario dos de Hespanha. 

Trata da passagem e peregrinação das aves do 
Norte e dos ultimos montes da India, a invernar a 
nossa Hespanha, em cuja companhia passam os Fal- 
cões, Nebris e Bafuris, peregrinando por toda a Eu- 
ropa. 

De algumas aves de notavel grandeza faz capitulos 
separados. 

Diz como tornadas estas a criar os filhos veem ou- 
tras a estes reinos fazer seus ninhos, e como se reco- 
lhem passado o verão a invernar ás partes d'Africa 
d'onde vieram. 

Mostra a differença que ha das aves silvestres ás 
agrestes, e como a Natureza ensinou cada um d'estes 
generos a conservar a sua especie, e até ás felosinhas 
tendo seu filhos criados deu modo para se passarem 
em Africa. 

E se no escrever passci os limites da caça, não foi 
inadvertencia, porque a licção vária deleita, e as cou- 
sas da Natureza não enfastiam, e se o estylo meu não 
fôr tal como convem á altaneria peço ao leitor amigo 
perdoe a falta da minha eloquencia, que o que con- 
vem á arte direi como Guido de Cauliaco no capitulo 


geral da sua cirurgia — Sufficit facere quod ars pro- 
copit. Vale. 


Wo ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 17 


Advertencia dos vocabulos d'esta arte 
e da significação d'elles 


A pratica d'esta arte da caça como em todas 

as mais andam introduzidos alguns verbos e 

nomes, os quaes sómente n'ella se uzam, e das 

pessoas que não tiverem muita noticia da caça serão 

extranhados; pelo que me pareceu cousa decente de- 

clarar alguns verbos dos que n'esta arte uzo, por não 

mudar estylo, fugindo rodeio de palavra, sem os quaes 
se não podia declarar a propriedade da cousa. 

Os verbos pertencem á arte, e muitos dos nomes 
ás proprias aves de rapina. 

Dizemos Falcão prima, Açor prima, Gavião prima, 
Esmerilhão prima, e da mesma maneira dizemos Fal- 
cão, Açor, Gavião e Esmerilhão treçó. 

As femeas d'estas aves são as primas e os treçós. 
os machos. 

Não acho d'onde nascesse esta mudança de nomes, 
mais que estas aves serem nobres e esta pratica de 
caça d'altaneria para reis e nobres do mundo inven- 
tada, e por não nomearem Falcão femea e Falcão ma- 
cho, por polícia se mudou em prima e treçó, não 
como alguns cuidam que o prima seja aquella que 
nasceu primeiro no ninho, e por esta causa se no- 
meia assim. 

As femeas, que são os primas nas aves de rapina, 
todas são maiores de corpo que os machos; a causa 
porque o sejam, e melhores na caça que os treçós, se 
verá no capitulo da Aguia, com muita satisfação. 

Os nomes adjuntos a estas aves são plumagens, as 


BrgLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


rá 
quaes significam propriamente as pintas das pennas 
com as quaes estão vestidos os peitos d'estas, por 
umas d'ellas são pintadas em os peitos de branco 
e preto, outras de pennas ruivas, e as pintas da mes- 
ma côr com algumas differenças, outras variam Como 
se verá no capitulo de cada sorte de Falcões, pelas 
quaes o caçador conhece o Açor e Falcão eo mais 
para que possam prestar cada um, que a Natureza 
não se descuidou mostrando nas aves o que nos ho- 
mens não escondeu, porque a uns fez coléricos e a 
outros fleugmaticos, a outros melancolicos, a outros 
sanguineos, e conforme á predominação dos humores 
assim lhes dotou a côr dos cabellos e vultos; aos cóle- 
ricos fez ruivos, aos fleugmaticos brancos, aos melan- 
colicos morenos, aos sanguineos roxos, e conforme ás 
côres e myxtão dos humores se julgam as inclinações 
dos homens. 

Assim nas aves, nas côres das pennas, e pintas das 
que nos peitos tem, (as quaes chamamos plumagens), 
as escolhemos. 

Tem mais nas azas pennas de differentes nomes, e 
ellas differentes entre si. A umas chamam fuzis, que 
são as que estão nos cotos das azas, a outras cutellos 
porque tem feição de cuteilos, e nascem das pontas 
das azas. A outras chamam thesouras, que são as 
primeiras que se veem nas pontas das azas, e são a 
modo de thesouras, e menores que as reaes. 

Às pennas reaes são as mais compridas de todas, 
e estão junto das thesouras até á volta da aza. Par- 
tidouras são aquellas que nascem nas juntas das azas 
da banda de dentro. As aguadeiras se chamam todas 
aquellas que acompanham as azas até 6 cabo. As cu- 
berteiras ou cunhas, são aquellas que cobrem as pen- 
nas reaes e amparam o nascimento d'ellas e servem 
como de fortificação para assim as fazer formosas e 


18 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 19 


fortes e mais voadoras, que as creou a natureza para 
estas aves nobres terem tudo perfeito e acabado. 

Canellas das pernas que em nós tem este nome, nas 
aves se chamam sancos, e os pés mãos, e os dedos do 
meio chamâmos cingideiras, e os dedos que são sós 
por si, alcanços. 

As correias que trazem postas nos sancos chamam 
piós, e as em que tem os cascaveis, malhos. As com 
que atam o Falcão na vara chamam avessadas. À cor- 
reia que vae do tornel ás lagrimas ou contas se diz 
salto ou cós. 

Ao pau em que costumam pôr e atar o Falcão al- 
candora. 

“O que traz na cabeça, caparão, o qual se lhe põe 
para estar quieto no logar onde o caçador o pozer. 

Guarnecer chamam os caçadores quando tem as suas 
aves de todas estas cousas compridamente concerta- 
das. 

Plumada é um vultosinho feito de pennas do ta- 
manho da cabeça d'um dedo pollegar (se de Falcão 
fôr) que os Falcões, Gaviões e Açores lançam pela 
bocca cada dia pela manhã, o qual vulto é conforme 
ao corpo da ave, e se ajunta no bucho, das pennas e 
ossoszinhos que estas aves comem misturadas com a 
carne d'aquellas aves de que se cevam. 

A carne como branda se coze no bucho, e a Natu- 
reza encaminha aquellas fezes ao lugar que para isso 
está deputado d'ella, ao qual chamam oveiro por ho- 
nestidade ; á immundicia se chama tolhedura. 

Dormida é a arvore a qual o Falcão e cada uma 
das aves tem certa para repouzar, e a ella vão dor- 
mir todas as noites como a casa sua. 

Querença é aquella parte ôu lugar d'onde estas 
aves de verão custumam crear seus filhos, sejam bos- 
ques d'arvoredos ou rochas d'altissimas pedras. 


20 BreLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES / 
J 
Fe 

Deceinar é o verbo que significa propriamente tas 
zer as aves na mão, de noite. Estas depois de tiradas 
da muda (ás quaes para bem mudarem as pennas ve- 
lhas e criarem outras de novo bem fornidas lhes dão 
a comer boas viandas), ellas bem curadas e quietas 
na casa da muda, tomam muita carne e criam banhas 
a que chamam enxulha, e ao sahir da muda vem as- 
peras, por mansas que entrem n'ella. Como n'aquelle 
tempo se não trazem na mão se fazem esquivas e to- 
mam orgulho, e para as tornarem a abrandar e pôr 
nas carnes que convem para caçar, trabalham com 
ellas de noite. A este trabalho chamam deceinar. 

Matinar é verbo da caça que significa levantar-se 
o caçador de madrugada com a sua ave para assim a 
ter apparelhada e com fome para ir caçar, porque se 
lhe dão pouco de comer enfraquece, e convem haja 
prudencia, que as madrugadas amançam e fazem fome. 

Treinar significa ensinar as aves que apeguem 
n'aquellas ralés, nas quaes os Falcões nem Açores 
não haviam de apegar nunca senão por industria do 
homem. 

Quero que o meu Falcão mate as garças ou patas 
bravas, dou-lhe de comer sobre a garça ou pata man- 
sa, e faço que apegue n'ella, e por isso lhe dou a co- 
mer gallinha em cima da pata, e o mesmo faço na 
garça e no milhano para que o Falcão ou Açor assim 
costumado a comer sobre estas aves, tendo perdido o 
medo d'ellas, lançando-o á brava pelo ar afferre n'ella 
e a embarace até ser soccorrido, e d'este modo se 
treina cada ave em sua ralé; o Gavião no francelho 


A este ensino e acção chamam treinar, e ao que 
lhe lançam chamam treina, d'onde dizem os caçado- 
res: já treinei o meu Falcão em tal ralé. 

Cevar é o verbo que significa dar de comer ao Fal- 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 21 


cão ou a qualquer ave: assim como o meu Falcão 
matou a garça, e o Açor a perdiz, dei-lhe comer, e 
ainda que o caçador lh'o não desse elle come a ave 
que matou, tambem guarda o mesmo nome. 

A perdiz em que o Açor se cevou, se fica alguma 
cousa d'ella, chamam cevadura. 

Sopezar é verbo que significa, tendo os Gaviões ou 
Esmerilhões tomados os passarinhos, fugirem com 
elles nas mãos aos caçadores, o que tambem fazem 
algumas vezes os Açores com as perdizes na caça. 

Ralé é aquella ave ou passaro ao qual é mais incli- 
nado o Falcão, Gavião ou Açor. O Falcão ás pombas, 
o Açor á perdiz, o Gavião aos passaros pequenos, e a 
industria do homem os faz passar ávante. 

Prizão é aquella ave que prende o Faicão, ou ÀAs- 
sor ou Gavião, seja grande ou pequena. 

Picadas são aquellas que dão os caçadores, da car- 
ne, á sua ave para lhe fazerem gazalhado e mostrarem 
que lhe são amigos, e quando lhe querem dar plu- 
madadas, para que engulam os fios, lhe misturam 
umas migalhas de carne; tambem as embrulham com 
pennas meudas para fazerem plumada. 

Pollo é o Falcão, ou Açor ou Gavião nascido 
n'aquelle anno. 

Orgulho é soberba da ave, o qual toma se a não 
trazem na mão, e lhe dão de comer demasiado, e de 
aves agrestes: tibio, covarde, ardido, colerico. 

Muda, a casa em que se põem o Falcão, Gavião ou 
Açor para mudar as pennas. 

Ferida se chama o lugar ao qual se acolhe a per- 
diz por medo do Açor, ou sejam rochas, covas ou 
barrancos, silvas ou arvores. 

Rol é aquelia insignia feita de couro na qual se 
atam azas de aves e corpanços de gallinhas, com os 
quaes chamam os caçadores aos Falcões andando á 


22 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES é 
pç + 
volta no ar, rodeando com aquelle rol, tendo-o ata- 
do com uma correia, e O largam ao Falcão costu- 
mado a pegar d'elle. Os castelhanos lhe chamam ce- 
finelo 

Os escudetes ou conchas são aquellas asperezas que 
os Falcões e Açores e as mais aves de rapina tem 
nos sancos, feitos á similhança de escamas de peixe. 

Falcão garceiro é o que mata garças, guerreiro o 
que afferra nos grous, altaneiro o que caça toda a 
voaria. Ninhego o criado pelos homens; çafaro, fal- 
cão bravo criado pelos paes. 

Cetraria é nome d'esta arte de caça mui antigo; 
significa geralmente sciencia de caçar com aves de 
rapina, e sabel-as curar, perservando-as a que não 
adoeçam, e doentes saber-lhe applicar os remedios, 
assim aos males de fóra como ás enfermidades inte- 
riores. 

Citreiro é o caçador sabio, tanto como medico ou 
cirurgião. 


CAPITULO 


Que diz que cousa seja caça e quem foram os primei- 
ros inventores della 


vILHELMO Benedicto in verbo Venatione, diz: — 

«E' tão propria a caça dos reis e monarchas 

“do mundo como fazenda sua, e como tal a 

sustentam por razão d'estado, e para governo d'eila 

tem seus caçadores móres, pessoas illustrissimas, e 

homens praticos n'esta sciencia, por caçadores das 

aves, e a exercitam por passatempo justo e saudavel, 
indicio certo da milicia » 

Polião Hebreu na vida de Moysés assim o affirma, | 
e Tulio no segundo da natureza dos Deuses. 

Faz a caça os homens ageis, fortes e robustos, des- 
presadores de delicias. 

Cicero nas suas tuscullanas, fallando d'ella diz: — 
«Os lacedemonios com trabalho na caça, correndo e 
suando, com fome e sede, adubavam os seus manja- 
res ». 

- E' conservadora da castidade. Muitos authores es- 
creyem que Dianna por guardar sua pureza e casti- 


s 


24 BrgciorHeECcA DE CLAssicOs PORTUGUEZES 


dade fugio á conversação dos homens e se fez caça- 
dora, pela qual razão as gentilidades a tiveram por 
Deusa da caça. 

E” allivio de cuidados pesados, mãe de altos pen- 
samentos, é finalmente um toque no qual se conhece 
o para quanto cada pessoa seja. 

Esta se reparte em duas caças bem differentes, 
uma das feras escondidas nos bosques, outra das aves 
celestes de rapina. Das feras usaram os primeiros ho- 
mens do mundo, como nos dá testemunho a Escri- 
ptura Sagrada; foram caçadores d'ellas Caim, La 
mech, Munroth, Esau e Ismael. Os phrígios, persas e 
lacedemonios foram mui grandes caçadores desta 
caça. 

Da das aves de que é o nosso tratado, foi inventor 
aquelle grande principe Ulyses Grego, fundador da 
cidade de Lisboa. Assim o refere Mathias Banha, na 
sua Praça Universal, a folhas 517. 

Estas duas caças são differentes no modo de caçar. 
As feras se caçam e perseguem com cães, e se matam 
a ferro e a fogo, incitando a fereza e crueldade, A 
nossa das aves é de principes, e se faz muito pelo 
contrario, com amor, com engenho, prudencia e sof- 
frimento. 

Com engenho tomando os Falcões, Açores, Gar 
viões e Esmerilhões bravos, e fazel-os com amor e 
prudencia mansos e amigos, que elles postos em 
sua liberdade desçam das nuvens aos acenos dos se- 
nhores, com mostras de amizade, significando que 
tem saudade de seus mimos e affagos. 

Com industria ensinando-os a que cacem não só- 
mente aquellas aves que elles antes por sua natureza 
caçavam para se cevarem, mas outras muito differen- 
tes na grandeza, como são as garças, mettidas nas 
nuvens, quasi perdidas de vista, e os grous nesse ar, 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 25 


aves tão grandes como um homem, trazel-as á terra 
um tagarote, ave bem pequena, e tel-o até ser soc- 
corrido; e os cysnes, patas bravas e abetardas, rom- 
pendo com seu vôo a densidão das nuvens; e os Yal- 
cões e Açores, de lá do alto trazendo as prezas, e 
tel-as agarradas até as entregarem aos senhores, o 
que fazem por industria do caçador, com invenção e 
arte. 

D'esta caça foram mui amigos todos os reis de 
Hespanha. D'el-rei D. Fernando se lê ter trezentos 
Failcões, cento que caçavam grous e cento que eram 
garceiros, e outro cento altaneiros, que é toda a voaria. 

Os nossos reis e principes foram mui grandes ca- 
çadores, e sempre se uzou geralmente pelos nobres 
d'este reino, e tanto que até os religiosos, conegos, 
tinham Açores, e a gente vulgar Gaviões, dos quaes 
entravam cada anno n'este reino mais de trezentos, e 
não faltava a quem os vendia compradores, nem aos 
senhores homens espertos que os soubessem bem servir. 

Durou este passatempo tão justo até o tempo d'el- 
rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores 
a esta caça affeiçoados, e os homens praticos n'ella, e 
a altaneria juntamente com elles; e por não faltarem 
hoje senhores desejosos de renovarem a caça, e care- 
cerem de homens que n'ella os soubessem servir, me 
pareceu ter obrigação, assim á arte como á nobreza 
d'este reino, fazer este tratado, por ser exercício sem 
peccado e passatempo de principes, utilissimo á saude 
do corpo e alma, contrario da ociosidade, mãe de de- 
licias, fonte de vicios, principio de todos os males e 
peccados; por cuja cauza os reis e monarchas do 
mundo, christãos, barbaros e gentios, tem caça e a sus- 
tentam por razão de estado, com grande aparato e 
despeza, ainda que caçadores não sejam, por ser arte 
necessaria nas republicas, tanto como as armas e hu- 


26 BrsgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


AL PP rr rr 


manas letras, e a dão a cargo a caçadores móres, 
pessoas illustrissimas em geração e sangue, e assigna- 
lados em todo o genero de virtude. 

Destros na arte de fazer mal a cavallo, animosos, 
liberaes e prudentes, agudos de engenho, sofredores 
das injurias do tempo, e na pratica da caça experi- 
mentados e incansaveis no exercicio d'ella, para que 
os principes seus filhos e os grandes de suas córtes 
os imitem, fazendo-se com este varonil passatempo 
duros, e os nobres seus vasallos e moradores em seus 
reinos os sigam fazendo o mesmo, e saibam servir a 
seus reis nas occasiões da guerra, porque a caça é de- 
monstração verdadeira da milícia, d'onde vem que 
sendo os homens caçadores de qualquer genero de 
caça que seja, são cavalleiros animosos e duros, des- 
prezam os afeminados e moles e deliciosos, e outras 
cousas que não são d'esta arte, as quaes deixo. Lem- 
brando porém que o infante D. Duarte, filho do catho- 
lico rei D. Manuel, além de ser amicissimo das letras 
e inclinado á musica, foi mui grande caçador das aves 
e das feras, que muitas vezes por matar um cervo ou 
veado lhe aconteceu andar sem comer o dia todo, e 
muitas noites dormir vestido por razão da caça, e 
sendo reprehendido por um seu familiar, respondeu 
que os homens não podiam bem exercitar a guerra se 
se não acostumassem ao trabalho da caça. 

Quem quizer vêr a vida d'este principe leia a 
Chronica d El-Rei D. Manuel, de gloriosa memoria 
na sua vida. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 27 


CAPITULO II 


Das aves de rapina em geral 


vEs de rapina são aquellas que se mantem de 

aves vivas que ellas voando caçam para sua 

comida. D'estas ha varios generos e differen- 
tes sortes de piumagens. 

As estimadas dos grandes senhores são Falcões e 
Açores, Gaviões e Esmerilhões e Ogeas. Estas são as 
mais limpas e nobres, e d'ellas uzam os principes em 
sua caça, as quaes se avantajam a todas as aves do 
ceu na ligeireza do voar, no atrevimento do animo e 
na força que tem na preza das mãos, nas quaes tem 
tanta que apertando muitas vezes o Açor com suas 
mãos a do caçador por cima da luva, o constrange a 
lhe doer o braço sem poder menear os dedos. 

A Natureza que nada fez sem causa, criou estas 
para passatempo dos principes, pelo que as dotou e 
fez differentes de todas as mais aves; com os dedos 
das mãos da banda-de baixo lhes criou uns nós ner- 
vosos como verrugas, da côr dos mesmos dedos, e a 
cada um d'elles os deu conforme o seu tamanho, o 
que fez para que assim tivessem força para sustenta- 
rem aquellas prisões de que afferrassem e se lhe não 
fossem. Estas de tal maneira tem afferradas as ralés 
que tomam, que é necessario engenho e muita força 
para lhes tirar a preza. 

Estes nós que digo só os Falcões, Açores e Esme- 
rilhões, ogeas e as aguias tem, as quaes se mantem 
de aves que ellas por sua ponta da aza voando no ar 
- alcançam e prendem, e todas as mais aves carecem 


28 BrBLIOTHECA DE MLASSICOS PORTUGUEZES 


d'elles. Pelo que advirto ao caçador que fôr buscar 
Açores a terras extranhas se lembre do que a Natu- 
reza se não esqueceu, porque já aconteceu algumas 
vezes trazerem a vender em lugar de Açores tarta- 
ranhas e bilhafres, que em pequenos são bem simi- 
lhantes no rosto e plumagem e mais feições aos 
Açores, e só nas mãos differem que carecem dos nós 
que digo, e aconteceu haver engano. 

As aves que acima digo nobres, se cevam duas ve- 
zes no dia, e sempre buscam aves de novo de que 
comam, e se alguma cousa lhes sobeja pela manhã, 
não curam de tornar a ella á tarde; só os Gaviões 
algumas vezes o fazem, que como são aves pequenas 
e lhes acontece caçarem perdizes e pombas, e lhe 
sobeja muita comida, por não tornarem a trabalhar de 
novo buscando aves de que se cevem, tornam a co- 
mer o sobejo. 

As aguias, a quem todas as aves temem, tambem 
caçam aves vivas, e como são aves grandes e pezadas 
o seu modo de caçar é diflerente, porque estas voan- 
do á tira não poderão alcançar ave alguma, e para o 
poderem fazer se levantam ás voltas, pondo-se nas 
nuvens; de lá descem ás aves que por baixo passam 
com as azas fechadas, rompendo com o pezo da sua 
grandeza a densidão do ar mais depressa que todas | 
as aves, e assim fazem sua preza no que hão-de co- 
mer. 

Muitas vezes erram o lanço, furtando-lhe a prizão 
o corpo, e assim frustrada, constrangida da fome, des- 
cem a tomar a lebre e o coelho, e ás vezes o cordeiro 
novo; muitas vezes a acharão comendo em cão morto. 

Outras aves ha de rapina, como bilhafres, altafor- 
mas, cabisalvas e assorenhas, as quaes tomam algumas 
vezes aves vivas que comem, mas ordinariamente se 
mantem de bichos da terra. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 29 


Os corvos e milhanos e brita ossos e abutres tam- 
bem comem aves e são contadas com as de rapina, 
mas seu proprio mantimento são carniças. A estas 


deixo tornando á nossa caça, começando pelos Ga- 
viões, indo de menor a maior. 


CAPITULO III 
Dos Gaviões 


s Gaviões são das mais pequenas aves de corpo 
de todas as de rapina; na lindesa d'elle exce- 
dem a todas as mais que de rapina se nomeiam. 

Tem as mãos compridas e delgadas e os dedos da 
mesma feição. São lindissimos, e nas mãos dos ho- 
mens parecem excellentemente, e logo dão indicio a 
Natureza os criar para principes emquanto moços se 
exercitarem na caça, porque elles de verão matam os 
perdigões, cordonizes e todo o genero de passarinhos, 
e de inverno prisões e ralés que dão muito prazer a 
seus senhores. São muito animosos; muitas vezes an- 
dando á caça de passarinhos, se se levanta a lebre 
afferram d'ella. 

À meu avô, andando á caça a pé aos passarinhos, 
aconteceu dar com os pés em uma lebre, e o Gavião 
sahir e afferrar com ella, a qual em vez de saltar 
adiante, deu o salto atraz e o caçador a levou pelas 
pernas. D. João Luiz, andando á caça com o Gavião, 
com elle tomou um coelho. 

Estes se chamam em latim Nisos, que quer dizer 
exforçados; são priviligiados que não pagam direitos, 
nem as aves que com elles vem. Assim o diz Pero 
Lopes no seu tratado dos Falcões. 

As plumagens d'estes em geral são duas, ruivas e 
brancas. Os ruivos d'elles o são muito, outros que o 


RCE do Lad 


30 BreLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


não são tanto. Tem pintas variadas pelos peitos, mui- 
tas a feição de riscas atravessadas, e são da côr das 
que tem pelos peitos, d'ellas grossas, outras meudas, 
e em muitas d'ellas uns como corações dependura- 
dos, que lhes dão muita graça. 

Outros Gaviões ha alvos e outros menos brancos, 
todos com pintas pardas atravessadas pelos peitos, 
d'ellas delgadas e outras maiores, com umas nodoas 
feitas a maneira de corações, que são graciosas á vista. 
Alguns d'elles tem as pennas do oveiro brancas, ou- 
tros as tem com pintas atravessadas n'elles. Estes se 
tem por mal acondicionados, mas havendo caçador, 
não ha n'elles condição , que são aves nobres; querem- 
se com mimo, como se dirá em seu logar. 

Achando ó caçador que possa escolher de qual- 
quer plumagem, tomara eu o maior do corpo, e mui- 
ta carne, pouca penna, mãos compridas e enxutas, o 
sanco curto e grosso, o rosto comprido, cabeça pe- 
quena, ventas bem abertas, sobre bico grosso, descar- 
regado das costas, as azas compridas e bem tiradas, o 
cabo vultoso. Das plumagens tomara o branco, que fui 
mui affeiçoado a elle. 


CAPITULO EM 


Onde se acham os Gaviões, e como se criam pelos ho- 
mens no ar 


s Gaviões são vistos em muitas partes do uni- 
verso. N'este reino se acham no Gerez e na 
serra da Estrella e na de Louzã e em Santo 

Aleixo. 
Em Castella em muitas partes se acham na serra 
Morena, em Arronche e junto de Guadalupe. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 31 
a ra 


Tambem em toda a serra de Ronda ha grande nu- 
mero d'elles; só da villa d'Ubrique, que é na mesma 
serra, vi eu em um anno onze portuguezes, cada um 
com mais de vinte primas. 

Muitas vezes os trazem tão pequenos a vender que 
escassamente os conhecem os caçadores quaes sejam 
primas ou treçós; conhecer-se-hão por pequenos que 
sejam, que logo tem as cabeças maiores e os sancos 
e as mãos e os dedos mais grossos e compridos, e 
muitos vem tão pequenos que não podem levantar a 
cabeça. 

A estes se dará de comer com um pausinho del- 
gado na ponta, pondo-lhe nella a carne picada e limpa 
dos ossinhos, a qual se lhe metterá na bocca, que 
elles logo abrem em lhe tocando no bico; o bocado 
seja que o possa elle engulir. Trabalhe quanto fôr pos- 
sivel porque os não tomem na mão, mudando-lhes 
a cama a meudo, e estejam sempre limpos. Emquanto 
muito pequenos se lhes dê comer a meudo, quatro e 
cinco vezes ao dia, em sahindo o sol se ponham a 
elle, e aquecendo o dia á sombra, que elles logo mos- 
tram se tem frio pipitando, e se tem muito sol abrin- 
do as boquinhas. 

Outros vem já bonitos, que lhes apontam os ca- 
nhões; tambem se lhes dê de comer com o páu duas 
vezes ao dia. Outros trazem que lhe apontam as pen- 
nas; estes estranham o homem, porque tem conheci- 
mento dos paes. Tambem se lhes dará de comer com 
o páu, e estes são os louvados, que vem criados dos 
paes. Como lhes apontarem as pennas se lhes dará 
de comer duas vezes ao dia quanto elles quizerem. 

Alguns trazem já grandes, tomados fóra do ninho, 
“a que chamam Rameiros; estes atitam e fogem do 
homem, e muitas vezes acontece estarem um dia in- 
teiro sem comer, de bravos. Com estes se haverá 


32 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


JE 


dando-lhes de comer com o mesmo páu, mas mais 
comprido, chegando-lhe o comer ao bico, e como en- 
gulir o primeiro bocado, logo aguardará pelo se- 
gundo. Estes taes Gaviões nunca são grandes de 
corpo. 

As carnes com que se houverem de-criar os Ga- 
viões em pequenos, sejam passarinhos miudos, rôlas, 
frangãos e frangas; guardar de gallinhas velhas que 
são duras de gastar; os pombinhos grandes são bons, 
todas as aves do campo são louvadas depennadas e 
limpas, e tirados os ossos das azas e das pernas e 
bico fóra. HHão-de ser picadas com cutello agudo em 
taboa limpa, fugir de cousa que toque a sal, que é O 
seu rosalgar. 

Às carnes a melhor é a do coelho, logo a de bode; 
o coração de vacca não é máu, e da sua carne da 
vinça e dentre pá; hão-de ser as carnes frescas, que 
tendo qualquer cheiro, bastará para se matarem os 
passarinhos, a qual detida no papo accrescenta mais 
o mau cheiro e enjôa os Gaviões, e adoecem sem re- 
medio. 


CAPITULO;Mi 


Da arte que se ha-de ter no faser da gaiola para vi- 
rem pelo caminho 


gaiola em que hão-de vir pelo caminho se fará 
de canas, será mais comprida que quadrada, 
a modo de meia folha de papel, seja ella do 
tamanho que parecer que baste para o numero dos 
Gaviões que se hão-de trazer n'ella. 

O uzo ensinou um modo excellente que se fará 
como dos passarinhos, pondo-lhe nos cantos varas de 


MTE o Mo 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA | 33 


marmeleiro, e n'elles metidos uns canudos de cana, 
porque se não abaixa, e no fundo lhe porá as canas 
fendidas, que fiquem bem bastas; as pontas se arre- 
matarão nas canas que estão postas a comprimento, 
que as fendidas hão-de ser atravessadas, e por cima 
d'ellas se porá um panno de côr cozido, e por cima 
ha-de ter a cama em que elles hão-de vir, e ha-de 
ser de palha de cevada, e pelas ilhargas toda a redor 
quanto diz a altura se cercará de rede feita de ma- 
lhas meudas, e se atarão ás canas de baixo e ás de 
cima, ligando-a porque fique bem teza, e pela banda 
de cima se cozerá um panno de calhamaço, que cu- 
bra o vão de toda a gaiola e as ilhargas, o qual panno 
se cozerá nas canas de cima, e ficará estendido que 
cubra toda a gaiola pelas ilhargas, e não será cozido 
da parte de baixo, e basta a rede para ter os passari- 
nhos que não saiam da gaiola. 

Ficará porta em uma das ilhargas para que se pos- 
sam tirar quando se lhes der de comer, e quanto fôr 
possível se evitará tratarem-os com as mãos, que elles 
querem tres cousas: muita limpeza, pouco tratados 
com as mãos, e bem de comer de boas viandas. Pelo 
caminho se lhes mudará a cama cada vez que fôr ne- 
cessario. 

Aleuns os trazem nas gaiolas assim como aqui os 
homens pedras em paviolas, e isto trazendo a gaiola 
dois homens, mas cada qual os costuma trazer ás suas 
costas, atando um pau no meio da gaiola pela parte 
de cima, e ainda que viesse a cavallo vinha com a 
carga ás costas, porque assim vem mais quietos que 
diante da cavalgadura; com o passo d'ella se embe- 
bedam e não comem e adoecem, e vindo por esta 


“ordem chegarão a salvamento a casa, onde os porão 


] 
É 


em seu ninho. 
Os logares mais acommodados para se criarem no 


FOL. 2 VOL. I 


E ay 
El ri k os - 


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34 BreLiOTHECA DE CrAssicos PORTUGUEZES pt 


amar 


ar são quintas onde haja arvores e pouca gente, e 
junto d'alguma arvore se fará seu ninho, que será 
com uma cortiça ou tábua quadrada do comprimento 
d'uma vara de medir, e para melhor, conforme ao 
numero dos Gaviões que houver. 

Esta porão alevantada da terra, que fique dando 
pelos peitos, posta de modo que em sahindo o sol lhe 
dê logo para que gozem os passarinhos delle, e de- 
pois como se fôr levantando lhes fique fazendo som: 
bra, e se não se achar arvore a qual por si só possa 
fazer estas cousas, que lhe prive a quentura do sol, 
ajude-se com algum amparo, pondo-lhe um lençol: 
com que se lhe faça sombra, que os trata muito mal 
a calma, que os mesmos paes lhe enramam o ni- 
nho, e havendo grande sol os amparam com as azas 
estendidas. Isto fazem emquanto pequenos. 

A arvore junto á qual se hade fazer O ninho não 
seja romeira, que os passarinhos vendo a vermelhidão 
das romãs pequenas, as engolem cuidando que é carne, 
e morrem disso, de que eu sou boa testemunha, por- 
que a mim me aconteceu. 

Tambem se evitarão arvores de espinho, porque el- 
les em começando a voar não são desenvoltos, e dão 
comsigo pelas arvores, e sendo de espinho, podem-se 
ferir. 

N'esta cortiça lhe farão boa cama, e seja bem bran- 
da, de folhas de sovereira ou de era, porque a palha da: 
cevada não é tão louvada que as tolheduras que fazem 
não se escondam nas palhas como nas folhas, e se su- 
jam, e elles querem limpeza. 


ARTE DA CAÇA DE ALTANERIA 35 


CAPITULO VI 


= Dá arte que se hade ter em lhes dar de comer na criação 


UANTO fôr possivel trabalhe o caçador por lhes 
dar de comer a todos em pouco espaço de 
tempo, porque se algum tardar em gastar seu 
papo, não cuidem que foi o derradeiro que comeu, que 
é perigo não lhe acudir logo; e se houver muitos 
Gaviões, tenha o caçador muitos que o ajudem; para 
| cadã um sua cortiça do tamanho“de meia folha de 
papel, e áquelle que quizer dar de comer lhe porá a 
“cortiça junto, mostrando-lhe a carne, e logo virá, e 
se apartará com elle em cima da cortiça d'onde os 
outros o não vejam comer, e como aquelle comer, 
podem tomar outro; e d'este modo havendo quem 
ajude se dá de comer em breve tempo. () comer de 
pela manhã será ás oito, e á tarde ás seis horas. 
A quantidade da ração e papo basta que seja a cada 
“um pardal e meio, e de um pombinho do pombal a 
quatro. 
- Depois de se lhe dar de comer, d'ahi a duas horas 
se vizitarão que acordem e metam o comer no buxo, 
que muitas vezes se descuíidam com o somno, e acor- 
dando-os logo dão ao papo, e metem o comer onde 
digo. E á tarde antes de lhe darem de comer se vizi- 
tarão, e achando algum com papo se apartará dos ou- 
“tros, e se elle ás horas do comer tiver papo tão grande 
“que o não possa gastar, lh'o deitarão fóra, e é cousa 
facil de fazer, o que se faz tomando a cabeça do pas- 
“saro com a mão esquerda, abrindo-lhe com os dedos 
della a bocca, e com a mão direita se lhe deitará o 


36 BrpLroTHECA YE CrAssiCOS PORTUGUEZES 


papo fóra, crazendo-o debaixo para ,o bico (e isto se 
fará tendo-o outra pessoa derrubado) com arte e bre- 
yidade, quanto possivel fôr, e seja de modo que lhe 
não fique nada, e logo lhe darão um par de bocados 
d'agua, e d'ahi a uma hora se lhe dará d'um passari- 
nho quente bem picado; costumava eu, a haverem, 
andorinhos novos, os quaes buscava emquanto elle es- 
tava com aquella agonia, ou pintasilgos, e da tutela de 
uma rôla ou françgão, e d'este modo se governará até 
estar fíra de perigo. 

Vizitar-se-hão os passaros á noite a vêr se teem frio, 
que logo se deixa vêr em elles pepitarem, e se ache-: 
gam uns a outros. 

Póde-se-lhe pôr em cima algum cesto ou canastra, 
e cobril-os com um panno de modo que se não afo- 
guem. ; 

Em amanhecendo se verão se tem algum papo, e 
tendo-o o tirarão dentre os outros, porque regeitando 

não comam o arremeçado, e se não acabar de gostar 
lh'o deitarão fóra como digo, que é o melhor remedio 
de todos. E este cuidado se terá emquanto elles não 
voam, porque como voarem vão dormir fóra, e não 
tem o caçador este trabalho, e não ha n elles tanto pe- 
rigo. 

Costumam, quando são já bonitos e voam irem dor- 
mir fóra d'onde se criam, e tornam em amanhecendo, 
e se deixam estar todo o dia. Convem ter junto do ni- 
nho dois alguidares d'agua limpa e doce, que ás vezes 
bebem d'elia e se banham, refrescando-a cada dia. 

A uma hora depois do meio dia irá a caçador vViZis 
tal-os com um pequeno pedaço de carne, tomando Os 
que já estão empenados em uma cortiça pequena, e 
n'ella os meterão na agua, a quai lhe dará pelas coxas, 
e lhe darão com uma varinha na agua, a que lhe dê al- 
gumas gottas no corpo e no rosto, e elles logo com o 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 37 


“fresco se agazalham para a tomar, e se banham como 


patos, que é prazer vel-os, e correndo com esta ordem, 
virão a serem taes qual o caçador deseja. 

Podem-se-lhe deitar passaros vivos sendo já gran- 
des, e alguns pombinhos que vôem, porque assim acos- 
tumados ficam mais faceis de fazer. 

Conhecerão os caçadores, que estão já encanados 
para prender se tiverem as penas do cabo enxutas do 
sangue; então os prenderão. 

Quando são já mui grandes vão dormir fóra, ás 
vezes meia legoa, e muitas vezes se cevam, e tardam 
em tornar a casa; estes terá o caçador cuidado de os 
prender, porque é dinheiro. 

Pero Lopes no capitulo em que trata dos Gaviões 
diz serem melhores os rameiros; entendeu d'elles os 
safaros, que n'aquelle tempo não se deviam crear Ga- 
viões no ar, nem em casa, que estes pelos homens 
creados são mais domesticos e melhores. 


CAPITULO VII 


Dos Gaviões criados em casa, e a diferença que 
ha delles aos criados no ar, e como se ensinam a 
caçar 


AMBEM se criam Gaviões em casa, porque alguns 
senhores pelos verem na criação o costumam 
fazer: os em casa criados morrem muitos d'el- 
les, posto que pelo telhado e janellas nas casas onde 
se criam lhes dê o-sol, e lhes não faltem boas viandas, 
e tenham alcandoras postas pelas quaes elles vôem; 
e a razão é, que como o ar que é natural seu lhes 
falta, e o não tenham perfeitamente em casa como no 


38 BrBLIOTHECA DE Crassicos PORTUGUEZES 


are 


err 


campo, adoecem d'agua e não teem tão bôa penna, e 
são mais tibios, ainda que alguns caçadores houve de 
opinião serem elles de mais força, mas é tão pouca 
a que um Gavião pode ter avantajada a outro, que 
lh'a não sinto. 

Os que se criam em casa tem mais achaques que 
os criados no campo, porque se um regeita, comem 
logo outros, pelo que ha mais perigo nos de casa, € 
morrem muitos, e se aleijam dando com as azas pe- 
las janellas d'onde vêem claridade. 

E posto que sejam tambem criados e curados, to- 
davia sempre avantajam os do campo na fineza da 
penna e no alento. 

No capitulo atraz mostrei o tempo em que se ha- 
viam de prender, os quaes posto que na criação se- 
jam mui mansos, com a prisão se tornam outros do 
que antes eram, amostrando-se asperos e bravos, por- 
que com o caparão que se lhe põe é pioz nas mãos, 
Se mostram tão queixosos, que não querem comer 
nem estarem em pé; acontecendo isto se porão sobre 
um colchão, ou em parte que ainda que elies dêem 
voltas, e se estrebuxem não quebrem as pennas, que 


ás vezes tem tanta cólera que se os prendem depois . 


de comer, regeitam o papo. 

Isto não é geral, porque alguns comem logo e se 
quietam na mão, e na alcandora; e como são criados 
pelos homens com facilidade se entregam e amansam 
com os trazerem na mão de noite e ás madrugadas, 
e assim perdem a bravesa que com a prizão tomam. 

Depois de comerem sem caparão se chamarão à mão 
com seu fiador, e vindo a ella sem receio d'onde quer 
que fôr chamado mostrando-lhe na luva a carne ou 
côto de gallinha, que sempre o caçador trará comsigo, 
ou cousa em que depene e se lhe dê em picadas, o | 
não deixem da mão nunca, que não ha cousa que mais . 


amigo os faça, que trazidos sempre n'ella. Depois de 
mansos querendo-os cevar, lhe deitarão alguns passa- 
“rinhos de mão, vivos. 
* Acontece serem muitos d'elles tão tibios, que jul- 
garão d'elles não nascerem para apegar em cousa 
“viva; mas dando-lhe fome, e esfolando a cabeça do 
“passarinho a que elle veja sangue, pondo-o com elle 
no chão, e deixar-lhe tomar algumas picadas, assim 
“engolosinado, lho tirarão da mão e logo lhe mostra- 
“rão outro atado com uma linha no pé; o Gavião ven- 
do-o: bolir com as azas e voar, facil lhe será apegar 
n'elle, e assim de pouco em pouco se irá cevando 
“da folosa até o srou, como lá dizem. 
|| Affonso Borges, criado d'el-rei, teve um Gavião que 
apegou em uma garça brava e a trouxe á terra, e an- 
“dou ás voltas com ella á vista de muitas pessoas. 
| Contando o caso a el-rei D. Sebastião, de quem o ca- 
| çador era criado, o mandou vir diante de si, e lhe 
“disse: 
| | — Não me espanto eu, Affonso Borges, do Gavião 
* apegar na garça, se não de vós que o largaste a ella. 
| Respondeu o caçador: 
— V. A. deve de saber que o meu Gavião mata 
E as aves reaes, e sahi de casa com tenção de matar com 


“elle um lavanco, e não o podendo achar vi a garça, e. 


“* conhecendo o animo do meu Gavião me afrevi ir a 
“ella e largal-o; e se eu não fôra tão pezado e velho, 
| que o soccorrera depressa, a houvera de trazer, por- 
“que o Gavião a deteve um bom espaço. 
* Querem-se os Gaviões trazidos na mão, fartos de 
| sol e agua, e de inverno enxutos, e que estejam em 
= casa quente, e na alcandora, debaixo das mãos, um 
panno de côr, e durmam sem caparão, e sempre quando 


lh'o pozerem 1h'o alimpem por dentro. 


, 


PRA AG cs um 


40 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CARILULO : VER 


De como se tremna o Gavião para com elle se toma- 
rem pegas e francelhos, e as mais ralês 


opos os caçadores do Gavião começam pelos 

passaros pequenos, como rouxinoes e folosas, 

e d'ahi aos picanços alvares e negraes e mel- 
roas, porque como elles são muito ardidos e animosos 
muitas vezes sem treinas vem apegar em tudo; mas 
nem todos o fazem, pelo que é necessario acudir ás 
treinas, começando pelos frangãos pequenos, mostran- 
do-lh'os no campo de perto, indo de pouco a mais até 
que denodamente entrem n'ellas. 

Cada vez que apegar lhe darão de comer, fazen- 
do-lhe gazalhado e mimos, dando-lhe coração e leves 
e entretinhos, e a roerem cousa de que tomem gosto. 
A carne da muela é doce e n'isto conhecem elles que 
folga o dono com o que elle faz, e a meio comer 
se lhe meterá o caparão na cabeça e depois o satis- 
farão da mais comida necessaria, e no fim do comer 
lhe darão a depenar em os côtos das aves em que os 
treinaram; e pondo-lhe o caparão no meio do comer, 
o soffrem bem, porque sabem que com elle posto se 
lhe não acaba a comida, o que soffrerão mal se no 
fim do comer se lhe pozer e lhe não fizerem mais 
mimos, pela qual razão sempre se terá esta lembrança 
viva; e entrando já o Gavião no frangão e na pêga 
e na gaivota e em qualquer outra treina de longe, 
se póde ir buscar a ave brava assim como verdizello 
e as mais, com elle todavia picado da fome. E achan- 
do raléa que se haja de lançar ha-se de trabalhar 


4 


r metter o caçador entre si e a ave alguma em- 
posta de matas, ou pedras ou hervas; e como o Ga- 
vião na mão indo sem caparão, vendo a caça se mir- 
rar ou encrespar e pozer o rosto na ralé, baixe o 
caçador a mão em que o Gavião vae, de longo da 
“perna, o qual se coze com a terra e vae buscar aquelle 
amparo e emposta, e de sobresalto dá na ave e muitas 
vezes afierra della antes que se levante, e quando ella 
'o queira fazer achando-se o Gavião perto, facil lhe 
é alcançal-a e leval-a na mão, que áquelle primeiro 
estribão, . comprimento de um tiro de pedra, é o 
Gavião mais ligeiro no vôo que todas as aves. 

| Alguns d'elles ha porífiados, que voando á tira tra- 
alham por alcançar a ralé, e alguns na caça dos 
“perdigões o fazem. 

— Depois dos Gaviões andarem cevadiços vão buscar 
as pêgas nos pincaros das arvores, e atravessadas 
pelo ar, e as trazem á terra até chegar o caçador, que 
é prazer vêl-os, porque a pêga é mais forçosa e se 
queixa e grita, e elle afferrado a tem até ser soc- 
corrido. 


CAPITULO IX 


z como se ensina o Gavião a matar francelhos nas 
Eunacas 


em as buracas dos francelhos e os trazem pre- 
zos á terre, e para fazerem isto se ensinam, O 
— que se faz tomando um francelho dos lagarteiros: 
Dutros ha que chamam de rama, os quaes tambem os 
G aviões matam depois que são costumados aos das 


42 a CLassicos PoRTUGUEZES O 


morder o Gavião, e os dedos das mãos que chamam 
os caçadores alcanços, e se atarão aos sancos do fran- 
celho que não possa elle apertar as mãos; e feito 
isto trabalhe o caçador porque o Gavião entre n'elle, 
e se apegar dê-lhe de comer boa vianda por debaixo 
da aza do francelho, e depois de ser costumado a en- 
trar n'elle e o conhecer bem, tomará o caçador um 
cordel comprido e n'elle atará o francelho com o bico 
quebrado, e as pernas por não arranhar o Gavião, e 
uma das pontas do cordel mandará metter pelo bu- 
raco d'uma parede que a fique atravessando, e o fran- 
celho atado e dependurado junto do buraco, 

Feito isto se tirará o caparão ao Gavião já costu- 
mado a entrar no francelho no chão, e apegando no 
francelho mandará o caçador puchar pelo cordel da 
outra parte da parede, que entre o Gavião com o fran- 
celho na buraca, e assim afferrado o deixe estar por 
um pouco, e tirarão pelo cordel por aquella parte 
d'onde o francelho e Gavião estão, para que ambos 
venham juntos a terra, e esfolarão o peito ao france- 
lho e n'elle darão de comer ao Gavião, dando-lhe suas 
canadas e coração, e cousas em que o Gavião tome 
prazer. Isto se fará as vezes que fôr necessario. 

Pode o caçador com um francelho treinar o Gavião 
muitas vezes dando-lhe de comer e metendo-lh'o na 
boca, e assim se pode sustentar o tempo que quize- 
rem; não se lhe quebrem as pernas, porque para isso 
se evitar avizei se atassem os alcanços nas pernas. 

São os Gaviões mui ardidos, não duvidam apegar 
nos homens quando lhe não dão de comer, que pela 
comida fazem muitos atrevimentos fóra do que tem 
por natureza. Estes na defensa dos filhos, quando lhos 
tiram do ninho, agarram dos homens, e estão tão af- 
ferrados que se deixam tomar d'elles, e desafierrados” 
dos homens os tornam a commetter de novo. 


n caparão, o a se debateu duas vezes, a téredia, 
argou não sabendo o intento do seu Gavião, e jogo 
cozeu com a terra e foi onde um Falcão estava 
9 em uma arvoresinha baixa e sem rama, co levou . 
a cabeça. Vendo-se o nobre Falcão assim afferrado 
“Gavião, apertou as mãos no pau em que estava 
sto, e de tal modo se apegou a elle e se embaraça- 
am ambos, que chegou Vicente Queimado e tomou o 
lcão, o qual depois teve em seu poder e foi mui ex- 
“cellente altaneiro. 
Ao. conde de Tentugal, D. Francisco de Mello, vi 
im Esmerilhão que matava mui excellentemente as 
cotovias, o qual tambem tomou com outro Gavião que 
matava os francelhos. 
Muitas cousas dizem dos Gaviões na caça que pare- 
m fabulas, por serem mui pequenos. 


CAPITULO X 


* ENHUMA differença vejo que haja entre os Gaí 


- viões safaros e ninhegos, mais que na crea- 


“ção, porque os ninhegos são filhos dos homens 

e criados por elles e não “conhecem outros paes, 0, 
não tem os safaros, que são creados nos bos- 

s e pelas mães, onde teem seus ninhos e que- 
“A e m'ellas se deixam estar até fm de outubro, 
que. e então não acham n'aquellas partes passaros 


44 BrBLIOTHECA DZ Crassicos PorTUGUEZES 


nham se passaram a Africa; então constrangidos da 
necessidade se sahem aos campos aos nossos pardaes 
e tordos e zorzaes, e verdezelos, e tarambolas, os 
quaes veem das partes do norte a invernar a-nossa 
Hespanha, onde os tomamos com armadilhas, dos 
quaes adeante diremos. 

Os ninhegos são mais tibios porque os homens que 
os criam não tratam mais que trazel-os vivos e bem 
empenados aos caçadores, que lh'os hão de comprar, 
pela qual razão são esquecidos. A estes fazem Os sa- 
faros vantagem em saberem caçar, e quanto tem de 
melhor fica sendo mais trabalhoso ao caçador em os 
fazer domesticos e amigos, porque o maior inimigo 
que as aves tem e que mais arreceiam é o homem e 
os olhos d'elle, do qual forçado ha-de ser amigo, o 
que se faz com amor, soffrimento, engenho e pruden- 
cia, trazendo-os na mão de continuo aos serões e ma- 
drugadas, de noite sem caparão, correndo-lhe a mão 
pela cabeça e com uma penna, de modo que se não 
escandalise, trazendo-lhe sempre na luva cousas em 
que tome algumas picadas, e roa e depene, e taes que 
tome elle gosto com ellas. E posto que diga isto mui- 
tas vezes é cousa necessaria aos caçadores tel-a sem- 
pre na memoria. 

Tenha sempre de dia seu caparão na cabeça, por- 
que ainda que na vara sem caparão se mostrem man- 
sos, não no são todos, e ás vezes de quebrantados 
se mostram obedientes, os quaes tornando a tomar 
animo, sempre lhes fica aquelle resabio de natureza 
brava, pelo que convem tirar-lhe o somno e tornal-os 
outros do que dantes eram, que lhes pareça a elles 
que ha outro mundo, o que não farão tirando-lhes 
o comer, antes com mimos e gazalhado, trazendo-os 
na mão de continuo, chamando-os a ella de perto 
com boa vianda, e sendo mansos, treinal-os a meudo 


“EM apegam até da garça. 
; O: marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello, 
rande caçador do Gavião, que sempre d'elles tinha 
“muitos, assim ninhegos como safaros, os safaros man- 
ava pôr em uma alcandora que na Saá tinha, sem ca- 
3 parões na cabeça. Este senhor passeando com uma 
"perna de gallinha na mão os convidava, e se algum 
dos saíaros mostrava boa condição lhe dava de comer 
' na alcandora em que estava, e assim algum bem acon- 
» dicionado amansava, que os mui bravos acabavam 
“todos. 

- E sendo eu moço lhe ouvi dizer algumas vezes: 
Ferreira, não se ha o homem de cançar muito com o 
“que custa pouco; porque eu ás vezes lh'os levava, que 
os tomava com armadilhas, e os que lhe escapavam 
* procedia com elles treinando-os a meudo, e costumava 
* dizer que nenhuma cousa mais os amansava que trei- 

nal. -05. 

- Cada um caçador tem sua opinião: nos Gâviões po- 
| de-se sofirer este modo, que custam pouco, mas nos 
E “Açores estrangeiros não, que custam muito e morrem 
* depressa, sendo assim tratados. 


CAPITULO XI 


Aa)» 


 Quaes sejam melhores dos Gaviões de nossa Hlespanha 


E todos os Gaviões hespanhoes se tem por me- 
lhores e mais ardidos os da serra Morena, 
tomados na villa d'Arronche, e por aquella 
É comarca até Facanias, por duas razões, a uma por mais 
pe que os do Gerez e Se rra da Estrella são 


Fm 


46 BiBLIOTHECA DJ/ CLASSICOS PORTUGUEZES 


o 


A causa é ser terra mais fria, e como os homens 
que os criam para vender buscam sempre os mais tem- 
porãos, não fazem caso dos mais, e além d'esta se tem 
os de Arronche por melhores de prizões grandes de 
inverno, do que temos experiencia, a causa por a Serra 
Morena ser acompanhada de muitos matos e os pas- 
saros pequenos tem em que se escondam, a que Os 
Gaviões os não tomem, pela qual razão se determinam 
com as pombas, rôlas e perdizes, porque como estes 
sejam passaros grandes se lhes não escondem onde 
elles os não afferrem com as mãos. 

Logo se estimam por bons os de Ronda, por se- 
rem excellentes de verão para passarinhos. A razão é 
que da Serra de Ronda são os altos de rochas e pe- 
nedias desimparadas de matas, e nos baixos e valles 
d'ella grandes arvoredos, limpos por baixo de moutas, 
nos quaes criam muitos generos de passaros meu- 
dos, e n'elles se cevam os Gaviões, e por a terra ser 
muito larga se criam grande numero de Gaviões e 
d'alli sahiam cada anno para este reino mais de tre- 
zentos primas. 

Em casa de meu pae se criaram em um anno mais 
de cincoenta e cinco Gaviões e sete Açores; nem a 
estes faltaram compradores nem aos mais, e para to- 
dos havia homens que sabiam servir aos senhores 
nesta caça de aves, as quaes deixo na serra de 
Arronche e sua comarca e em Ubrique, na serra 
de Ronda, em Ximena, Casares e Castilhar, onde os 
achará quem os quizer criar. 


SCRPTULO< XI 


Dos Esmerilhões e sua caça, da qual podem uzar as 
— princezas em suas galerias 


s Esmerilhões são das aves de rapina as mais 
E pequenas; no talho e feição mui similhantes 
É aos Falcões, assim como os Gaviões aos Açores. 
| D'elles ha girifaltes, nibris e bafaris e sacres. Estes 
“criam na Noruega e Suecia e em todas aquellas par- 
“tes onde criam os Falcões. 
— Passam de inverno a estas partes; são aves ligeiris- 
* Simas no voar, todos matam muito bem as cotovias; 
* ellas são a sua garça, as quaes nos campos se acham 
* junto aos casaes; elles as perseguem de tal modo e 
* as calhandras, que muitas vezes constrangem aos mi- 
* seros passarinhos a se meterem pelas casas e nos po- 
“ços, € já se viram meter com medo nos fornos ar- 


| | São mui porfiados em proseguir. Os caçadores 
| prudentes não largam estes senão ás cotovias, as 
| quaes vendo-se perseguidas e que não podem escapar 
“voando, se acolhem aos caçadores, por baixo dos pés 
E dos cavallos, que as calhandras e lavercas são aves 
* inimigas da gente, ou morrem voando, ou escapam 
p:. fugindo e perdem-se com estas muito os Esmerilhões, 
“e não é conselho voal-os. Além das cotovias matam 
"os perdigões e perdizes de inverno. 

»  D. João Mascarenhas teve um Esmerilhão que se 
"tomou no mar, em uma nau da armada de D. João 
“Fajardo, no anno de seiscentos e doze, o qual matou 
"em um inverno mais de duzentas perdizes. 


48 BrerrorHeca DE /CLAssicos PoRTUGUEZES 


Pero Lopes d'Ayala diz. que D. Filippe, filho d'el- 
rei de França, teve um que lhe mandou a duqueza 
de Bramante, que em um inverno matou grande nu- 
mero de perdizes. 

Eu tive um do senhor D. Antonio, prior do Crato, 
que matava os verdizellos, o qual eu tomei com o 
bufo, e largando-o em companhia d'outro o filhava 
muitas vezes e o levava nas mãos sem ter tento na 
cotovia, pelo que determinei matar com elle os fran- 
celhos. 

Tive primeiro um verdizello que tirei vivo a um 
Gavião, e lhe: cozi os olhos a meia vista e assim o 
larguei ao meu Esmerilhão; elle o levou nas mãos 
como se fóra uma cotovia; sem mais tentar outra 
coisa lh'os mostrei bravos e os matou com muita 
admiração dos caçadores. 

O senhor D. Antonio o estimava em muito preço, 
e como elles são boliçosos, se me perdeu, e era sacre 
de nação. 

N'esta cidade tive muita amizade com o doutor 
Vilhafanha, o qual el-rei D. Filipe deixou n'ella 
logo quando entrou a tomar posse d'este reino, em 
confiança de sua fazenda e do mesmo reino; O 
doutor enfadado de se vêr fóra da vista de seu rei, 
buscando algum passatempo honesto para se alliviar 
da saudade da côrte e amigos, o fiz caçador d'aves, 
mostrando-lh'a pelos Esmerilhões deitando-lhe passa- 
ros soltos pelas casas, em que elle vivia, que eram as 
que chamam da penada, a Santa Catharina, e com as 
janelas- com suas vidraças, ficando as casas claras de 
maneira que se não podiam sahir por ellas os passa- 
ros, os soltavamos e os Esmerilhões os perseguiam de 
tal modo que lhes era necessario meterem-se por de- 
baixo dos pés da gente. 

Tanto se levou d'este passatempo que por vezes 


E dizendo que não vira 
inca nem ouvira dizer haver entretenimento para os 
randes, tão longe de peccado como era aquelle, e 
tanto se deixou levar da caça que mandou vir d' Al- 
emanha Açores e Falcões. 

— D'esta caça podem uzar princezas nas suas galerias 
“com os Esmerilhões, que são radiv eis e não tem 
unhas que possa fazer damno nas mãos. Querem-se 
“trazidos na mão de noite para amançar e as madru- 
* gadas, e sendo manços; chamando-os á mão e ao rol. 
E 


CAPITULO XIII 


* De como se amansam os Esmerilhões pelos portugue- 
“2es dhoje. 


à s caçadores que hoje ha, por pouparem o tra- 
balho de os trazerem de noite na mão para 
assim Os amançarem, põem um pau que atam 
« como arredouça, a modo dos em que se embalouçam 
"os meninos, e os põem na camara onde dormem, ten- 
“do uma corda atada no mesmo pau, para que em 
acordando puchem por elle, e os passaros n'elle pos- 
os não durmam, e assim perdido o somno facilmente 
y E entreguem e amancem; põem tres e quatro juntos 
Pr? no. pau. 

— Sofro este modo nos Esmerilhões, por serem de 
* pouca valia, o que eu não sofirerei em nenhuma das 
É Reis aves, como fica dito. 

* Querem-se cevados em frescos, que são muito es- 
E quecidiços, e sendo caso que algumas vezes se esque- 
çam, como se não nascessem para tomar coisa viva, 
c omo já me aconteceu, com elles se haverá o caçador 


50 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES | | 


ape 


mostrando-lhe . passarinhos vivos, que com elles logo 
se espertam. 

As piós que se lhe porão tenham as pontas atadas, 
metidas em uma conta, porque assim se ha de lar- 
gar, e como são aves safaras sopezam e fogem com 
o passaro que tomam, e para se valer o caçador 
d'iisto, terá uma cana de comprimento de duas varas: 
na mão, a qual tendo elle o passaro tomado se porá 
em cima, ou se lhe meterá. por entre as mãos, porque 
querendo elle levantar-se e fugir não possa. 

Costumam os caçadores de Esmerilhãos trazer sem- 
pre passarinhos vivos, porque muitas vezes encaram 
elles o passaro, ficando no ar sem fazerem preza, se 
lhe deite atado pelos pés com uma pedrinha: e assim 
se cobra com facilidade. 

Para os caçadores trazerem os passaros vivos fa- 
zem um taleigo de calhamaço encerado; em uma das 
bocas se põe uma rodellinha de pau pouco maior que 
a palma da mão, e no vão d'elle andam bem os pas- 
sarinhos sem se afogarem, e na outra boca seu cor- 
del em que ande deperdurado no arção da sella. 

Querem-se es Esmerilhões trazidos na mão, de con- 
tinuo governados com boas viandas, fartos d'agua e 
sol. São naturalmente bons caparueiros: é raça apra- 
zivel, 


CAPITULO XIV 
Das ogeas 


S ogeas são aves de rapina, no voar velocissi- 
mas. Sua caça é todo genero de passarinhos; 
são do tamanho de francelhos, no talho simi- 

lhante aos Falcões. 
A caça destas aves uzam os caçadores não nas ajar- 


ana fe o ip e delgada na ponta, com 
aço de sedas n'ella, e pela sesta e grande calma 
s caçadores onde haja calhandras, lavercas ECO 
- E vendo o caçador qualquer d'estes passari-. ; o 
os. levante a mão em que vae a ogea e faça de 
“modo como que quer voar, rodeando a mão que abra — 
“a ogea as azas. 
A calhandra e mais passaros, posto que nunca fos-. 

* sem perseguidos da ogea, a temem, tanto que em a. 

a vendo se escondem e cozem com a terra; postos os | 
- olhos, na ogea, estão tão quedas, que consentem lhe É 
a tem o laço no pescoço, e tendo o caçador o laço 

o pescoço do passarinho, o bole com a cana a que se a Vir 
levante, e assim fica enforcado o passarinho no laço. 
E" caça de pouca sciencia e aprazivel. Estas ogeas E 
iam meste reino. Não vi pessoa que com ellas 

* Caçasse, se não Affonso Borges, creado d'el-rei D. 

- Sebastião. 

: * Toma-se com o bufo que cae a ella denodadamente. 

A “mim me contaram que estas aves em companhia 

“dos Faleões aletos matavam as perdizes. - RR 

Esmerilhões, com que seelles 


PARTE SEGUNDA 


DOS AÇORES 


Na qual se mostram as terras de espanha onde 
se tomam nos manhos para os criarem em pequenos, 
e como se criam e ensinam a caçar pelos homens, 
assim os de Hespanha como os estrangeiros. Tem 
dezeseis capitulos e uma regra geral de muitas no- 
tações e preceitos necessarios ao caçador novo, € 
ainda ao que cuida que sabe. 


CAPITULOS 


Dos Açores em geral 


Antepuz os Gaviões aos Açores, e tratei primeiro 
d'elies, porque os mais dos caçadores portuguezes que 
até agora houve, começaram uzar esta caça das aves 
por elles, e se passaram aos Açores, de que é este 
capitulo. 


E excedem a todas aquellas aves que de ra- 
“pina se sustentam (deixando áparte a aguia) que esta 

'a todas se avantaja na grandeza. 

“De suas propriedades tratarei adiante. 
Criam os Açores seus filhos em muitas partes do 

* universo, em serras e logares montosos, cheios de 
- grandes bosques e arvoredos. N'estes fazem seus ni- 
“ nhos; criam uma vez no anno. Em maio começam a 
| fabricar seu ninho; põem de tres até cinco ovos, os 
primas estão sempre sobre elles, os treçós em todo o 
tempo que a femea está chocando lhe trazem de co- 
mer perdizes, pombas, e ás vezes laparos e rôlas. 
| Quando lhes trazem a caça que tomam, pousam em 
| certa arvore, que para isso tem perto, e chama a pri- 
| ma com piados, a qual se levanta e vem voando; em 
“chegando perto larga o tréço o que lhe traz para co- 
mer; ella antes que chegue a terra o toma. 
| O treçó em largando a caça se vae voando tão 
| apressadamente que parece temer a prima, a qual, em 
| comendo, se torna aos ovos, e n'elles está mais tempo 
| em tirar os filhos que as gallinhas. 
| || Tirados se deixa estar alguns dias até elles estarem 
enxutos da humidade do ovo e cobertos de penugem. 

Se a mãe sente que a quentura do sol enfada aos 
“filhos, enrama o ninho e os ampara com as azas es- 
| tendidas. 

Tem cuidado de lhes dar de comer a miudo. 

Nºeste nosso tempo vieram acabar os Açores n'estas 
partes, que chegou a ser tão excessivo o preço que 
“por cada um em pequeno se dava, que os homens cu- 
“biçosos que os tomavam, em achando o ninho o guar- 
“davam, a que outros lh'o não furtassem. Vez aconte- 
ceu que uns escondidos esperavam que aquelles que 


ae 


54 BrsLioTHECA DI CLASSICOS PoRTUGUEZES 


DD Da 


Ira 


os guardavam fossem buscar de comer e emtanto lh'o 
furtavam. E vieram a tomar aos pobres passaros os | 
ovos em os pondo, e os deitavam a outras aves. À 
mim me contou um d'estes, que m'os costumava ven- 
der, que subindo a uma arvore a tomar os ovos 
d'um Açor, o prima e treçó se levantaram de rodeo 
e se metteram mui alto no céo, e julgou que d'aquella 
vez passavam em Africa, enunca mais criaram nºaquella 
serra vermelha, onde isto aconteceu. Pode muito bem 
ser. 


CorvPi TU 


Das partes em que se acham em Hespanha Açores é 
como se criam no ar 


M muitas partes de Hespanha se tomam Açores 
em pequenos, como em Navarra, e na terra dos 
Gélves, nas Asturias, e em Galliza, e de quaes- 
quer partes que a mão vierem Açores em pequenos, os 
criarão como fica dito no capitulo que trata da cria- 
ção dos Gaviões, e os cure com a mesma arte, no- 
tando que, sendo os Açores já de quatro betas lhe 
deitarão rôlas e pombinhos de mão, a cada Açor 
conforme a edade que tiver e se desenvolver voando, 
porque costumando a lançar-lh'os algumas vezes, se 
inclinam depressa ao que tem de natureza, e assim 
como entrarem nas treinas lh'as deitarão que mais 
vôem, os quaes com este exercicio se espertam e se 
cevam nas perdizes com muita facilidade e menos tra- 
balho do caçador. 
Posto que na criação dos Gaviões digo como se 
criam em casa, não aconselho a quem os criar, os 
crie n'ella, por evitar perigos, enfermidades e aleijões, 


Açõ, 
“qu contece aos criados em casa e ainda morte certa, 
o pas não tem os que se criam no ar, € cn d'isso 


tido e escanados, que se conhece, como fica dito 
“tratado dos Gaviões, tendo as penas do cabo enxu- 
tas do sangue, os prenderão, porque se os prendem 
* em verdes e estando em sangue, não ficam as pennas 

má d'aquelle comprimento que “andando no ar voando é 
“ficam; porque n'aquelle estado em que os prendem 

* sem mais crescerem se enxugam, e esquanam, o que 
ei ensinado da experiencia, por prender alguns Ga- PR 
iões em sangue, e logo em poucos dias esquanavam 
e ficavam curtos do cabo e azas. Ra 
* Contando eu isto a alguns caçadores me affirma- 4 


“tiravam da nda com algumas penas em sangue, e a 
me rogaram pozesse isto por avizo. * Ca A 


CAPITULO HI 


De como se amansa o Açor depois de preso, e ceva 


+. 


o capitulo precedente tratei de como se criam e 
em que tempo se prendem os Açores, os quaes 


- vendo-se presos se mostram queixosos, como E a bo 

“já disse dos Gaviões, e por evitar repetir muitas ve- ri E 
zes uma cousa, recorram alli; lembrando que as pioz Dor é 
“que se pozerem aos Açores sejam de bom couro de ASA 


o ou de veado, bem concertado, e nas pontas suas RENA. 
us de marfim ou e de Moysés, e boas 


56 BreciorHeca DE Lrassicos Porrucuezes A 


que será á tarde, a noite seguinte e todas as mais O 
trarão na mão sem caparão. As primeiras fugindo a 
conversação da gente por evitar debatiduras, depois 
com elle na mão, converse com todos, para se assim 
affeiçoarem a virem a ser domesticos; e andará tantas 
noites até que elle se entregue ao somno, que se conhe- 
ce quando mete a cabeça de traz das costas, e tirando- 
lh'a d'aquelle logar, onde a tem metida, a torna logo 
a pôr. 

Bastam poucas noites, que como são creados pelos 
homens, entregam-se com mais facilidade que os bra- 
VOS. 1 

Tendo-os posto n'este estado os chamarão á mão 
-no campo, atando seu fiador nas avessadas; e en- 
trando na mão sem receio, tendo prezente cavallo e 
podengos, os quaes serão bem amigos do Açor, dan- 
do-lhe de comer, sendo elles presentes, e sendo o 
Açor manso e amigo (que se conhecerá indo o caça- 
dor fugindo e elle voando atraz elle) como costumava 
fazer na criação; então está seguro para O treinar, o 
que se fará em campo limpo de mattos, barrancos e 
cardos; e se possivel fôr seja como a palma da mão, 
levando perdiz viva, com todas as penas, e o Açor 
pícado com vontade de comer, a qual faz ás aves a 
madrugada. 

A! perdiz em que se ha-de treinar porão os peitos 
e ambos os pés d'ella juntos na palma da mão di- 
reita, e a esquerda pelas costas ; e no campo que digo 
limpo deitarão a perdiz para o ar, com força a que. 
tome seu vôo, tendo o Açor prestes e perto, que se 
elle na criação costumava a entrar denodadamente nos 
pombos e rôlas, o fará na perdiz, á -qual tirarão de 
cada aza duas pennas, parecendo assim ao caçador. 
E assim procederão indo buscar a brava, lembrando 
que deixem estar o Açor com a perdiz no chão, e 


nella o ceve 0 caçador nos peitos dando-lhe de co- 
* mer com limpeza, fazendo-lhe muita festa. 
A mim me aconteceu, só com uma treina, cevar o 
- meu Açor na perdiz de pasto, e foi que indo eu com 
meu pae e irmão com cada seu Açor, enfadados de 
não poder achar perdizes por levarmus poucos po- 
densos, para assim se fazer melhor lanço, mettemos 
os pés em uma banda de perdizes; eu que levava 
prestes larguei o Açor no meio d'ellas, e apertou tão 
bravamente com as passaras, que rendeu duas em 
umas balsas muito perto d'onde se levantaram, e n'a- 
quella banda cevamos todos os 'tres Açores sem se- 
rem tréinados cada um mais que uma só vez. 
Costumavamos levar sempre ave viva, para que se 
o Açor fizesse seu dever, indo com a perdiz a ferida, 
se acaso se não achasse, dar-mos-lhe de comer, fin- 
* gindo ser a que vcou. 


o 


nc A A E e ii CARECA RS a ri 


CABEPOLO TV 


e! 
w 


Que tal ha-de ser a terra em que se hão-de cevar os 
Açores novos 


DRE Ro AME ei” o 


ECESSARIO é ter o caçador lembrança que de 
uma maneira se ha-de haver com os Açores 
novos, de outra com aquelles que forem já 

mestres. Para os novos d'aquelle anno convém que 

seja a terra limpa de arvores, sem haver nella cabe- 
ços mem trespostas, e tenham feridas perto ; porque 
se a terra não fôr descoberta de arvores, indo o Açor 

“traz sua perdiz mettendo-se no meio de algumas ar- 
vores, perdendo o Açor de vista a passara apoz que 
vae, não sabendo descobrir, embaraçado, ou se deixa 


DES E ENE om 


" = te , a > 


58 BreLioTHECA Dé CLAssicos PoRTUGUEZES 


ficar, ou ge para traz a seu amo, o que não faria 
se fôra mestre 

O mesmo fará sendo terra de cabeços e tres nba 
Pelo que n'este primeiro anno se deve buscar terra 
chã e campo raso, que ainda que tenha algnmas sil- 
vas, ou mattas, ou barrancos, que são os lugares onde 
costumam as perdizes acolher-se, não é inconveniente, 
antes se ha-de buscar tal que as tenha. 

Ermquanto os Açores são novos usarão de poucos 
podengos, e saibam d'elles qual é certo no pasto, 
qual bom de ferida; e conhecendo o podengo que dá 
no rasto certo, se chegará o caçador a elle com Açor 
prestes, e em se levantando a perdiz, largue-o, sa- 
cudindo o Açor da mão, não de batidiço, nem de- 
pendurado que vá o Açor quebrado de seu vôo e im-: 
peto, e fica desgostoso e não faz o que fizera se o 
largara ajudando-o. Chegando o Açor-a ferida, se fôr 
novo, o tomem na mão para que d'ella se largue a 
passara, e se o tiver na mão o deixarão estar dando- 
lhe de comer no peito, e depois de estar quasi satis- 
feito o levantem, fazendo-lhe mimos, dando-lhe o en- 
tretinho e a roer na moella que é carne doce, e um 
pé da perdiz machucado com uma pedra ou com os 
dentes, que é cousa com que elles folgam ; e elles co- 
nhecem que o dono folgou com o que elle fez. 

E d'esta arte se haverão cevando por seis ou sete 
dias, e d'ahi em diante podem matar perdizes para a 
cevadeira, porque no princípio está o acertar. 

E note que toda a vez que o Açor estiver em logar 
baixo se ha-de levantar na mão e assim ir atraz os 
podengos, fallando-lhe e sahindo a perdiz se largue, e 
tomada pelo Açor se levante na mão, e se agazalhará 
amimando-o; que se o levantarem e lhe tirarem a per- 
diz sem lhe dar picadas, se annojará. 

Trabalhem pelo fazerem muito recolhido, que al- 


“guns d'elles o são tão mal, que se põem em alguma 


Rx . . 2 “3 
arvore, enfadam primeiro que venham á mão. E se da 


“arvore á mão descer, o farão com elle como se ma- 
tasse a perdiz, e assim se verá o caçador livre do en- 
fadamento de ser mal recolhido. 

E por que se não póde dizer tudo por escriptura, 
se haverá o caçador com prudencia e soffrimento. 


SP SE E 


tati 


CAPITULO V 


Do Açor errado e sua emenda 


DA im MD 


MUITOS pode acontecer o mesmo que me acon- 
teceu a mim, com D. Pedro da Silva, tio do 
conde Almirante. 

Comprando-me um Açor dos de Galliza, excellente 
perdigueiro e bem acostumado, e tal que teve elle sa- 
tisfação, assim do Açor, como de suas manhas, e 
* como bom m'o pagou muito bem. 

* | Levado o entregou a um indio seu, chamado Bor- 
| neo, que elle tinha por grande caçador. 
E O pobre indio parecendo-lhe que todo o matto era 

oregãos, sem eleição da terra, nem eleger lanço, lar- 
| gando a torto e a direito, ora em terra cega, ora em 
* Janços largos, ora debatendo-se o Açor, deu com o 
* bom passaro á costa. Se o largava em terras de arvo- 
| res, tanto que o Açor deixava de vêr a perdiz (como 
| é costume d'elles) se pousava ou na terra, ou em cima 
do que achava mais acomodado; como a perdiz vara- 
“va, nem os cães a podiam achar, pois a não havia, nem 
o Açor fazia a obrigação que tinha. 
“O Borneo parecendo-lhe que de farto o Açor não 
seguia a perdiz, temperava-o de morte. 

Ed 


AA Ma cá < 
Oni ae 


ng 


NR is. 


60 BrpLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


De tal modo se houve o pobre indio com o misero 
Açor, que foi forçado ao senhor tornar o Açor a quem: 
lh'o vendeu, e me deu o mesmo Açor e dez mil réis 
mais por outro que a elle lhe não pareceu tal como o 
que tornou. 

Nºeste errado nos houvemos d'esta arte. Dando-lhe 
boas viandas, pombos e gallinhas, sem bolir com elle, 
mais que deixal-o estar na vara farto de comida e sol 
e agua; como esteve em boa carne, bem picado da 
fome, e com boa madrugada, que esta lhe faz muita 
vontade de comer, lhe mostramos a perdiz em boa 
terra, que elle voou estremadamente fazendo-lhe bom 
lanço. 

N'ºeste primeiro anno sempre se deve buscar o me- 
lhor, e assim nos houvemos, que em poucos dias foi o 
que d'antes era, e por evitar este damno deve o caça- 
dor buscar terra limpa quanto possivel fôr. E sendo 
de ladeiras e picada, sempre convem andar no alto 
d'eilas, e não largar no fundo do valle, e aguardar a 
vêr entrar, e vôem a que estiver maisacomodada para 
voar dependurada; e assim se haverá como digo, 
n'este primeiro anno de pol-o: que depois de o Açor 
ser mestre e sabe que a perdiz lhe ha-de cahir, faz 
suas alcarradas para descobrir que as perdizes trans- 
pondo o cabeço se o Açor vem largo d'ellas se dei- 
xam chupar e não bolem os pés d'onde se põem, e 
assim o Açor como o caçador se enganam passando 
adiante, e ficam os caçadores e Açor desgostosos per- 
dendo a perdiz que lhe ficou chupada, o que acontece 
muitas vezes, e se o Açor é leve e a viu, elle a terá 
na mão, e se é pezado e vae largo, como digo, não 
pode saber a trêta e arte que a perdiz uzou para sal- 
var a vida; que as aves, por instincto natural, tam- 
bem teem seus avizos para escapar a seus inimigos. 

Pela qual razão quanto possivel fôr se escuse largar 


ArtTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA 61 


* o Açor em terra picada e suja, salvo se fizerem como 
* os que guerreiam no mar, que sempre trabalham por 
“tomar o barlavento. 

“E lembro que sempre se deve largar em terra de 
* cabeços, de modo que vá a perdiz costa abaixo, salvo 
' se o Açor é tal, que fará mais do que deve, que mui- 
F tos são tão excellentes que se assignalam mais que 
— que outros. 

E para que o Açor ande gostoso, convem que da 
* parte do caçador haja engenho e industria, que esta 
| favorece muito as aves na caça; e não a tendo, acon- 
| tecerá ao caçador o que aconteceu ao pobre indio 
Borneo. 


rea 


CAPITULO VI 


Dos Açores de Irlanda, de Galliza e Navarra 


RS pe o É ja a ad 
E ABRI qro [e] 


OR serem mui similhantes estes Açores, ainda 

que nascidos em differentes partes, por evitar 

prolixidade, os puz juntos n'este capitulo; que 

elles na grandeza do corpo e talhe, como nas pluma- 

“gens, são muito similhantes; e ainda na bondade, 

- posto que os de Irlanda são tidos por melhores perdi- 
* gueiros. 

A causa por que o sejam, quanto a mim, é por se- 
rem sáfaros, que estes de qualquer parte que sejam, 
“sempre se avantajam aos ninhegos; mas depois que 
eu criei Açores no ar, nenhuma vantagem lhe fize- 
ram os de Irlanda. Arguir-me-ha o caçador que os 
| Açores de Allemanha, Noruega e Suecia tambem são 
 safaras, e não taes como os de Irlanda, ao que respon- 
* do que os Agoresallemães são maióres de corpo e pela 
* grandeza são mais pezados e não tem tanta ligeiresa 


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RUDE NAT Mas 


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4 


62 BreLioTHECA DE CLASSICOS PorTUGUEZES 


Pa 


nem levidão como os de Irlanda que são Açores de 
meàã proporção. 

Eu tive um Açor de Noruega extremado perdi- 
gueiro, mas muito grande de corpo, o qual em terra. 
chã voava dando com as azas pela terra; mas tão 
cansadamente o fazia, o pobre passaro, que estendia o 
pescoço mais que o cabo, bracejando quanto lhe era 
possivel. Com elle matava muitas perdizes, mas não 
com aquella galhardia com que muitos o fazem, mos- 
trando ás vezes as barrigas, afuzilando ao descobrir 
de algum cabeço. 

Este de Aliemanha se se lhe offerecia a perdiz su- 
bir alguma costa, se levantava direito ao céo como 
um foguete e do alto se deixava ir com os olhos na 
perdiz, ou a tinha na mão ou bem assentada na fe- 
rida. As que na mão tinha, diziamos nós, que de elle 
vir largo não entrava na ferida e elle cahindo do alto 
as tinha na mão. É esta razão acho que me favorece; 
e além d'isso, no capitulo dos Açores estrangeiros, 
que vae adiante, se faz mais caso dos treçós allemães : 
que dos primas para a caça das perdizes, por serem 
meãos entre os primas allemães e os nossos hespa- 
nhoes. 

E quanto a fazer tanto caso dos Açores gallegos e 
Navarros como os famosos de Irlanda, affirmo que os 
criados soltos no ar, como fica dito, se esualam a to- 
dos os bons que pode haver no mundo; porque as 
mais das perdizes levavam nas mãos, 

Para esta cidade vendi um treçó a João Lopes Pe- 
restrello, o qual matava sua meia duzia de perdizes, 
no termo de Lisboa, melhor que nenhum de Irlanda 


que em seu tempo houvesse; e todos os mais que É 


para outras partes foramsahiram excellentes, pelo que 
os posso comparar, sem vergonha, com os Açores de 
Irlanda. 


em ia de quem o o aTpRa tido em Fes preço. 
“O dono do Açor vivia em Torres, em uma quinta 
sua; Os criados e servos, que sempre trabalham por 
E imitar cs senhores, criaram um corvo carniceiro, ao 
R - qual davam os sobejos do Açor, quando o Açor co- 


mia; o côrvo, por aquella boa obra que lhe faziam, 
" amava a seu amigo, o Açor. Em vendo que o toma- 
- vam na mão para ir á caça, logo se aviava e acom- 
PP panhava o caçador, voando a pousos. 
* | Emo Açor indo atraz da perdiz, o corvo o seguia, 
a acompanhando-o até a ferida, e se punha em sua 
j “companhia crocitando em vozes altas para que o ca- 
“ çador o ouvisse, o qual em cobrando a perdiz lhe 
dava alguma cousa das tripas, e de tal arte se haviam 
% os dois companheiros, que o caçador não tinha olho 
à no Açor que havia largado, senão no corvo que voava 
“mais alto; porque o Açor sempre ia varrendo as pa- 
“lhas da terra, e ao passar de algum outeiro mostrava 
E a barriga, que parecia fazel-o com galhardia. 

| Se o caçador não atinava com a ferida tão depressa, 

Esido o corvo que elle tardava, se levantava de ro- 
É deo para que o caçador o visse e atinasse onde o 
"Açor estava. 


CAPITULO VI 


Do Açor tibio e duro de fazer, e sua emenda 


s Açores criados no campo, como já disse, se 
ensinam a caçar com pouco trabalho; póde o 
caçador topar com Açor tão tibio que não 
queira. pegar em coisa que viva seja; o que acontece 
por ser. criado em casa, sem nunca lhe mostrarem 


64 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


mais que a carne que comia, e assim fica olhando 
sempre ás mãos do homem. 

Aves ha covardes de sua natureza. 

Eu tive um sacre tão tibio que ao principio re- 
ceiava de pegar um frangão vivo, e para apegar n elle 
lhe esfolava as costas e comesse algumas picadas, e 
para se treinar cobriamos as costas do milhano com 
carne. I)'este modo se atrevia, porque, se sem carne 
lh'o mostravam, o não olhava. 

Tanto me enfadou o mau modo do Falcão e sua co- 
vardia que o metti em uma casa destelhada atado 
a uma estaca e um milhano junto a elle. Ao milhano 
davam de comer, mettendo-lhe a carne pela boca, 
porque tinha o bico debaixo quebrado e os alcanços 
atados aos sancos, por não arranhar o Falcão nem o 
morder, se acaso envestisse com elle. 

Ao mau Falcão nenhuma cousa lhe davam; e es- 
teve quatro dias sem apegar no milhano; ao quinto 
achámos o milhano comido. D'este modo lhe pozeram 
tres mais, aos quaes elle fez o mesmo; d'ali por dean- 
te começou a pegar nos milhanos sem carne, deitan- 
do-lhes, voando com os olhos cozidos, depois a meia 
vista, até irem espertos. 

Este foi mui excellente milhaneiro. Se á mão vier 
tal Açor, não se trate com esta rigoridade, que são 
aves delicadas e não soífrem tanto trabalho; e se fiz 
esta lembrança foi para exemplo. 

Com o Açor tibio se haverá d'esta maneira, trazen- 
do-o na mão aos serões e madrugadas, dando-lhe sem- 
pre a roer em cousa de que elle tome gosto, esfre- 
gando-lhe as mãos com cotos de gallinha, com que 
elle tome cocegas, e ir amanhecer no campo com elle, 
levando alguma coisa viva, trabalhando que entre 
n'ella, e apegando de qualquer coisa que seja lhe fa- 
rão gazalhado, deixando-o comer no chão, sempre bo- 


ArTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA 65 


* lindo, ou com a rôla ou com a pomba que tiver na 

' mão, para que perca o medo, e assim como elle fôr, 
irá o caçador procedendo, deitando-lhe o pombo de 
pouco a mais, até que tome a rôla com duas pennas 
menos de cada aza, e assim entremetendo alguns dias, 
e o dia antes que haja de ir ao campo boa fome, e 
se fará em deante o que fica dito atraz no capitulo 
terceiro, e sendo caso que tal Açor haja, que depois 
de saber matar deixe as perdizes, se haverá como en- 
sina o capitulo que falla do Açor errado. 


CAPITULO VII 


q 


Da alcandora 


ARA O Açor se fará a alcandora de bom pau 

lizo e direito; de inverno seja de sovereiro co- 

berto com sua cortiça, de modo que fique liza, 

sem asperezas; de verão seja de qualquer pau 
redondo e limpo, sem fendas, e tendo-as se taparão 
com um betume que se faz com cera e pós de serra- 
duras de pau, e d'este betume se taparão. 

O pau não seja onde haja gallinhas, por amor do 

- piolho. 

O comprimento da alcandora se fará conforme as 
aves que tiverem, e sendo para um Açor bastam duas 
varas de comprido, posta no canto da casa, com boas 
escapolas. 

Assim se deve assegurar para um dia só, como 

* para muitos annos, por não acontecer cahir com o 
Açor. À casa seja livre de gente e onde não entrem 
gallinhas nem cutras aves. Por baixo lhe porão um 

| panno de linho de largura de uma vara ou mais, 


FOL. 3 VOL. I 


f 


66 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


atado ao comprimento da alcandora, por uma das 
ourelas, e ae uma atadura a outra, haja pouco mais 
de um palmo, porque se o Açor se debater, querendo 
tornar a alcandora, senão meta por algum dos bura- 
cos, e o panno fique bem estendido ao longo da vara, 
e nas pontas debaixo do panno lhe atarão cordeis e 
n'elles pedras dependuradas, ou estacas, que o tenham 
bem estendido. 

E porque acontece algumas vezes debatendo-se o 
Açor, não saber tornar a subir, e muitas vezes o fa- 
zem de mal acondicionados, e se deixam morrer en- 
forcados pelas pernas, senão ha quem lhes acuda. 

Para evitar este damno uzarão d'esta cautela: co- 
zerão abaixo onde o panno faz o meio, um cordel do 
comprimento do mesmo panno, de modo que fique 
como um alforge, que se o Açor se debater possa o 
Açor descançar n'elle. 

O de mais deixo á prudencia do caçador. Haverá 
tambem alcandora onde haja sol, em que se ponha, 
que todas as aves hão-de ser fartas de sol e agua, 
para fazerem o que devem. 


CAPITULO IX 


Dos caparões, e em que tempo se hão de pôr no Açor 
enos Falcões sem cerradouros 


ERÁ O caçador caparões para os Açores, quando 
forem fóra, os quaes serão bem abertos, e ainda 
que por elles vejam alguma cousa, não faz ao 
caso, porque lh'os não põem por mais que para as 
sahidas dos lugares e a entrada d'elles, e para irem 
quietos pelos caminhos, que só para estas ocasiões se 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 67 


hão de ter, por evitar debaterem-se e queixarem-se 


A es 


de algumas cousas desacostumadas. 

Eu vi um Açor que em vendo um frade, se quei- 
xava tanto que se debatia e atitava, e é de notar que 
não vi nenhum anojadiço que não fosse excellente 
perdigueiro; tambem terão caparões para os aletos, 
posto que os portuguezes d'hoje os não costumam, e 
deve de ser porque os aletos vem de Indias sem elles, 
e assim os tem e levam á caça com as cabeças des- 
cobertas, o queé bem contra a arte, porque se ha-de 
poupar a qualquer ave uma debatidura como as me- 
ninas dos olhos. 

Terá o Principe caparões sem cerradouros para pôr 
nos Falcões, com os quaes ha-de fazer voaria o dia 
que fôr á caça, que póde acontecer perder-se a oca- 
sião de bom lanço, emquanto o caçador abaixa o rosto 
para abrir os cerradouros do caparão, e tambem o 
Falcão costumado a lh'o tirarem quando lhe dão de 
comer vir com o rosto á luva, e ande sem cerradou- 
ros, descobrindo-lhe a cabeça de repente, corre com 
a vista o ar e campo e vê depressa a ave a que se 
ha-de largar; e muito melhor se o caçador levanta a 
mão, em que elle está, e é boa pratica principalmente 
no passo das aves. 

Em Almeirim tambem podem, não havendo capa- 
rões sem cerradouros, levar o caparão aberto, que 
fará o mesmo efeito. 

Convem que o caçador tenha sua luva; a de Ga- 
vião basta seja de carneiro; para Açor e Falcão, de 
vaca ou viado, de couro bem adubado e grosso, por 
a não passarem com as unhas, na qual andará a mão 
esquerda metida, e para que saiba o caçador novo 
trazer com arte as aves n'ellas, fará d'este modo: 
tendo a luva calçada, estenderá o braço, estando es- 
tendido fechará a mão com a luva, ajuntando as pon- 


68 BregLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


tas do dedo polegar ao mostrador, e os tres fechará | 
com a palma da mão, ficando os dois, polegar e mos- | 
trador, estendidos d'arte que possa estar no vão de 
ambos um copo cheio d'agua sem se derramar gota 
d'ella, porque assim convem que se tragam direitas 
as aves na mão da luva, que a poucas pessoas vi que 
trouxessem as aves na mão. 

Estas advertencias fiz para aquelles que carecem 
da noticia d'esta sciencia, que os praticos não tem 
necessidade d'ella. 


CAPITULO X 


Dos Açores estrangeiros | 


s Açores criam em muitas partes do universo. 
Aquelles que a este reino trazem de mar em | 

fóra, são de Noruega e de Suecia e de Irlanda, 

como fica dito com os nossos de Hespanha. 
Dos de Noruega e de Suecia tratarei, os quaes tra- | 
zem mercadores em naus d'Allemanha a este porto | 
de Lisboa. São Açores que fazem vantagem na gran- | 
deza de corpo aos de nossa Hespanha e tem a plu- | 
magem mais grossa; uns e outros são excellentes. 
Havendo de escolher tomem os de muita carne no | 
peito, bem posto na alcandora, direito, descarregado | 
das costas, as azas compridas, os cotos d'ellas altos e | 
delgados, o pescoço longo, a cabeça pequena, o rosto 
formoso e comprido, ventas bem abertas, bom sobre- | 
bico, boas coxas e sancos, mãos enxutas, os dedos 
d'ellas grossos; os treçós d'estes são bonissimos per- | 
digueiros, mas convem haja caçador sofírido e que | 
saiba que são queixosos e menencorios. 1 


ArtTE DA CAÇA DE ÁALTANERIA 69 


Com os primas caçam os italianos garças, grous e 
cisnes, e patas bravas e todas as ralés, e as lebres, e 
trazem galgos de socorro, e não caçam com elles per- 
dizes. 

Muitos senhores os tem sómente para effeito de 
com elles tomarem treinas para os Falcões. Note-se 
que se tal Açor houver, se não largue á garça, es- 
tando posta em terra, que o matára com o bico. 

Outros Açores criam em Grecia, na Esclavonia; a 
estes chamam escravos e são bons Açores; outros 
criam em Sardenha e os chamam sardos; são pescoçu- 
dos e de grandes cabeças e tomam bem os adens e 
corvos, mas por tempo se fazem ronceiros. 

Outros criam em o ducado de Borgonha, são pe- 
quenos, mas bons Açores. Outros tomam bravos em 
Santa Cruz de Campação, com o passo das pombas 
trocazes, e são mui excellentes, similhantes aos da No- 
ruega na grandeza, tem a plumagem grossa entre 
branca e amarella: são estremados Açores. 

Os tomados de uma muda, são mui estimados dos 
principes, porque caçam todas as aves com muita ga- 
lhardia, são muito formosos e tidos em grande preço, 
e como são tomados bravos convem que haja caçador 
sabio que os faça com arte e vá com elles muito 
attento como já fica dito, e se dirá no capitulo se- 
guinte. 


70 BrecrorHECA DE CLAssiCOS PORTUGUEZES 


CAPITULO XI 


Que diz a causa porque os Açores de Noruega mor- 
rem muito antes de cevados, e depois duram pouco, 
e o vemedio que haverá m'isso 


sTÁ tão introduzido o abuzo e errada pratica que 

dos bisonhos caçadores se tem hoje no amansar 

dos Gaviões e Açores safaros, que por um só 
que façam manso e domestico dão a morte a mui- 
tos Açores de muito preço sem saberem a causa. 

Este anno de seiscentos e treze, vi de dez ou quinze 
Açores que de Allemanha vieram acabarem todos os 
mais antes de domesticos e mansos, como convinha. 

Alguns chegaram a ser cevados; duraram pouco 
tempo vivos. Constrangido eu de vêr mal tão certo, 
fiz esta lembrança ao novo caçador e ainda ao que 
cuida que sabe. 

Os Açores que vem a esta cidade, de ultramar, são 
safaros os mais d'elles, e conhecidos, porque não piam 
como os ninhegos fazem, e são tomados bravos, ra- 
meiros ou com armadilhas; assim safaros os trazem 
com caparões na cabeça, que logo em os tomando 
lhes põem que nada vejam por elles, por virem quie- 
tos, e assim os vendem aos caçadores, os quaes os 
atam na alcandora, postos n'ella sem caparão. 

Fundam-se os mal praticos, em ver os nossos Aço- 
res na alcandora sem caparões, ignorando os nossos 
ninhegos serem já cevados e mansos e criados pelos 
homens, o que estes de ultramar não são, os quaes 
vendo as cousas que elles d'antes não costumavam, 
se espantam, debatendo-se, dando de uma a mil de- 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 71 


batiduras, quebrando as pennas dos peitos e bofes e fi- 

“gados; o caçador mal sabio, acode a isto com lhe dar 
pouco de comer, e ás vezes coração lavado, para que 
assim com fome constrangido amanse o misero passaro, 
e quebrantado de cançado, se mostra amigo, ficando 
das pancadas e mal trato enfermo, criando aposte- 
mas nas entranhas e bofes, e assim acabam todos por 
falta de caçador. E esta é a causa total da morte dos 
estrangeiros Açores. 

Acode-se a este erro com o que digo no capitulo 
terceiro da criação dos Açores ninhegos, e verá que 
ainda os Açores criados pelos homens, quando se 
veem prezos se embravecem e para tornarem a ser ami- 
gos dos paes que os criaram, que são os homens, é 
necessario trabalharem com elles, trazendo-os na mão 
muitas noites. 

Seja agora por avizo ao amigo caçador e aos se- 
nhores que comprarem Açores estrangeiros, que lhes 
não tirem os caparões de dia, e os tragam com elles 
muitos dias contínuos, e de noite com as cabeças des- 
cobertas, dando-lhes com uma pena pelo rosto man- 
samente, e procedam assim até se elles entregarem ao 
somno e comerem sem receio, como se diz no capi- 
tulo quarto, dos Gaviões safaros, e no nono do livro 
terceiro, no capitulo que ensina a cozer os olhos, e na 
“regra de como se amansam os Falcões, e na que 
falla no Falcão nebri, e por toda esta arte se verá 
como as aves se tornam mansas e amigas dos homens, 
o que se faz com amor e prudencia e soflrimento; 
com amor, dando-lhe de comer coisas de que tomem 
gosto; com prudencia considerando o tempo e a ne- 
cessidade da ave, que umas são differentes na condi- 
ção das outras; com o sofirimento para que o tenha 
o caçador para com as aves menencorias e mal acon- 
dicionadas, porque umas se mostrarão amigas a pou- 


E 


72 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


cos lanços, e outras primeiro que o sejam enfadam o 
caçador. 

E posto que diga muitas vezes n'este particular, 
uma cousa, convem que assim seja, pois vae a vida. 
do Açor e preço d'elle, e o gosto do senhor cujo é. 
E para satisfação dos que tiverem a contraria opinião 
darei este exemplo. 

Os Açores decotados que se compram e não tra- 
balham com elles aquelle anno, e os tem metidos em 
casa, dando-lhes de comer sómente sem os vêr nin- 
guem, vivem e mudam, e começando de trabalhar 
com elles pelo seu modo errado, acabam todos as vi- 
das como os demais. 


CAPITULO XI 


Dos Açores do Brazil 


anno de seiscentos e oito, mandaram do Bra- 

zil ao marquez de Castello Rodrigo dois pas- 

saros notaveis; um d'elles mandou a el-rei D. 
Filippe terceiro, do outro deu cuidado a um caçador, 
em cuja casa O viram desprezado, que me corri, pela 
qual razão o vi mais depressa do que agora o con- 
templo, que quero escrever d'elle. 

Na alcandora em que estava posto, notei que tinha 
boa postura; na grandeza do corpo fazia vantagem 
aos Açores da nossa Europa, ainda que pouca; tinha 
o rosto comprido, a cabeça para o corpo antes pe- 
quena que grande. 

No alto d'ella em direito dos olhos, tinha umas 
pennas mais compridas que outras, postas como as dos 
nossos bufos, a modo de cornos, as quaes abaixava ás 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 73 


| vezes; não eram mui compridos, o pescoço bem ti- 
rado, as pennas de que tinha o peito coberto eram 
brancas, sem n'ellas haver pinta alguma; era mais per- 
nalto alguma coisa que os nossos Açores; tinha as 
mãos mais pequenas, o cabo mais curto. Não fizeram 
nada com elle, por falta de caçador. 

Deve d'haver n'aquellas partes do Brazil aves no- 
taveis para caça, e por falta de quem as conheça, se- 
não sabe d'ellas. 

Ao infante D. Luiz, duque de Beja, filho d'el-rei D. 
Manuel, trouxeram d'aquellas partes do Brazil um gi- 
rifalto branco, e tão alvo como uma pomba. O prin- 
cipe o teve sem fazer nada com elle, por estado; que- 
rendo mandar lá caçadores, por a viagem não ser 
então tão tratavel como hoje, o dissimulou. 

Nas ilhas de Cabo Verde criam Falcões tagarotes, 
que são mui excellentes perdigueiros. 

Não duvido que ainda haja cubiçosos que tornem 
a renovar esta caça, que ainda vivem as reaes casas 
do duque de Bragança e de Aveiro, e tres marque- 
zes e vinte e cinco condes, e muitos senhores illus- 
tres, muito mais ricos do que nunca foram seus ante- 
passados, pelas muitas mercês que el-rei D. Filippe 
nosso senhor, lhes tem feito, e havendo homens ex- 
pertos e praticos n'esta arte, não duvido tornem a 
este jogo e o levantem do esquecimento em que está 
posto. 


74 BrecrorHECA DE CLAssicOs PORTUGUEZES 


CAPITULO XII 


Como se podem trazer Açores de mar em fora sem 
perigo 


UITAS vezes vem a esta cidade, de fora, Aço- 
res tão mal tratados, por serem trazidos por 
pessoas que os não sabem governar, que é 
desgosto vêr os miseros Açores com as pennas das 
azas e do cabo quebradas; e elles todos enlodados com 
as tolheduras, por virem mettidos em capoeiras co- 
bertas de calhamaço, e dentro lhes deitam o que co- 
mem; e posto que a viagem seja breve, poucos dias 
tratados d'este modo bastam para virem taes. Outros 
os trazem melhorados como fazenda, mas não como 
podiam vir sendo trazidos por pessoas que o sou- 
bessem, e por evitar não sómente o mão trato das 
aves, mas ainda a perda de interesse, que não será 
pequeno áquelles que os souberem trazer e curar; por- 
que n'aquellas partes custam muito pouco dinheiro, 
e n'estas estão hoje estimados em muito preço, e não 
duvido que se houvesse quem soubesse tratar as aves, 
e as trouxesse por mercadoria, interessasse muito e 
ganhasse de comer. 
O melhor modo com que podem vir, é com seus 
caparões na cabeça, postos elles em suas alcandoras, 
as quaes sejam a modo d'um catre da India, liados 
com cordeis, postos a modo de rêde, como os catres 
de marinheiro, porque venham todos os rostos uns para 
os outros e os cabos para a banda de fora, o que é 
facil. Porque tocando elles na rede com os cabos, se 
viram para fóra e ficam assim com os rostos virados, 
como digo, e debatendo-se não se enforcam. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 75 


Hão-de ser as alcandoras um covado levantadas 
da terra para que venham limpos, e cobertas de ca- 
lhamaço em que elles ponham as mãos; o comer 
quando vierem por mar seja limpo de ossos e nervos; 
porque não aconselho que se tirem os caparões, sendo 
a jornada breve, e sendo comprida sim, dando-lhes 
suas plumadas algumas vezes, ainda que fique sendo 
trabalho ao caçador tirar-lhe os caparões á noite, e 
ante-manhã tornar-lh'os a pôr em aquelles que não ti- 
ver dado plumadas, que tendo-as aguarde a que as 
faça. 


CAPITULO XIV 


Da causa porque os treçós da Allemanha são melhores 
para as perdises que os primas 


o capitulo dos Açores estrangeiros fica dito se- 

rem os treçós melhores perdigueiros que os 

primas da Noruega, e não diz a causa. Parecia- 

me que devia dar satisfação ao caçador sabio com 
alguma similhança. 

Às aguias são aves de rapina e se mantêm de caça 
que tomam, e são tão animosas que todas as aves as 
temem, e os Açores em as vendo se acovardam tanto, 
que na mão do caçador se não tem por seguros e se 
encolhem, como que se escondem, porque ellas mui- 
tas vezes os matam. 

Estas, sendo taes, não caçamos com ellas, nem ouvi 
dizer houvesse nação que com ellas exercitasse a caça; 
porque são muito grandes e pezadas, e sahindo da 
mão do caçador não voaria, que mais não corre um 
cavallo, se de braço tornado e de longe da terra fi- 
zessem com ella lanço, isto por sua grandesa e peso. 


76 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES f ! 


Da mesma maneira os Açores primas da Noruega 
e Suecia, e d'algumas partes do norte, por serem muito 
grandes, não são tão desenvoltos, nem se podem levar 
voando com aquella levidão e ligeiresa necessaria que 
convém ao impeto do vôo das nossas perdizes, não por 
culpa dos Açores, senão da naturesa. 

E é tão conforme á razão que para as aguias caça- 
rem e tomarem aquellas aves, de que se hão-de ce- 
var, se levantam de rodéo em muita altura, e quanto 
mais altas se pôem, mais seguro tem seu lanço; por- 
que como ellas são maiores que todas as mais aves de 
rapina, e mais pezadas, com o pezo rompem mais 
depressa a densidão do ar, e alcançam, descendo de 
cima, com muita facilidade, a todas as aves, e lhe não 
podem fugir, o que não fariam se do longo da terra 
voaram, como nós voamos com os nossos Açores. 

Os aletos pela levidão e ligeireza que tem, por se- 
rem pequenos, são hoje muito estimados na caça 
das perdizes. 

Por esta razão os treçós d' aquellas partes são me- 
lhores que os primas, por não serem tão grandes, e 
pouco menores que os primas de Hespanha. 

É assim fica satisfeito o caçador amigo, sabendo a 
causa porque se logo não disse, que algumas vezes 
dorme o sabio. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 77 


CAPITULO X V 


De como se treina o Açor para caçar abetardas e 
garças 


Á fica dito que os Açores da Allemanha são sá- 

faros, e, como taes, costumam-se a cevar de 

quaesquer aves que lhes offerecem, e assim fica 

facil ao caçador fazel-o matar as garças e abetar- 
das. 

Os nossos hespanhoes tem mais necessidade de al- 
gumas treinas, e uns e outros bom é espertal-os. 

Querendo o caçador que o seu Açor mate a abe- 
tarda, o treinará em os patos mansos, fazendo-os 
apegar n elles e dando-lhe de comer em cima, traba- 
lhando que o pato se queixe e levante suas vozes e 
adeje; e juntamente convem que se ensine o galgo e 
morda no pato e o mate, e lhe façam pegar na ca- 
beça e lh'a dêem a comer, arrancando-lh'a, que saiba 
o galgo que tambem ha-de comer do seu trabalho. E 
isto estando o Açor ou Falcão afferrado no pato, e que 
veja o Açor o galgo e o galgo o Açor, ese o cão se 
quizer desmandar o reprehendam. 

De tal arte se ha-de haver o caçador que o galgo 
entenda que não ha-de enojar o Açor ou Falcão, e que 
ha-de matar o pato, o que elles fazem em muito pou- 
cos lanços, e como o Açor entrar nos patos, de quam 

* longe os vir e o galgo souber soccorrer, vá buscar a 
abetarda, que o mesmo fará que no pato fazia, nas 
garças e patas bravas; porque os Açores são aves de 
força e apegadores, e pouco soccorro lhes basta, o que 
não teem os Falcões que são pequenos e não podem 


BrscrorHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


mais que embaraçar, e tem necessidade de muita dilij 
gencia e grande soccorro, e o mesmo que se faça ao 
Açor não é erro. / 

Eu vi um Açor nosso afferrado em uma abetarda, 
ella voar com elle como se não levara nada; o Açor 
afferrado dependurar-se á terra e ciar as azas para a 
fazer vir ao chão. E tanto fez que a trouxe abaixo 
bem longe de nós, que estavamos a pé; mas levava- 
mos um galgo mestiço de soccorro que ajudou bem 
seu companheiro, e quando chegámos ao nosso Açor 
elle tinha uma mão apegada no focinho do galgo e a 
outra na ave. 

O galgo estava quedo, soffrendo ter o focinho atra- 
vessado das unhas do Açor, sem ganir nem se bolir. 

Este Açor e galgo vendeu meu pae ao marquez de 
Barcarrota por muito dinheiro, e tendo dado sua pa- 
lavra da venda se entristeceu tanto, que minha mãe 
lh'o conheceu no rosto dizendo-lhe: 

— Senhor, dizei-me a causa da vossa tristeza, que 
é tanta que se deixa vêr? 

Respondeu o bom velho: 

— Fez-me a fortuna tão pobre que vendo o meu 
gosto por dinheiro. 

Ella que o amava, lhe disse: 

— Não vendaes vosso gosto, que ainda nossos fi- 
lhos teem pão que comam. 

' Deu em resposta : 

— Quem tem filhos e não é muito rico, não ha-de 
ter gosto que custe tanto ! 

Tinha elle esta arte de caça como por officio, e di- 
zia que duas cousas haviam de ter os homens, além 
de serem verdadeiros: serem caçadores e amigos de 
cavallos. 

A ultima ave de caça que teve o infante D. Luiz, 
foi um Açor nosso que matava os corvos e as gar- 


ArTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA 79 


ças; era de Noruega. Este de sua natureza era incli- 
nado ás ralés, e em vendo o casal se ia para elle a 
matar as gallinhas, pela qual rasão o treinam os em 
os corvos, e os matava estranhamente, e as garças 
tambem, como um Falcão sacre. 

Este Açor já depois do infante ter deixado a caça, 
e meu pae aposentado, o mandou chamar e trouxe o 
Açor, com que elle folgou em extremo por lhe vêr 
matar os corvos, que lhe aconteceu vêr fazerem tanta 
poeira, andando ás voltas, como dois justadores a ca- 
vallo. 

O Principe D. João, pae d'el-rei D. Sebastião, fol- 
gava com Açor em extremo, e com quem o tinha, 
que n'aquelle tempo se mantinham os homens mais 
dos favores dos principes que do dinheiro que lhes 
então podiam dar, porque eram pobres. 

Estando o infante nos paços d' Almeirim a uma ja- 
rella, vendo uma garça que se poz á sua vista, man- 
dou que viesse o Açor. 

Vindo meu pae, entrou onde o Principe estava, o 
qual lhe deitou o braço pelo pescoço e o levou á ja- 
nella, e lhe mostrou o lugar onde a garça estava posta, 
e que se não havia de tirar d'ali até lhe não vêr 
matar a garça. Foi tão venturoso que a matou, fazendo 
o Açor no ar tornos como se fôra um Falcão. 

O infante festejou muito a vista, e disse publica- 
mente, que muitos o ouviram: 

O tlomens me servem à mim na caça, que fazem 
muita vantagem aos que tenho no serviço de minha 
casa. 


80 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPITULO XVI 


Como se fará a muda ao Açor, e como se ha-de gover- 
nar 


casa onde houver de estar o Açor para mu- 

dar, seja antes grande que pequena, tenha ja- 

nellas, pelas quaes lhe entre o sol e vento, e 
seja, se possivel fôr, norte, que é mais saudavel. 

Nas janellas se porão vergas de pau, que por ellas 
entra o sol e o Açor se não possa esçoar fóra. E se 
parecer bem, se pode pôr uma réde do tamanho da ja- 
nella, antes das vergas ou reixas, por que as aves en- 
cerradas desejam sahir ao campo, e podem commetter 
a sahida, e anteposta a rêde priva que nem elle com- 
mettendo possa sahir sem metter a cabeça por entre 
as vergas e se afogar, como já aconteceu. 

Na casa se porão alguns feixes pequenos de car- 
queija ou vides, onde o sol mais assistir, porque os 
Açores se hão-de vir deitar n'elles algumas vezes, que 
na criação assim o fazem. 

Pôór-se-ha seu alguidar com agua limpa, para Oo 
Açor a tomar se quizer. 

Tambem se lhe põe areia espalhada: ainda que eu 
nunca vi Açor nem Gavião que se espojasse n'ella, 
mas pode muito o costume. 

Pode-se tambem ter um alguidar com algumas her- 
vas, assim como salsa e hortelã, que não duvido que 
folgue o Açor com aquella verdura. 

Para o Açor bastam duas alcandoras e o banco em 
que se houver de atar a carne que houver de comer, 
a qual se atará com uma corréa, porque a corda roerá 
elle e a engulirá. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 81 


— O comer sejam rôlas bem cevadas, pombinhos dos 
* grandes e estes bem depennados, e as tripas fóra, e 
os ossos das azas e pernas, e os pés e o pescoço ma- 
chucado, e os nós de todas as juntas, que se os comer 
- os faça em plumadas. 

Muitas vezes é bom mudar-lhes os comeres, dando- 
lhes coração de carneiro e de vacca, pardaes e triguei- 
rões. São bons todos os passaros que se mantéem de 
sementes, os pequenos mal depennados e tripas fóra, 
os côtos das azas e dos pés e pernas machucados, que 
elles os farão em plumadas. 

Os pombos e rôlas e outras aves grandes que se lhes 
porão, se limparão com um panno por não levarem 
piolho, e sendo a casa grande entre o caçador n'ella 
mansamente e deixe-se estar quieto vendo o que o 
Açor faz. 

Se não muda como deve e que come mal, e se tiver 
semblante triste, 'differente do que costuma, o tomará 
á noite na mão, e estando baixo de carnes cure d'elle 
com boas viandas, e se lhe póde dar alguns papos de 
toucinho fresco, limpo das feveras de carne, que os 
Açores o comem com muito gosto e engordam, e gua- 
recido se torne á muda, e estando enfermo e não an- 
dando, se fará o que ensina o capítulo que vae adiante 
no tratado dos Falcões. 


82 BrsLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


LL AAA A a a 


CAPITULO XVII 


Da purga para os Açores 


s cousas ordenadas conforme a rasão não po- 

dem ter mau successo. Os medicos primeiro que 

purguem os enfermos preparam os humores e 
os põem em caminho para com facilidade os evacua- 
rem, e lançarem fóra do corpo doente. 

A mesma ordem é bem se tenha com as aves que 
tiverem necessidade de serem purgadas. Sendo verão, 
querendo metter o Açor ou Falcão na muda, aconse- 
lham todos que se purgue primeiro. 

Preparar-se-ha xarope de cozimento de malvas, co- 
mo em quartilho e meio, um molho pequeno, ferva, 
que fique em um quartilho; n'este cozimento se deita 
um pequeno de assucar e se torne ao fogo, que faça 
uma fervura. 

Em este xarope desfarão um coração de carneiro, 
em pequenos, limpo dos nervos e gordura; e o darão 
a comer ao Açor estando morno o xarope. 

Ha-de ser a terça parte do xarope sómente, porque 
sendo a carne molhada em toda a quantia se damnará 
a que restar. 

E assim se faz segundo e terceiro dia, e á noite de 
um frangão ou do mesmo coração de carneiro. 

Tambem podem fazer o mesmo cozimento de bor- 
ragens, que ambas tem virtude de abrandar e molli- 
ficar. 

A purga se fará de mechoação que se vende nas bo- 
ticas, o qual farão em pó, e delle tomarão tanta quan- 
tidade d'estes pós como meio tostão cagulado d'elles, 


- 


Arte DA CAÇA DA ÁLTANERIA 83 


e formará d'estes pós uma pilola, os quaes juntará 
com o dedo molhado em mel, e fará a pilola do com- 
primento d'um pinhão. 

Esta dará ao Açor ao terceiro dia depois do xarope, 
e da mesma maneira se póde fazer de Azibar, e a em- 
brulhará em uma peile de frangão, dando-lhe de co- 
mer sua tutella de frangão, e ao outro dia lhe prova- 
rão a agua com seu membro de gallinha. 

Esta purga basta para os Açores. 

Podem-se dar os pós envoltos na carne, que são fa- 
ceis de tomar. É sendo caso que de mar em fóra ve- 
nham Açores ou Falcões, sendo de verão se haverão 
com os mesmos xaropes, e de inverno se farão de rai- 
zes de lyrio, que aquelle cozimento tem virtude de 
mollificar, e é temperado. 

Primeiro que se purgue a ave se deve considerar a 
disposição e como está de carnes; se estiver falto d'el- 
las vá a tento, dando-lhe de comer até que as tome, 
e então a purgue, como fica dito. 

Os xaropes se farão tomando uma onça e meia de 
raizes de lyrio, mondando-lhe a casquinha de cima, 
da terra, e a cortarão em pequenos delgados e a dei- 
tarão a cozer na quantidade d'agua que acima digo, e 
tiradas as raizes depois de cozidas, lhe deitarão seu as- 
sucar, e n'este xarope se fará o mesmo que digo com 
o coração de carneiro. 


Regra ao caçador novo 


Para o caçador são necessarios podengos, os quaes 
tenham amizade e conhecimento com o Açor, o qual 
comendo na mão sem receio, indo mostrando amizade 
lhe darão de comer sendo presentes os podengos que 
houverem de caçar com o Açor. 

Basta ao principio serem quatro, sendo estremados; 


84 BrgLIOTHECA DE CLAssiCOSs PORTUGUEZES 


depois de o Açor estar perfeitamente cevado se usará 
d'aquelles de que o caçador levar gosto; e quando 
derem de comer ao Açor os convidarão com algu- 
ma cousa, chamando cada um por seu nome, o 
qual será de poucas sillabas, assim como: Turco, Tejo, 
Limão, Roza, Silva, Bruca e outros por que elles ficam 
entendendo melhor o caçador, e custa-lhe menos a 
pronunciação pela brevidade do nome. 

Aos cães se dará de comer na casa onde o Açor 
estiver, fazendo-os conhecidos do Açor, e se algum na 
ferida costumar a comer as perdizes se castigará pon- 
do-se-lhe uma perdiz em terra, e sobre ella boas pan 
cadas. 

Eu tive um podengo excellente de feridas de balsas, 
e n'ellas me engolia as perdizes, o que conheci por lhe 
vêr pennas na bocca, onde as perdizes me faltavam; 
elle se emendou com o castigo. 

Trabalhe porque não venha o Açor em conhecimen- 
to das perdizes de mão, nem das revoadas, que costu- 
mando-o a issó mais do necessario se faz preguiçoso, 
e entrando elle bem na revoada se busque a dever en- 
trar depressa, que não esteja ella descançada fazendo 
bom lanço, que o Açor fará seu dever, e sendo as per- 
dizes novas melhor. 

De inverno convem se tenha industria, buscando 
perdizes que não sejam apuradas, tendo lembrança 
que se deixe o Açor com uma perdiz em terra, qua- 
tro ou cinco vezes, e a que elle melhor voar se dei- 
xará estar mais tempo, fazendo-lhe gazalhado, fallan- 
do-lhe, dando-lhe o coração e entertinho com alguma 
gordura, que entenda elle que folgava com o que fez. 
E se fôr a terra raza na qual as perdizes correm 
muito, e o Açor a tiver assentada, posto em terra se 
levantará na mão, porque não aconteça ao caçador o 
erro de Antonio Barroso, caçador do duque d' Aveiro, 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 85 


o qual voando uma perdiz deante do duque e do se- 
nhor D. Antonio, filho do infante D. Luiz, o Açor 
rendeu a sua passara em uma charneca rasa. O Açor 
se poz em terra por não achar em que se melhorasse; 
o caçador mór do senhor D. Antonio foi de parecer 
que o Barroso levantasse o seu Açor na mão, o qual 
confiado na bondade do passaro o deixou estar. 

À perdiz correu muito espaço e sahiu longe, d'onde 
o Açor estava posto, com os olhos na parte onde a 
perdiz se puzera, e por mais que o caçador gritou á 
perdiz levantada, o Açor embebido, parecendo-lhe 
que a tinha perto se deixou estar, e a perdiz esca- 
pou. 

Foi festejado este erro, d'aquelles senhores, dando 
matraca ao Barroso, que se tinha por grande caçador, 
o que elle sentiu. 

Costume é entre os caçadores de Andaluzia, levan- 
tarem os Açores na mão, estando na ferida, os quaes 
estão já tão costumados a isso, que em o caçador o 
levantando se pôem n'ella, o que se uza n'aquella terra 
por ser chã e de palmares e muito raza, e os Açores 
não terem onde se melhorar * mas em parte que o Açor 
estiver na ferida, melhorado, se deixará estar, porque 
muitas vezes veem elles primeiro a perdiz que os po- 
dengos a levantem, e a caçam, e é bom deixal-os fa- 
zer a elles 

Todas as vezes que possivel fôr, dando de comer 
ao Açor, em casa no campo, se chamará á mão, por- 
que assim costumado fica bem recolhido, que é grande 
falta não o ser. 

Nota que sendo dia de vento se deixe estar o Açor, 
ainda que temperado esteja para ir fóra, que os dias 
de vento são mui contrarios á caça das aves, só para 
a dos veados aproveita, e das aves só á dos girifaltes, 
que quer vento, d'onde nasceu aquelle adagio: —o sa- 


86 BreriorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


cre com chuva, o girifalte com vento, nibri com 
bom tempo. 

E se se achar no campo e o vento se levantar, O 
bom é cevar e vir, e tornar a casa. 

E se o desejo de comer perdizes e confiado na bon- 
dade do Açor, em tal dia se caçar, que ás vezes a 
cubiça rompe o saco, desse pouco de comer ao Açor, 
quando se cevar, que o trabalho de voar em tal dia 
quebranta, e ainda mais se fôr o dia frio; pelo que se 
dará pouco de comer ao cevar, depois alguns dias de 
folga que descance d'aquelle trabalho, e boas viandas. 

Nota que tirando o Açor da muda, que será á 
noite, aquella e quatro mais se trará na mão até á 
madrugada, que se tornará a meter na muda como 
d'antes andava solto, e ao quinto dia que já então 
deve estar quebrantado algum tanto com o somno, se 
entrará com elle na casa com resguardo, e ainda que 
se mova de uma alcandora para outra, não importa, 
que com aquella mudança e voar se lhe desfará a en- 
xulha. 

E vendo o caçador que elle está já brando, com elle 
na mão sahirá de noite a algum rio que tenha agua em 
que se possa pôr; e n'ella mansamente o deixará es- 
tar com os pés mettidos n'agua, e com uma varazi- 
nha lhe deite algumas gôtas no corpo e rosto que 
sinta aquella frescura, e se fizer mostra de a querer 
provar, com a varinha o vão entrando n'agua, que 
póde ser que a tome, e será bom assim para se de- 
ceinar, como para se tirar d'aquelle orgulho com que 
sahiu da muda; e se digo seja feita esta obra de noi- 
te, é porque se não escandalize o Açor e tome medo 
á agua e não queira depois entrar n'ella, que se a ave 
não fôr farta do sol e agua não pode fazer cousa que 
boa seja. 

Alguns caçadores pela razão de mais depressa se 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 87 


desfazer a enxulha lhe tiram o comer, de modo que 
quando o querem cevar, está tão baixo de carne que 
não póde fazer o que deve, e é erro notavel, porque 
de uma maneira se ha-de haver o caçador com o 
Açor bravo, d outra com o bem acondicionado. 

Porque pode haver passaro, o qual antes de de- 
ceinado de todo se pode cevar, que voando, melhor 
se deceina e mais depressa se desfaz a enxulha. Digo 
que estando o Açor manso que se atreva a largar-se 
solto mostrando vontade de comer, dando-lhe d'um 
coração de carneiro lavado, um dia antes; amanhe- 
cendo no campo entre as perdizes, se pode largar com 
bem lanço pegado, antes que o sol aqueça, e nella se 
dê de comer ao Açor as pernas sómente; e assim 
procedendo com resguardo se deceinará com facili- 
dade e menos trabalho pondo-o n'agua e é boa pra- 
tica. 

E sendo os Açores bravos e mal acondicionados se 
haverão pelo contrario, trazendo-os muitas noites na 
mão, amanhecendo com elles no campo, e os chama- 
rão a ella tendo presentes os podengos. 

Conhecer-se-ha o Açor estar deceinado na fome que 
mostrar e na levidão com que voar. E se perdeu a fome 
por razão da enxulha quebrada, se uzará como en- 
sina o capitulo que d'isto trata, que vae adiante. 

E sendo caso que o Açor seja muito cubiçoso das 
perdizes e no campo debatidiço, que não é mais n'elle, 
convem que haja soffrimento e prudencia acudindo- 
lhe com lhe dar algumas picadas de carne com que 
o entretenham, que pode ser que o desejo de voar O 
faz debater a meudo; que eu vi caçadores tão mal 
soffridos que se agastavam com os Açores, sacudindo 
com a mão, e os pobres passaros dando com os peitos 
na luva. 

E se não ha prudencia são de pouca dura, e por 


88 BrpLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


boas azas que tenham, quando vêem ao cabo da ferida 
não podem ir tão frescos como os Açores quietos. 

Com estes se haverá o caçador dando-lhe a carne 
molhada em arzolla e sua agua, e alguns dias alguns 
papos com alquitira, tomando um coração de car- 
neiro limpo de pelle e nervos, desfeito em alquitira, 
com arte, que vá cada bocado da carne envolto 
n'ella, e se o Açor a não quizer comer e fôr de pou- 
ca fome, lhe darão os pós passados por peneira em 
bocadinhos, de modo que os não sinta, e isto se fará 
em dias de sol, e aos debatidiços, que lhes refresca o 
figado e esfria o sangue, e o mesmo faz a zaragatoa 
e a resina das amexieiras. 

Nota que em dias de grande sol andando no cam- 
po com um Açor se achegue a algum rio ou ribeiro 
d'agua para que os podengos bebam, os quaes de sua 
natureza são quentissimos, e com a sede e calma se 
encheriam de sarna, e podem raivar; pela qual razão 
vindo da caça dos perdigões no verão, lhes mandarão 
deitar agua fresca em um alguidar grande e o pão 
molhado n'ella; e querendo o caçador que os seus 
podengos se melhorem no cheiro, para rastejarem 
melhor, lhe darão o pão molhado na agua com pós 
de enxofre, assim aos podengos, como a sobujos. 

Os podengos filhos de cães de coelhos são excellen- 
tes perdigueiros e muito duros. 

Primeiro que se meta o Açor na muda, veja o 
caçador se tem piolhos, e tendo-os, lh'os tire, e se 
fará o que diz o capitulo que d'isso falla, que vae 
adiante. 

Em dezembro, janeiro e fevereiro, que são os me- 
zes mais frios, se dará a carne sempre quente, pas- 
sada por agua cosida com salsa ou canella, porque 
muitas vezes, com as noites grandes, se resfria o buxo, 
- e alguns caçadores lhe dão na plumada um dente de 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 89 


Sar, 


alho, porque o frio é inimigo de todas as cousas sen- 
tivas, até dos ossos e tutanos. 

E é tão conforme á razão, que as mesmas aves se 
sahem da Allemanha e se veem a estas nossas partes 
por conservação da vida; e convem para a conserva- 
ção de nossos lindisssimos Gaviões termos conta 
n'este tempo mais com elles, que outro nenhum, dan- 
do-lhes passaros vivos, os côtos das azas, e algumas 
pennas miudas em plumadas, e não os tendo a carne 
seja quente, passada por agua morna, cozida com es- 
pique, canella ou salsa; e sua plumada d'algodão. Po- 
dem-lhe dar na plumada estes mezes até todo feve- 
reiro, misturada com os fios, um pequeno de folha de 
massa que vem da India, pós de cravo, de herva doce, 
e para que lhe não falte nunca alguma cousa quente 
lhe podem dar, á conta d'isto, pimentos dos que dei- 
tam os castelhanos por adubos nas panellas, que são 
quentissimos. 

Ao Gavião se dê tanto d'aquella casquinha dos 
pimentos que seja quantidade da unha do dedo memi- 
nho, e ao Açor e Falcão duas partes mais. 

Estando no Crato n'estes mezes, morreram dois 
Açores a Simão Mascarenhas, Deão d'Evora, e outro 
Açor meu, todos tres gordos, sem mostras de enfer- 
midade alguma. 

Feita anatomia n'elles, não se lhes achou cousa que 
notar se podesse, mais que terem os buxos franzidos, e 
assentaram os caçadores ser de frio, porque ainda que 
nunca lhe faltaram suas plumadas, depois de as elles 
fazerem, ficando o buxo esfriado e sem nada, se fran- 
zio, e vieram os Açores a não poderem ter nada nelle 
e regeitarem até o sangue de pombinhos que lhes da- 
vam, que bem se suspeitou o que podia ser, por ser 
anno frio.' 

E para remedio de mal tão certo, pois vemos que 


go BrsLroTHECA DE CLAssiCOs PORTUGUEZES 


mr 


não escapa Gavião com vida a estes mezes, posto 
que custem pouco dinheiro, póde haver alguns de 
estima, que tenham seus donos pena e desgosto vendo 
que lhe morrem, pelo que me pareceu convinha n'es- 
tes mezes dar aos Gaviões algumas cousas das que 
acima digo. 

E sendo caso que os Gaviões mostrem signal d'al- 
guma agua, ou outra qualquer ave, lhes chuparão as 
ventas, que com isto se descarrega a cabeça da ave, 
e não haja o caçador asco d'isso, que não tem mais 
que algum salgado. 

Nota que a tolhedura que fizer o Açor ou qual- 
quer outra ave de caça sendo grossa e alva, e o preto 
d'ella grosso, é bom signal; e a que fôr delgada e o 
preto d'ella o mesmo e sahir misturada com algum 
mão cheiro, lhe acudam com boas viandas, das quaes 
já fallei na criação do Gavião. 

E sendo a tolhedura verde ou com mostras d'isso, 
declara indicio de quebrantamento de corpo; o reme- 
dio é: boas viandas, pouco e a meudo. 

Notando estou que o meu caçador me pergunte 
como temperará o seu Açor o dia antes de ir á caça 
para que o leve bem apontado. 

Tres cousas convem se considerem: À primeira se 
está farto de sol e agua; a segunda se é o Açor bem 
acondicionado, e de fome ou aspero e sem ella; a 
terceira se tem carnes. 

Se fôr bem acondicionado e andar cevadiço pouco 
basta dar-lhe pela manhã uma perna de gallinha, e á 
noite uma coxa toda com sua plumada, e não dando 
gallinha, que aconselho se dê, que assim o sentirão 
no voar, se dará a terça parte menos pela manhã e á 
tarde ametade menos do que lhe dava d'antes, e a 
sua plumada, e sendo aspero, mucha pluma y poca car- 
ne, que havemos de bolar mariana, como fazem os cas- 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 91 


telhanos, lembrando que as aves ensinam como se 
hão-de haver os caçadores com ellas. 

E sendo caso que se dê pouco de comer o dia 
d'antes, amanheça o caçador entre as perdizes e logo 
na primeira contente o seu Açor com lhe dar de uma 
perna de perdiz e a roer no toutiço, e o coração e a 
carne da muela, cousa que sinta elle que comeu; e as- 
sim se procederá como elle fizer, que n'isto de tempe- 
rar não ha regra certa. 

Eu tive um vó de milhano de tres sacres; ao prin- 
cipio os temperava todos por uma via. Entre estes 
havia um grande de corpo, o qual ensinei para me fi- 
car com a presa. Costumava dar a todos coração la- 
vado em agua morna, e que elles dentro na porcella- 
na tirassem a carne que haviam de comer de dentro 
d'agua em que estava desfeita; ao grande deixava co- 
mer como grande, e/ao pequeno menos. 

Veio o meu sacre grande, pelo temperar muito, a 
enfranquecer, que se deixou vêr conhecidamente. Fo- 


-mos temperando menos, e de tal modo, que sem tem- 


pera viemos a voar com elle, e nem por isso deixava 
de se abraçar com o milhano e afferral-o, de modo 
que em setenta e tantos que em um anno matámos, não 
tinha menos preso cada um que pela cabeça com uma 
mão, por o não morder, e com a outra, ou uma das 
mãos do milhano, ou ambas; o que fazia não por a tem- 
pera, que já então lhe não dava, e ás vezes a muita tem- 
pera destempera. O Açor ha-de ir caçando e comendo. 

O cevar costumam os que caçam com aves alheias, 
por lhes ficarem os peitos das perdizes inteiros, da- 
rem as pernas, pescoço, e coração, cabeça e olhos e a 
carne da muela, e alguma cousa do figado, e o pé da 
perdiz mastigado bastante cevadura fica sendo; mas O 
meu amigo dê os peitos ao seu Açor, e assim o terá 
elle para sua caça. 


92 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Alguns caçadores mais amigos de se pouparem que 
de fazerem bem o officio, não guardam bem os pre- 
ceitos da arte da caça, querendo amansar as aves sa- 
faras, Gaviões, Esmerilhões e ainda Falcões e Açores. 

Para os matinar fazem uma alcandora como re- 
douça em que se abalançam os meninos, atada em cor- 
das e dependuradas n'ellas põem o pau d'alcandora e 
n'elle atam as suas aves, para emquanto bolir, ellas 
não durmam; o qual põem em casa e onde elles tem 
a sua cama, com candêa, para que as aves vendo-a, 
pelo descostume não durmam ; e de quando em quan- 
do com uma corda que tem atada na mesma alcandora 
os embalançam, e d'este modo tirando-lhes o somno 
os fazem pasmar: parecendo-lhes a elles que os tem 
mansos, os quaes tornando em si, ficam o que d'an- 
tes eram e nunca são bem amigos. 

Nos Gaviões e Esmerilhões se pode soffrer este 
modo, mas nos Falcões e Açores, que são aves de 
estima, são dinos de reprehensão, porque nunca fa- 
rão cousa boa. 

Notem tambem outro mal peior, que é morte total 
dos Açores estrangeiros, como fica dito no capitulo 
onze. 

Costumam os mal praticos comprando os Açores 
aos allemães que a esta cidade trazem, sendo safa- 
ros, tirarem-lhes os caparões e pôrem-nos á vista de 
todos, sem mais os trazerem na mão de noite, nem 
curarem d'elles com arte; e a puras debatiduras se 
criam em suas entranhas apostêmas de que morrem. 

Aqui acudirá o caçador amigo como ensina o ca- 
pitulo onze. Lembrando que não ha arte alguma na 
qual não sirvam os erros que n'ella se fazem de dou- 
trina para aquelles que depois a professam, pelo que 
acabarei esta segunda parte, advertindo ao meu novo | 
caçador, o qne aconteceu este anno de 615 a dois se- | 


ARTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA 93 


nhores, os quaes sahiram d'esta cidade com cada seu 
Açor á caça dos perdigões, e cada um foi por sua 
parte, com intento de fazer inveja ao que menos per- 
digões matasse. 

D. Diniz de Faro, filho de D. Estevão de Faro, ve- 
dor da fazenda de Sua Magestade, o primeiro dia que 
largou o seu Açor lhe fugio, e se passaram quatro 
dias antes de o cobrarem. D. Pedro Castello Branco, 
que foi com outro Açor, o qual sem lhe fugir, o fez 
peior, debatando-se e não querendo andar na mão 
seguro, sem olhar a perdiz nem perdigão, e ainda que 
differentes no modo, o erro vem a ser todo um. 

É não se hajam os caçadores sem culpa, porque o 
Açor que no campo se debatia, levando-o na mão, 
era pelo costume que tinha de lhe darem de comer 
em casa, e o tinham convertido em natureza. Porque os 
senhores que similhantes Açores têem guardados para 
os perdigões, não tendo caçadores praticos, não fa- 
zem mais que dar-lhe de comer e pol-os na alcando- 
ra; e outros pelos terem mimozos os largam sol- 
tos na casa, e sem mais condição nem arte os tiram 
d'ella, parecendo-lhe que sendo Açores e com lhe da- 
rem de comer dois dias d'um coração lavado, ficam 
com fome, levidão e doutrina bastante para em vendo 
as perdizes as levarem na mão, havendo de ser muito 
pelo contrario. 

Pelo que advirto ao meu caçador novo, que antes 
de sahir á caça com Açores sobrepostos, costumados 
a estarem encerrados, dando-lhe de comer em casa 
se haja com arte, como já disse no ensino dos Aço- 
res novos, levantando-se de madrugada, levando o 
Açor na mão alguns dias a cavallo, com os podengos, 
e lhe dê de comer no campo chamando-o á mão, 
pondo-o n'agua, e tomada o deixe estar no campo 
sobre uma pedra, curando de si; dando-lhe primeiro 


94 BreLiOTHECA DE CLAssICOSs PORTUGUEZES 


que na agua o ponha umas picadas de carne, tanto 
como uma noz pequena, e depois lhe dê a comer, 
chamando-o á mão, tendo deante os podengos com 
que ha-de caçar. 

Isto fará o caçador de tres em tres dias, dando-lhe 
boas madrugadas, e não lhe tirando o comer; e algu- 
ma vez leve o caçador comsigo um pombo que bem 
vôe e o largue no ar voando, e n'elle lhe dê de co- 
mer; e com isto o irá espertando do descuido do 
tempo que está na casa sem vêr o campo, e se lhe 
fará fome verdadeira, por que ainda que elles a mos- 
trem na casa, não fica sendo qual convem para a caça; 
pelo que muitas vezes encommendei madrugassem 
com as aves e as trouxessem na mão, porque sendo 
assim tratadas serão amigas do caçador, o qual pro- 
cedendo com os Açores, como fica dito n'este tracta- 
do, não cahirá em similhantes erros. 

Alguns caçadores parecendo-lhe que com matarem 
os mochos com os seus Açores, os tem com lem- 
brança viva para se não esquecerem das perdizes, e 
com elles matam os mochos, n'elles os cevam fazen- 
do-lhe festa como se fossem as perdizes, para que 
elles os tem guardados, não sendo conforme á arte da 
caça; porque costumados a comerem no que lhe custa 
pouco trabalho em matar, e voa pouco, desconfiam 
se topam com perdigão aspero e que lhe trinque, o 
deixam; e com isto deixo a caça do Açor e me passo 
a tratar das Aguias. 


m Lda 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 95 


CAPITULO XVII 


Da aguia e a razão por que das aves de rapina são 


maiores as femeas que os machos, e melhores na 
caça 


aguia é contada entre as aves de rapina, a rai- 

nha de todas as aves, porque todas a temem, 

e em a vendo se acovardam, e não se chama 

rainha pela corôa que tem na cabeça, que mui- 

tos Falcões a têem, nem por ter os olhos fixos no sol, 
e em seus raios, sem os mover, que todas aves de ra- 
pina fazem o mesmo. E não cuidem os que não sa- 
bem que o caparão que se põe aos Falcões na cabeça 
que seja por elles não soffrerem os raios do sol, que 
se o trazem é por se não debaterem pela gallinha ou 
pomba, vendo-a, de que se elles se mantem e comem. 
A aguia se chama a rainha por que caça differente 
das outras aves, porque os Açores, Gaviões e Falcões 
caçam differentemente, os quaes como sejam levis- 
simos, de qualquer modo que se lhe offerece a ralé de 
que se querem cevar, a seguem e alcançam; a aguia 
muito pelo contrario, porque para tomar a caça de 
que se ha-de cevar se levanta o mais alto que se pode, 
e com voltas que faz rodeando no ar para ir desco- 
brindo assim as aves do céo, como as que estão pos- 
tas na terra, e quanto mais alto se levanta, tanto 
mais descobre e vê a ave que atravessa o ar, a lebre, 
o coelho, ou perdiz andando buscando o comer pela 
terra, e ao que apetece se deixa cahir; e como é ave 
muito grande e pesada desce mais depressa, rom- 
pendo com o peso a densidão dos ares que todas as 


96 BrgLiotHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES 


mais, e as alcança e prende, e lhe não escapam os que 
ficam debaixo d'ella. 

E por ser o seu caçar diferente e descer do alto, 
se pode ter por rainha, e por se acovardarem todas as 
aves diante d'ella; e tanto que os Açores, ainda que 
na mão do caçador vão, em a vendo, se encolhem e 
assobiam, dando signal ao caçador como elles a vêem, 
a que os não larguem. 

E além de todas estas cousas, é das aves de rapina 
a maior; e faz muita vantagem a todas as aves que 
se mantem de caçar outras para sua comida. 

E ô mesmo na força, que a tem tanta, que d'ella 
diz Frei João dos Santos, em o livro da historia da 
Ethiopia : 

«Que vio uma aguia levar um bugio grande com 
um cêpo atado, voando pelo ar, como se não levasse 
nada». 

O que nós sabemos que uma lebre leva, como se fos- | 
se um passaro, é um cordeiro pequeno. 

Ellas matam os nossos Açores, e de uma vez que 
os levem nas mãos, logo os acabam e morrem de vi- 
rem atravessados com as unhas. 

A mim me aconteceu, sendo moço, andando á caça 
do Açor, largando-o a uma perdiz, cahir a elle uma 
aguia, a qual devia estar tão mettida no alto, que a 
não via o meu Açor, porque se a vira não voara atraz 
da sua perdiz, nem eu tão pouco a enxerguei. 

E largando o Açor ouvi no ceu, por cima de mim, 
um ruido como de foguete, que me constrangeu le- 
vantar os olhos. 

Vi um vulto a meio ar (não sabendo o que fosse) 
affirmo que tive pavor; mas logo conheci ser aguia 
que vinha cahindo ao meu passaro, o qual de medo 
deixou a perdiz e se metteu em uma arvore, sendo 
de mim com muita pressa soccorrido, correndo a ca- 


ArTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA 97 
ELA AS ASS AA LLSSSSS LSSS PRS SSL LIS Sa 


vallo, gritando, levantando a voz, dando com o cha- 
peu acenos. Muitas vezes acontece andarem ellas todo 
um dia á vista dos caçadores para cahirem ás aves 
“que elles levantam, e d'este modo se cevam cahindo 
“do alto. 

Mas ás vezes acontece trocarem-se as sortes. 

A uma aconteceu, andando á caça de coelho D. Luiz 
de Moura, e D. Rolim e outros companheiros em uma 
queimada em Ribatejo, dos forões que levavam se sahio 
fóra da barca um sem se sentir, e ficando longe dos 
amos pela terra e queimada foi visto d'uma aguia, a 
qual desceu a elle e o tomou com as mãos; e como 
as unhas e mãos das aguias sejam muito grandes e o 
bicho muito delgado, ficou na chave da mão livre das 
unhas agudas da aguia, a/qual querendo-se cevar n'elle 
abaixando a cabeça o forão apegou com a bocca e 
dentes das guellas e garganta da ave e a matou á 
vista dos caçadores, que até então não tinham achado 
o forão menos, o qual levaram livre e a aguia morta. 
Tudo se póde cuidar d'este bicho pelo animo atrevido 
que tem, e boa sorte que este teve em caso tão arris- 
cado. 

Não se sabe que na nossa Europa houvesse pessoa 
que tivesse aguia de caça, porque é ave muito grande 
e não haverá braço que sustente o peso, e seria pe- 
riso ao que com ella tratasse de se aleijar, que lhe 
atravessaria com as unhas os braços, ferindo o caçador. 

À aguia femea é maior que o macho, como o são 
todas as aves de rapina, Falcões, Açores, Gaviões e 
Esmerilhões, sendo pelo contrario das outras aves, 
que o não são. O nosso perú e gallos e perdigão são 
maiores os machos que as femeas; e assim o são todas 
as mais aves. Sómente as que se mantem de caçar ou- 
tras aves, para n'ellas se cevarem, as femeas são maio- 
res que os machos. 

FOL. 4 VOL, 1 


W 


98 BrsLrorTHECA DE CLAssicOos PoRTUGUEZES | 


errar 


À razão e que a natureza não fez cousa imperfeita, 
porque as femeas dos animaes criam seus filhos com 
o leite de suas têtas; vêr a ovelha, que sómente se | 
mantem d'hervas do campo, com o tenro cordeiro logo | 
que nasce, coberto d'aquella pelle carnosa, a mãe com 
a bocca, que nunca outra cousa gostou se não herva- | 
sinha do campo, lamber e engulir aquella pelle carnosa | 
cheia de sangue, a limpar, lambendo o filho, e com a 
bocca e focinho encaminhando onde acha as têtas 
cheias de leite. Os machos nada d'isso curam. 

Assim proveu a natureza as aves de rapina, sabendo 
que as mães são as que mais amam os filhos, pelo que | 
fez as femeas mais anímosas e maiores de corpo, e | 
mais voadoras e de maiores forças que os machos, | 
para que com as azas alcançassem as outras aves e 
com as forças as derribassem, e com as unhas e gar- 
ras e bico as poderem facilmente matar. E sendo as 
aves grandes tivessem forças para as poderem levar | 
ao ninho d'onde estão os filhos que ha-de manter e | 
e criar, pelo que os machos nas aves de rapina são | 
mui pequenos e fracos, d'onde veiu aquelle adagio an- | 
tigo dos caçadores : 

«Ave treçuela ni mata ni buela » 

Esta é a causa pela qual eu julgo das aves de ra-| 
pina serem as femeas maiores e melhores, como são | 
Falcões, Açores, Gaviões e Esmerilhões. 

E tanta vantagem faz á aguia femea a aguia treçó, | 
como o nosso perá macho á femea, e, tanta nos nossos . 
Falcões e Açores, os primas aos treçós, quanto os É 
nossos gallos ás gallinhas ou mais, e tanta os Ga-| 
viões e Esmerilhões primas aos treçós quanta os per- | 
digões machos ás femeas. 

Tinham as aves de rapina necessidade d'isto ser À 
assim, porque os pobres passaros hão-de sustentar os | 
filhos de comida até elles serem compridos e escana-, 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 99 


dos, e estarem tão enxutos do sangue nas pennas como 
os mesmos paes; porque ainda que cobertos de pen- 
nas sejam, não tem levidão para alcançar voando traz 
as outras aves desenvoltamente ; pelo que os paes tem 
com elles mais trabalho que as outras aves, que até que 
são grandes os sustentam e mantem mettendo-lhe a 
caça nas mãos, e elles a denennam e comem, o que 
eu vi na villa de Ourique, serra de Ronda. 

Criava uma muda de Falcões em uma rocha, onde 
não ousava ninguem subir, por ser de pedra talhada 
e altissima. 

Ali, á vista de todos os da villa, vinham os paes, 
já depois d'elles andarem voando fóra do ninho, e 
lhe traziam o pombo trgcaz, e rôla, e a perdiz, eo lapa- 
ro, e lh'o largavam no ar, e elles o vinham tomar aos 
paes. E assim procedem sempre até os criarem de 
todo, muito differentemente de como se hão as mais 
aves; porque a perdiz e coderniz tanto que sahem os 
filhos da casca do ovo vão buscar seu mantimento, 
e o mesmo faz o perú e todas as aves que se mantem 
de sementes, que aquelles que se mantem de cibalho 
estão no ninho até grandes. 


CAPITULO XIX 


Como as aguias criam seus filhos 


s escriptores que fallam d'aquellas cousas das 
quaes não tem noticia certa, nem sciencia 
verdadeira, querendo por informações mal 

dadas affirmar opiniões sem fundamento, cahem mui- 
tas vezes em erros notaveis, querendo que as aguias 
deitem seus filhos dos ninhos em terra, por não terem 


100 BreLiotrHECA DE CLassicos PORTUGUEZES 


os olhos seguros no sol e seus raios, como se seus 
filhos não fossem. ) 

Não vejo razão que satisfaça ao entendimento, a 
que se não possa cuidar o contrario. 

Nasceu esta opinião d'algumas veses se acharem 
os filhos d'estas cahidos aos pés das arvores d'onde 
ellas tem os ninhos. 

As Aguias e os Açores e Gaviões criam em arvo- 
res e fabricam seus ninhos com pausinhos liando uns 
com outros, e assim tecidos e liados sem outra cousa 
criam, e como são já grandesinhos, os filhos movem-se 
pelo ninho, e com o movimento aquelle liame se des- 
tece, e não está tão firme como os paes a principio ' 
o fizeram, e querendo elles fazer suas tolheduras se 
achegam ás bordas do ninho, e como está desliado 
cahem elles e alguns pausinhos do ninho em terra, 
como muitas vezes se viu nos Gaviões e Açores. D'a- 
qui nasceu aos escriptores dizerem que as aguias lan- 
çavam os filhos do ninho abaixo por não terem os 
olhos seguros sem pestanejarem postos no sol. 

Diga-me alguem como o sabe, ou quem o vio, que 
o que eu das aves sei amarem os filhos tanto em pe- 
quenos, que os serranos quando sobem a tirar dos 
ninhos os Gaviões e Açores novos, os paes afferram 
dos homens de tal modo que muitas vezes se deixam 
tomar dos homens que lhe ievam os filhos. 

A mim me contou um d'estes, que tirando os filhos 
a um ÀAçor, por não se absentar e tornar a criar 
n'aquella querença, em logar dos filhos que lhe tirou 
poz dois corvos novos, e os Açores os criaram como 
filhos, e me affirmaram que se n'aquelle tempo lhe 
pozessem um sapo o criariam. 

Tulio, nas Familiares, diz fallando das aves: Zita 
suos pulos ad tempus amant, ut nihil suprapossit 
esse. 


A 
4 
pe 
K 


k ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA IOI 


De tal maneira, diz elle, amam as aves seus filhos 
sendo pequenos, que não póde mais ser. 
| Muitos exemplos podera trazer para verificação das 
aves amarem seus filhos n'aquelle tempo de pequenos 
em summo gráo de amor, o que se vê bem nas nos- 
sas gallinhas, as quaes criam como filhos as adens, as 
quaes não fazem caso d'ellas e se mettem nas aguas. 

As gallinhas andam de longo d'ellas pela terra, os 
chamam, das quaes, como digo, elles fazem pouco 
caso, porque a natureza a cada ave deu sua voz, os 
pintainhos sahidos d'aquelle dia do ovo, se a mãe vê 
o melhano, e lhe dá aquellas vozes medrosas, elles se 
escondem; mas como ellas estejam sobre os ovos, d'estes 
os amam e tem por filhos, posto que á voz não accu- 
dam, e os agazalha sahidos da agua, como filhos na- 
turaes, não no sendo. 

O mesmo farão nas aguias, das quaes os escriptores 
dizem muitas grandezas. 

Joannes Textor, em sua Officina, diz serem seis ge- 
neros, e que algumas matam os cervos apegando-lhe 
nos cornos, dando com as azas em terra, levantando- 
se pó, e aquelle pó os cega, e elles cahidos os ven- 
cem e matam; e que brigam com os dragos. 

Jorge Agricola, no livro onzeno de Remetalica, diz 
que ha duas castas de dragos, uns voadores, e que 
estes pelejam com as aguias, e tem azas como mor- 
cegos e tres ordens de dentes, e que são de seis pés 
de comprido; e diz mais, que de Libia, com uma 
grande tormenta de vento africano se vio um d'estes 
em Egypto. 

Dos que habitam na terra escrevem muitos aucto- 
res serem de doze covados, pretos na côr, a barriga 
tirante a verde, tem cabellos nas sobrancelhas e bar- 
bas, e não são mordazes. Os antigos os punham em 
guarda de seus thesouros e oragos. 


Ioz BrpLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES , 


Estes em Africa e na India dizem d'elles que bri- | 


gam com os elephantes. 
Alguns referem que as aguias vivem cem annos e 


que renovam a edade subindo á região do fogo, e. 
d'ella, do alto se deixam cahir ao mar, mergulhando | 


n'elle, e que d'este modo renovam os annos. 


O que eu sei renovarem ellas as pennas como todas | 


as mais aves. 


Muitas cousas dizem os escriptores que não satisfa- | 
zem, e não me maravilho que não ha cousa mais longe | 
das letras que as aves; por que os letrados, em mo- | 
ços, tem os olhos nas escolas e nos livros, e não po- | 
dem alcançar a natureza de tanta variedade de aves. | 

Tornando as aguias d'onde criam de verão se dei- | 
xam estar o inverno, pelo contrario dos Falcões que | 


são vistos em todas as partes do mundo. 
CAPITULO XX 


Dos corvos aves de rapina; é digno de ser lido 


E todas as aves que a natureza criou são estas É) 
as mais golosas e menos caridosas, e tanto, que | 
vendo ellas alguma ovelha apartada do seu re- | 

banho por doente, e que anda já desamparada do pas- | 
tor, saltam n'ella e lhe querem tirar os olhos; e se ella À 
se defende, apegam d'ella na lã, inclinando-se á terra, É 


e dão com ella em algum rego ou barranco, e viva lhe 


tiram os olhos, e pelo sêsso as tripas, estando a misera | 
dando de pés e de mãos (o que eu vi algumas vezes).! 
D'estas mal acondicionadas aves tomaram os ro- É 


manos alguns agouros (que deixo para os que lhe fo-! 


Hs q 


à fe Sa 


“rem affeiçoados) todavia direi aquella historia de 
* Enéas Silvio, que foi Papa Pio segundo, o qual em 
* o livro que fez da historia de Azia, diz: que em Aga- 
! pia, Belgica, perto da cidade de Liége, tinha um Fal- 
| Cão seu ninho em uma rocha, e estando deitado sobre 
* os ovos, veio ali grande multidão de corvos, e deram 
“sobre o Falcão, e o deitaram fóra do ninho, e lhe co- 
* meram os ovos; alguns pastores que por ali estavam 
viram este successo, estiveram com advertencia a vêr 
“em que parava aquillo; ao outro dia viram n'aquelle 
* mesmo logar grandissimo numero de Falcões e de 
corvos em tanta quantidade, que parecia não haver 
* em todo mundo tantos quantos ali se ajuntaram. 
Ali á maneira de desafio, davam mostras uns a 
outros, os Falcões de quererem tomar satisfação da 
injuria que se lhe fizera. 
Os corvos se puzeram da parte do norte, os Fal- 
* cões da parte do sul, a modo de esquadrão formado, 
* como se foram capazes de entendimento. 
* Começam sua batalha muito travada e furiosa, e tão 
| cruel que.punha espanto; algumas vezes pervaleciam 
“os corvos, outras os Falcões; cahem a terra as pennas 
e sangue d'elles a modo de chuva, e de corpos mor- 
"tos; finalmente os nossos Falcões pervaleceram e fi- 
 caram vencedores; e deram n'elles tal carga com as 
5 “unhas e bicos, que poucos dos corvos escaparam vi- 
vos. 
K À causa d'estes perseguirem os Falcões e Açores, 
Pá e todas as mais aves de caça levando piós, é por cui- 
* darem que as piós são tripas, e por lh'as tomarem para 
“si Os seguem, o que não fazem aos bravos. D'elles di- 
X zem que vendo os filhos no ninho, brancos, os desam- 
| param tanto tempo até serem pretos, a qual opinião 
| tem muitos auctores na explicação d aquellas palavras 
R do Psalmo 146: E pillis corvorum inuscantibu sem. 
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-« 


bs 
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as 
ep ) 


104 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Tambem se pode dizer d'estas aves serem muito 
comedoras, e os filhos no ninho grasnarem e vozea- 
rem, o que fazem, porque como as aves tem seus fi- 
lhos suados da humidade do ovo, e livres de lhe mor- 
rerem com o sol ou frio, lhe vão buscar de comer, e 
em chegando aos filhos lhe mettem o bocado na boc- 
ca, e logo com muito cuidado lhe vão buscar mais; 
e tanta mais pressa dão, quanta mais fome sentem que 
os filhos tem. Pelo que os paes, emquanto os filhos 
estão no ninho, são pouco vistos, e os filhos pela gras- 
nada que fazem muito ouvidos. 


“PENESENVE NENE 
EDS 
PLS RO RS EINS x 


PARTE TERCEIRA 


Dos Falções Nebris, dos Bafaris, Tagarotes, dos Ge- 
rifaltes e Sacres e Bornis, e de todos os mais em 
geral 


CAPITULO I 


Dos Falções Nebris 


A primeira e segunda parte tratei da criação e 
caça dos Gaviões e Açores, n'esta se dirá da 
de Falcão, debaixo do qual nome se contem 

sete generos d'elles. 

Nebris, outros Bafaris, Tagarotes, alguns Gerifaltes, 
outros Bornis e tambem Alfaneques; outros Sacres e 
Aletos; os quaes são tão differentes na grandesa, ta- 
lhe e plumagem, como dissonantes nos nomes, e todos 
servem n'aquella real caça d'altaneria, que os reis e 
grandes do mundo tanto estimam; uns tomando as 


pos 


e 


106 BreLiorHECA DE Crassicos PoRTUGUEZES 


garças mettidas nas nuvens, outros os grous, andando 
ás voltas com elles n'esse ar, d'elles afferrando os cis- 
nes e cegonhas pretas, outros nas abetardas e patas 
bravas, e todos caçando conforme sua inclinação e in- 
dustria do caçador, não escapando a ave do ceu que 
elles não prendam, e presas as tragam a terra, e as 
mettam debaixo dos cavallos dos caçadores. De cada 
especie direi em capitulo separado, começando pelos 
Nebris, por serem de todos os mais nobres, os quaes 
riam em Allemanha e no reino de Noruega e a Sue- 
cia; de lá os trazem os mercadores a Flandres e a In- 
glaterra, e a França, e os levam á Italia aos senho- 
res que 1h? os encommendam. 

Alguns vem a este reino; d'elles são ninhegos, ou- 
tros tomados perto d'onde dancR a e são duros de 
fazer como fica dito dos Gaviões, fallando da differença 
que ha entre os sáfaros e ninhegos; tambem criam em 
o ducado da Bramante, e estado de Milão. Em Hes- 
panha não sabemos parte onde os Nebris criem. 

Outros nebris vem de Indias de Castella nas frotas 
que vem a Hespanha, e tem os mesmos talhes e plu- 
magens dos de Noruega ; com estes vindos de ultra- 
mar convem ao caçador prudente se haja com cau- 
tella, porque podem vir doentes por não serem tratados 
como se estiveram em terra, e se haverá como dire- 
mos adiante. 

Outros Falcões nebris se tomam n'estas nossas co- 
marcas sáfaros; estes tenho por excellentes Falcões, e 
são mais estimados por serem tomados longe d'onde 
nasceram, e se vem cevando nas aves que de Allema- 
nha passam a invernar a estas partes, os quaes se es- 
palham por muitos reinos. Nºeste são vistos no campo 
de Santarem e no de Mondego, e no campo d'Evora 
e Beja. 

Em Castella, nas Rosianas de Sevilha e em terra de 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 107 


o 


Olmedo, e em todas aquellas partes se deixam inver- 
nar d'onde acham grandes campinas, e aves de que se 
possam cevar; porque como são velocissimas não se 
lhe podem esconder, nem escapar voando. 

Tambem atravessam a França, pelo que os france- 
zes lhe chamam peregrinos, e se tomam cá com arma- 
dilhas. Os caçadores o maior trabalho que tem com 
elles é fazel-os domesticos e roleiros e mansos, que o 
matar já elles o sabem. 

De todos os que n'estas partes se tomam são mui 
estimados os do campo de Santarem e os de Mondego, 
e os de terra de Sevilha, e de todas aquellas partes 
d'onde ha grandes lagos e marinhas, nos quaes ha 
differentes aves, e se cevam em garçotas e meãs, si- 
sões, zambralhos, e ganços reaes; e a differença das 
aves os faz mais faceis de fazer e caçar tudo, o que 
não tem os tomados pelo sertão dentro que se cevam 
de pombas e gangas, e poucas vezes em aves gran- 
des, e algumas, constrangidos da fome, em zorzais; es- 
tes são mais trabalhosos de fazer por serem costuma- 

“dos a aves menores, e são buliçosos e algumas vezes 
deixam as ralés a que os lançam, e cevam a outras. 
Convem se carreguem de cascaveis ao principio até 
que soceguem, e os larguem em companhia de alguns 
»bafaris que com elles se aquiétam, porque os bafaris 
não se desmandam indo a outras aves. Mas são os 
nebris tão nobres, que havendo caçador pratico tudo 
lhe fará fazer bem feito. 

São os nebris treçós excellentes altaneiros e se põem 
“mui alto, e o borni terçó lhe faz companhia, subindo 

“com elle, e ambos aquietam; porque o borni não sabe 

Vir á caça, e fazem mui formosa voaria. 

Pero Lopes diz vio um terçó muito bom garceiro a 
“Monsieur de Ribeira Targe, e era d'el-rei de França. 

Havendo de escolher o caçador, ainda que poucas 


108 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


vezes acontece haver tantos tomados pelos redeiros 
que se deixem uns por outros, convem saber a eleição 
dos melhores, e as plumagens, e feições e talhes de ca- 
da um. 

Os Falcões nebris tem o branco muito alvo no 
peito e o demais preto; a estes chamam os francezes 
Falcões de damas, e são mui formosos e dôces de fa- 
zer, e de muito bom semblante, e tem a plumagem 
mais limpa que todos os mais, e os cabos um pouco 
mais compridos, e as côxas por dentro alvas; sahem 
excellentes garceiros; os caçadores castelhanos lhes 
chamam donzeis. 

Outros tem a plumagem ruiva, e a pinta grossa, 
são de grandes corpos e bons garceiros. 

Outros tem a plumagem parda e a cabeça pintada, 
e a pinta orlada de amarello; e não são grandes, mas 
de bom talhe e bem empennados. 

A estes chamam os castelhanos, coroados. 

E se tal o achar o caçador, trabalhe com elle, e não 
lhe pese do tempo que com elle gastar. 

Outros ha que tem a plumagem miuda e delgada 
como amarella; estes chamam zorzaleiros, e pela 
maior parte são miudos e boliçosos, e vão muito ás 
ralés e ás pombas; a estes carregal-os de cascaveis, 
como já disse, e trabalhe pelos não ennojar, que se es- 
candalisam com pouco erro, e sahem bons Falcões; e 
affirmo que tal é este genero, que havendo caçador e 
sendo tomado em boa comarca, que d'elles não vi ne- 
nhum aborrecido. 

Agora digamos suas feições e posturas : seja de bom 
corpo, bem feito, no peito muita carne, descarregado 
das costas, boas côxas, sanco grosso e curto, e as 
mãos grandes, os dedos compridos e delgados, e as 
ventas abertas, e que tenha algumas pennas por cima 
dos hombros de cada parte, que poucos Falcões as tem 


DEE 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 109 


que não sejam bem empennados; e o cabo de muita 
penna e vultoso, e a penna dura, e quanto mais bravo 
ao principio melhor será. 


CAPITULO II 


Do Falcão Bafari Tagarote 


s bafaris criam na ilha de Sardenha, d'onde 
tomaram o nome de sardos. Outros criam na 
Malhorca, outros em Roumania; estes da Rou- 

mania são granados Falcões e muito bons grueiros, e 
mui raivosos, de grande fome, e cainhos e apega- 
dores. 

Os Falcões tagarotes são contados e tidos por ba- 
faris; criam na ilha de Cabo Verde, e em Africa; os 
caçadores os estimam por bafaris por serem todos de 
uma condição; poucos d'estes são altaneiros, porque 
com a grande fome que mostram não se tem no alto, 
e em vendo as adens aguadas logo se pousam. 

Toda a sua ligeireza é em baixo, ainda que alguns 


. houve altanciros, 


Pero Lopes diz vêr um Falcão Malhorchim, a que 
chamavam donzella, excellente garceiro e bello alta- 
neiro, melhor que quantos el-rei D. Fernando tinha, 
o qual n'aquelle tempo tinha trezentos Falcões, cem 
garceiros e cem grutiros, e os mais altaneiros; e en- 
tre estes havia um bafari que derribava o grou e a 
cegonha preta, e a pata brava e o cysne, e o tinha até 
que chegava o caçador. 

Os tagarotes fazem o mesmo. 

Pero Lopes diz d'um tagarote que chamavam bota 
fogo, tambem d'el-rei D. Fernando, e não mui grande, 


IIO BrBLIOTHECA DE CLAssiCOs PORTUGUEZES 


e sem ajuda de outro matava o grou, e o tinha até 
ser soccorrido do caçador. 

Estes bafaris são mui bons perdigueiros, porque sua 
ligeireza é em o baixo com o peito por terra. Fazem 
muito formosa voaria em companhia dos nebris, por 
que os aquietam que não vão ás ralés; as plumagens 
d'estes, assim dos sardos, como dos de Malhorca e da 
Roumania, quasi todos tem uma condição, os da Rou- 
mania, são raivosos e golosos, maiores, pelas costas, de 
todos e mais ardidos. Os tagarotes são na côr e talho 
similhantes aos bafaris, mas mais pequenos na pluma- 
gem, como amarellos; a estes todos chamam em França 
— Falcões gentis; — d'onde dizem gentil de Sardenha, 
gentil Falcão da Roumania, e gentil tagarote. 

Em Aragão chamam a todos os bafaris monteiros. 

Havendo de escoiher seja descarregado das costas, 
grandes sancos, boas côxas, mãos compridas, e os 
dedos longos e delgados, muita carne no peito. 


CAPITULEONTI 


Dos Gerifaltes 


s gerifaltes criam em Noruega e Suecia, e 
n'aquellas partes onde dissémos criarem os 
nebris, d'onde os levam a todas as partes em 

companhia dos nebris. 

São estes mui grandes, maiores que todos os mais; 
os que d'elles sahem bons são mui presados dos prin- 
cipes; mas tem muito podres, porque são mui duros 
de fazer e covardes, e pela maior parte curtos de vista e 
gotosos, e sofrem peior o caparão que todos os mais 
Falcões, principalmente os treçós; convem ao caça- 


ArTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA I1I 


“dor sabel-os levar a tento, que se queixam e recebem 

* grande escandalo errando o modo, dando-lhe com o 
caparão no rosto, e se assombram; e como são Fal- 
cões grandes e pesados, e tem as mãos grossas e car- 
nosas, adoecem de gota n'ellas, e de cravos; e que- 
rem-se trazidos na mão, e o caçador de bom tento. 
Os que d'elles são bons não lhe fazem nenhuns van- 
tasem; matam as garças em o alto, e vão a ellas 
com menos torneos que os nebris; e são no ar bem 
graciosos, posto que ao sahir da mão se mostrem pe- 
zados por sua grandeza, mas depois de tomar no ar 
seu alento são levissimos. 

Eu tive um maravilhoso garceiro e milhaneiro. 

O Infante D. Luiz, filho d'El-Rei D. Manuel, te- 
ve um gerifalte tão alvo como uma pomba, e ten- 
do-o por maravilha o não quiz aventurar á caça, o 
qual foi tomado em uma náu na altura do Brazil, 
atravessando o mar; d'onde o principe e outros ca- 
çadores imaginaram que n'aquellas partes devia ha- 
ver similhantes Falcões. 

As plumagens d'estes são o branco mui alvo, e o 
mais preto em pouca quantidade; estes são estrema- 
dos, principalmente os de Noruega, por sua formosu- 
ra parecem mui bem assim nas alcandoras, como nas 
mãos dos caçadores. 

Ha gerifaltes a que chamam letrados, porque o 
branco tem mui alvo, eo preto miudo á maneira d'um 
livro escripto. 

Outros ha a que chamam grizes, por ser o preto 
posto nas pennas brancas como grãos miudos, e são 
levissimos no voar, bellos em o parecer. 

Outros ha a que chamam rocazes, por serem de 
plumagem negra; são animosos. 

D'estes diz Pero Lopes que viu um a Monsieur de 
La Ribeira, camareiro d'El-Rei de França, que era 


LIZ BreLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


tão negro, que quasi se não devisava o branco, e na 
bondade o melhor do mundo. 

Ao principio se deve começar com estes pelas le- 
bres, porque perdem as cocegas das mãos, que elles 
de sua natureza são coceguentos, e voar com elles ás 
corujas, porque aprofiando com ellas tomam alento, e 
depois o treinem em a garça; e sendo já treinado 
n'ella algumas vezes lhe mostrarão a brava, largan- 
do-o em companhia d'algum mestre que pegue n'ella 
des que estiver rendida, e coma, ainda que alguns 
d'elles ha de tão bom esforço e animosos que matam 
a garça sem treina, por sua vontade. 

Tem necessidade de andarem sempre na mão do 
caçador, porque são mui pesados, e debantendo-se 
na alcandora correm perigo, e querem-se affagados, e 
que os amimem quando lhe tirarem o caparão, dando- 
lhe a roer em alguma cousa que tomem gosto. 

Querendo escolher, o primeiro que deve de fazer o 
caçador é vêr se tem cravos em as mãos, e se as tem 
inchadas, e se é curto de vista, o que fará mostran- 
do-lhe o roedeiro, e se se inclina a elle, e o buscará 
pelas feições, que seja descarregado das costas, e que 
tenha bom rosto, e o sobre-bico grosso, e boas côxas, 
bons sancos, ventas bem abertas, boas mãos, os de- 
dos curtos e grossos, ao contrario do nebri, e que não 
tenha grande cabeça. 

Os treçós d'estes são belissimos garceiros, e mui 
leves; queixosos porém, e mui delicados; tem neces- 
sidade de caçador que saiba e sofirido. 


DR VE A E O O a o 


Ea 
TED E Po do 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA II3 


CXPITULO- IV 


Do Falcão Sacre 


s sacres criam onde dissemos criarem os nebris 
e gerifaltes. 
Os mercadores os trazem a estas partes co- 
mo os demais. 

Outros criam em Roumania, e são mui bons; os 
sacres tem outras plumagens differentes d'elles, são 
ruivos, outros tiram a brancos; e por mais mudas que 
tenham não mudam a côr das pennas como fazem ou- 
tros Falcões, e em nenhuma cousa mostram serem 
mudados, mais que parecerem as pennas alguma cousa 
mais claras que d'antes eram; tem umas orladuras ao 
redor das pennas que quasi se não enxergam. 

Tambem se tomam bravos; a estes chamam os ca- 
çadores — sáfaros — e são tidos em melhor conta, 
porque são mais doces de fazer, que os pôllos d'estes 
são esquecidiços e duros de fazer, e são bons gar- 
ceiros, grueiros e milhaneiros; tambem matam as 
perdizes, as lebres e alcaravões, e vôam melhor com 
o vento e tem-se mais a elle que os outros Falcões. 

São estremados terçós de milhano; os treçós d'es- 
tes são excellentes. 

Eu tive um sacre terçó do Prior do Crato, neto 
d'el-rei D. Manuel, que matava as garças, e muito bom 
milhaneiro; era muito pequeno do corpo, e por ser 
este lhe chamavam — bastardo; — era de plumagem 
quasi branco, no voar mui levissimo; nunca O vi cahir 
ao milhano, que furtando-lhe o corpo não tornasse a 
subir por cima d'elle mais de duas altas torres. 


II4 BrgLiOTHECA DE CLASsICOs PORTUGUEZES 


Vez aconteceu ficar elle só na briga, e trazel-o preso 
á terra, e estar o milhano aflerrado d'elle, e elle quei- 
xando-se do mal que lhe fazia, e assim esteve até ser 
por mim soccorrido. 

Querem os sacres que andem sempre cevados que 
depressa se reboram e esquecem, e são tão esqueci- 
diços que se uma só noite ficam no campo, e ao ou- 
tro dia os tope o senhor o não conhecem, nem o 
aguardam, por mais mimos que lhe façam. 

“Em Barmante voam com elles na ribeira; os melho- 
res para isso são os treçós por serem mais leves; são | 
Falcões mui grandes de corpo. Quando escolher, o ca- 

çador busque- lhe muita carne, tenha boas côxas, e 
A sancos, as mãos pequenas, os dedos curtos e 
grossos, descarregados das costas, e o cabo mais curto 
que fôr possivel; as azas compridas, e as pontas direi- | 
tas, ventas bem abertas; querem-se trazidos na mão, 
porque na vara embravecem, que são Falcões sober- | 
bos, e muito duros, e querem caçador de bom tento, | 
que poucos caçadores vi que os bem entendessem, só 
Pedro de Vezilha, caçador do Infante D. Luiz, entre | 
oitenta que tinha este senhor, se avantajava a todos | 
n'este genero de Falcões, e caçava com elles, muito 
baixos de carnes, e trazia sempre n'algibeira seixinhos 
redondos, do tamanho de plumadas, que ás vezes lhes 
dava em logar d'ellas. 

Costumava a dizer, «son vilhanos, no hacen cousa | 
por vertud», mas com lhe darem lavado e sua plumada | 
seca á noite, e matinados com boa madrugada, basta. 


Arre DA CAÇA DE ALTANERIA 


CAPITULO V 
Do Falcão Borni 


s bornis criam em muitas partes em Allemanha, 
F d'onde os mais, e no ducado de Saboia e no 
reino de Galliza, em Asturias de Santilhana 

Alguns são excellentes altaneiros, tambem matam. 
as garças; os proençaes se tem por melhores; todos 
caçam as perdizes, e alcaravões e as garçotas; os tre- 
çós são mui presados em França pela companhia dos 
nebris, porque não seguem as ralés e assocegam as 
adens, e quando os caçadores põem o nebri na ribeira 
a acha limpa. 

- Estes ao principio são graves de fazer altaneiros 
porque se pousam em terra, porém com os nebris so- 
bem. 

Querem andar em boa carne; ao principio vôe com 
elles o caçador as pegas, porque assim acostuma- 
dos tomam alento, e se fazem mestres, e depois o lar- 
guem em companhia do nebri na ribeira, e inda que se 
“ponha em terra não se enoje o caçador; e não se en- 
fade de o deitar em companhia dos nebris, que elle os 
Seguirá e virá a ser altaneiro; convem dar-lhe sempre 
a roer na derradeira ave que matar, porque se fará 
'querençoso da .altaneria, que se quer governado dif- 
ferente do nebri, e não sabe remontar sem lhe darem 
a roer, e quando o caçador o pozer na ribeira levan- 
te- lhe a ralé estando perto, que não póde de longe al- 
cançar tão depressa como o nebri, e dois fazem boa 
companhia. 
| Pero Lopes diz vêr dois treçós em França, por que 
davam cem francos d'ouro. 


116 ' BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


a 


São mui apraziveis. 
Eu tive um bellissimo perdigueiro, e matava com | 
elle uma duzia de perdizes, e as pousava tão bem | 
como um Açor. b 

Querem-se trazidos na mão. 

Em suas feições buscal-os-ha o caçador descarre- 
gados das costas, largos de hombros, e tenha boa | 
carne, bons sancos, boas côxas, mãos grandes, os de- | 
dos curtos e grossos, a cabeça chã, os olhos encova- 
dos, bom bico, o cabo vultoso e curto e boas ventas; 
e posto que digam que os bornis com qualquer vianda 
passam, se o caçador lh'a der boa o sentirá em o voar. 

Os safáros valem mais que os ninhegos. 


CAPITULO:VI 


Dos Alfaneques 


S alfaneques criam em Africa, no reino de Tre- 
mecem; tem as cabeças brancas, d'elles são | 

ruivos, outros pretos na plumagem, e tem as 

côxas longas. 
Ha tambem Falcões entre bornis e alfaneques, que | 
são quasi do tamanho dos tagarotes; os mouros são q 
grandes caçadores d'estes, principalmente os alarves, | 
que se presam tanto d'isso, que na guerra trazem a 
lança na mão direita, e a adarga na esquerda, e o 
Falcão no hombro; e se presam d'isso ainda que | 
andem sujos das suas tolheduras. 
Os alfaneques são Falcões apraziveis; matam bem | 
(e formoso) a lebre, principalmente quando são dois, | 
porque não pegam d'ella; vôam bem ás perdizes, mas | 
pouco as assentam. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA II7 


Matam os doraes, as graçotas e corvos, e se os 
acostumam a altaneria fazem-no muito bem. 

Querem-se delgados e bem roleiros, porque em lhe 
dando um pouco de sol se perdem, que são Falcões 
muito quentes; são melhores na terra fria que na 
quente ; são sujeitos a cravos em as mãos. 

Pelas feições se buscarão como os bornis. 


CAPITULO VII 


Dos Aletos 


s aletos criam em Indias de Castella e no Bra- 
zil, e vem nas frotas a Sevilha. 
São pequenos na plumagem, differem de to- 
dos os demais. 

Parte do peito, côxas e oveiro tem vestidos de pen- 
nas ruivas, e o papo sem nenhuma pinta; o ruivo tem 
côr de milhano, a cabeça cercada quasi toda d'uma 
lista de pennas da mesma côr, debaixo das azas, em 
alguma parte das titelas, tem pennas pardas com 
pintas atravessadas, como que imitam as dos outros 
Falcões; tem as azas compridas, o cabo para o corpo 
bem formado, e as mãos delgadas, os dedos compri- 
dos; é gracioso á vista; não os vi caçar, tem geito de 
grandissimos voadores e que matarão tudo. 

Com elles caçam as perdizes, e são tão porfiados 
em as matar, que nas balças eutram com ellas. 

O licenciado Filippe Butaca Henriques, natural da 
cidade de Evora, me affirmou que os vira no Porto do 
Calvo e Rio das Pedras, na capitania de Pernambuco, 
onde elle veio dar á costa com uma embarcação vindo 
de Angola o anno de 605. 


I18 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Esteve ali trinta dias, e n'este tempo por toda 
aquella costa viu estes passaros, que eram maiores 
que Gaviões primas, e menores que Falcões; e notou 
d'elles serem grandissimos voadores, tanto que a vista 
os não podia alcançar para notar d'elles tudo: muitas 
vezes os viu tomar papagaios e outras aves, e no ca- 
çar serem mui porfiados, e perseguil-as mostrando 
muito animo, e se mettiam com os passaros por den- 
tro das arvores, e não descançavam até os não leva- 
rem nas unhas; e que desejou de os trazer a este rei- 
no, por entender que os principes e senhores os te- 
riam em estima. Quem os quizer trazer de lá pode-os 
criar em pequenos como os Gaviões, e pelo mar os tra- 
gam depois de criados como diz no capitulo que trata 
de poderem vir os Açores de Allemanha, porque 
quem os souber trazer interessará n'isso muito di- 
nheiro. 

Os aletos além de matarem perdizes, matam alca- 
ravões, pegas, e são estimados de todos os caçadores 
geralmente. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA II9 


Regra geral de advertencias e precei- 
tos que mostram a caça do Falcão ne- 
bri, pelos quaes pode o caçador ensi- 
nar todos os mais generos de Falcões. 


OR vezes se disse em como de Noruega vem 

Falcões e Açores, e de outras partes do mar 

em fora, a nossa Hespanha, e como n'este reino 

se tomam nebris sáfaros, e fica dito de cada ge- 

nero de Falcões em capitulos separados, para que o 
curioso soubesse bem a sorte de cada um d'elles. 

Agora se mostrará como se amançam e ensinam a 
caçar. 

E posto que não falle mais que do nebri, sendo 
sete os generos de Falcões. 

E digo que por este sómente ficarão sabendo ca- 
çar com todos os mais; não duvidem. 

Porque ainda que sejam differentes, nos generos e 
nas terras d'onde nascem seguem todos um modo de 
viver, os quaes buscam a comida de que se hão-de sus- 
tentar por um mesmo estylo, mantendo-se todos de 
aves vivas que caçam; o mesmo faremos nós fallando 
do nebri sómente, porque elle de todos é o melhor, e 
que no caçar aves differentes é mais atrevido. 

Quando de ultramar vierem Falcões pode-se ima- 
ginar virem carregados de humores, e com receios de 
enfermidades futuras, por não serem curados como é 
necessario, faltando-lhe as bôas viandas e não lhe 


- dando as plumadas a tempo, nem agua e sol, trazi- 


Riga atas Tas >, 


dos sem nunca lhetirarem os caparões, que em terra 


120 BrprioTHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


aa 


os temos nós aonde lhe accudimos com muito cuidado, 
e os não podemos conservar nem vêr livres de enfer- 
midades, pela qual razão se deve ter advertencia na 
eleição. 

Primeiramente lhe contarão se tem todas as pennas 
das azas e cabo, porque podem ter algumas quebradas 
das reaes por dentro do cano, que na muda se não 
possa o Falcão valer do bico para as lançar fóra, por 
estarem quebradas por dentro da carne, ainda que 
acontece poucas vezes, que as quebradas podem-se 
enxerir, que melhor fôra serem sãs, e estas ficam sendo 
grande falta no Falcão; e lhe olharão a bocca se tem 
gosmas, e os olhos se tem névôa n'elles, e se tem as 
mãos inchadas com cravos ou principio d'elles, e se 
tem todas suas unhas, e se vem carregado d'agua. 

Tendo notado as doenças se buscará pelas feições 
e plumagem, e se não achar tudo junto em um só, 
tome o melhor que é ser de bom corpo e pluma- 
gem, que o Falcão pequeno e de pouca carne não 
póde ser de proveito; posto que ao principio dê 
muitas mostras boas, é de pouca dura. 

O dia em que o caçador comprar e tiver escolhido 
lhe dará seu banho, porque se depois de manso lh'o 
der, annojar-se-ha e ficará peior que d'antes, e por 
escusar este perigo se lhe fará logo, e depois se lhe 
porão piós de couro bem adubado e brando, e não se- 
jam apertadas, e avessadas e cascaveis, as quaes se- 
jam conforme ao corpo, e lhe porão caparão de bom 
couro delgado e tezo, e que o não deite fóra da cabe- 
ça, ainda que se sacuda ou coce, e que lhe não faça 
mal aos olhos, e quando lhe tirarem o com que vier 
seja de noite á candeia, e o mesmo se fará sendo aqui 
tomado, quando lhe descozerem os olhos para lhe po- 
rem outro com o qual ha de estar sempre. 

Feito isto ande na mão de dia e de noite, e sejam 


ARTE DA CAÇA DA ÁLTANERIA I21 


vinte dias, pelo menos, ainda que n'isto não ha regra 
certa, que a condição da ave mostra ao caçador o 
que deve fazer; e como estiver manso e comer sem 
“receio e aguardar o caparão, e que lhe ponham a 
mão pela cabeça, isto sem lhe fazerem affagos, nem 
mimos, que para cs amansarem não convem estes, 
se não depois que elles se entregam e mostram ami- 
gos; depois que fôr segurando trará seu roedeiro, no 
qual lhe darão algumas picadas, tirando-lhe o capa- 
rão, e lh'o tornarão a pôr mansamente com a mão 
muito leve, e não no tirem dando-lhe com elle no 
rosto, que se annojarão. 

E se ao principio o sáfaro não quizer comer, não 
se .cance o caçador por isso, porque o faz de bravo, 
e com a carne lhe esfreguem as mãos por cima, que 
elle de bravo accode a morder no que sente, e achan- 
do a carne apegue n'eila e coma; e assim se haverá 
como vir que convem. 


122 ' BreriorHECA DE CLassicos PoRTUGUEZES . 


Advertencia segunda de como se deve 
proceder com o Falcão até ser ro- 
leiro 


OSTRANDO fome e que abre as azas, como. | 
guargantão, lhe darão d'um coração de vacca 

lavado, limpo de gordura e nervos, feito em 
pequenos, desfeito em agua mórna por alguns dias, 

e depois lhe darão de um frangão feito em pedaços, la- 
vado em agua morna, e os ossos das juntas e côxas 
quebrados, com uma pouca de carne com elles para 
plumadas, e tenha o caçador cuidado vendo se a fez. 
Vendo o Falcão logo quando lhe tiram o caparão 
que vae buscar a mão, se tem que comer trarão uma 
perna de gallinha envolta em um panno de linho 
limpo no seio e dê-lhe algumas picadas e a depennar, 
e estando no melhor sabor lhe porão o caparão doce- 
mente, e como tiver fome verdadeira aperte-se com 
elle e veja se quer saltar na mão, atando porém a aves- 
sada na luva, e se na mão saltar lhe dê de comer de 
boa vianda, fazendo-lhe todos os mimos possiveis, e 
como saltar na mão sem receio, e o fizer todas as ve- 
zes que lhe mostrarem o roedeiro, e não olhe a outra 
cousa senão ao que ha-de comer, então encarne o 
rol com dois corpanços de gallinha, de cada parte seu, 
suas cabeças, pescoço, e cabos, e azas, e com outras | 
de outras aves, de sorte que fique o rol bem encarnado | 
de ambas as partes. | 
Tome um cordel delgado, mas rijo, bem feito e 


pn A 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 123 


comprido, e o atarão nas avessadas do Falcão, e sahi- 


rão ao campo, limpo de cardos, matto e pedras, e ali 
darão de comer ao Falcão em cima do rol tantas ve- 
zes até que o conheça ; e o comer que então lhe derem, 


“seja do melhor que houver e tiver, e lhe dará o cora- 


ção da gallinha e seus doces, e uma perna; e em- 
quando estiver comendo lhe darão vozes, cantando, 
dando com a luva em terra, porque vá perdendo o 
medo e saiba que a similhantes acenos e brados lhe 
hão-de dar de comer, e venha quando o chamarem; 
e tudo lhe farão com muito resguardo, que se não as- 
sombre; e á noite lhe darão um pouco de comer em 
agua morna, e suas plumadas. 

Conhecendo o Falcão já bem o role o siga, eb 
não possam desapegar d'elle, façam-no vir voando a 
elle atado todavia com o cordel; e aquelle que o 
tiver na mão o tenha de arte que veja o Falcão bem 
o rol. 

E o tenha peitavento e sol avesso, que se estiver 
os olhos no sol não poderá vêr as voltas que com o 
roi se dão quando o chamam, e se perderá largan- 
do-o sem o vêr; e aquelle que na mão o tiver não o 
arremesse, e aguarde que o Falcão por sua vontade 
saia. 

E a pessoa que o chamar lance-lhe o rol á ilharga, 
e não de rosto, e em logar limpo para que o veja, e 
se pouse logo n'elle; e depois que o Falcão estiver 
no rol vá o caçador mansamente fallando-lhe, e ali 
lhe dê a melhor vianda que tiver, e des que comer 
levante-o com um roedoiro, e deixe-o alimpar o bico ; 
e des que se sacudir lhe porão o caparão, e tral-o-hão 
quieto e socegado; e vindo já bem ao rol o chamarão 
á tira sem cordel, em parte d'onde não haja gente, e 
no rol lhe dêem algumas gallinhas a degolar, de modo 
que elle as não veja, metendo-as por debaixo do rol, 


124 BiBLIOTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES | 


e beba do sangue d'ellas, que para amansar um ne- | 


bri todo este resguardo e trabalho se ha-de ter por 
trinta dias; e depois vôe em a ribeira, ainda que tudo 
será conforme á condição do Falcão e industria do 
caçador, que eu vi meu pae em sete dias treinar um 
Falcão, pouco depois de ser tomado. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 125 


Advertencia terceira, do tempo que se 
ha-de pôr o Falcão n'agua, e da arte 
que se tera até de ser cevado na Fi- 
beira 


STANDO n'este estado, se fizer dia claro e de bom 
sol, provem-lhe a agua em logar apartado, em 
boa gamella limpa, ou alguidar em parte d'onde 

haja sol, e o caçador esteja sempre junto a elle tendo 
prestes o roedoiro, uma luva calçada na mão; não 
no constranja a que entre na agua contra sua von- 
tade, e para que o faça lhe chegarão o roedoiro, e 
vêr se com apegar n'elle quer entrar; e lhe darão 
dos seus doces, que são os sainetes, que são os doces 
com que elles folgam muito. 

E não querendo socegar o levantarão na mão, sem 
escandalo, que se o quizerem forçar a que prove a 
“agua se annojará. 

- “Quando o pozerem n'agua seja com ter comido 

"meia perna de gallinha sómente, porque levando 
muito papo terá dois trabalhos, um em o gastar, ou- 
tro em se enxugar; e sempre lhe costumem provar 
agua de tres em tres dias. 

Depois que fôr banhado se porá um pouco á som- 
bra, porque com o sol rijo torcem as pennas indo 
molhado, e depois de assim estar um pouco, o po- 
nham ao sol, para que se enxugue, e assim procede- 
rão aos poucos. 

E se fôr tarde, e não tiver logar de se enxugar, na 


eos == 


126 BrsrioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES | 


casa d'onde de noite se pozer lhe porão duas candêas | 
accezas para que cure de si e saccuda; e pela manhã. 
lhe darão um membro de gallinha, e sendo geri-l 
falte ou tagarote lhe deem conforme a cada um, e! 
suas plumadas d'algodão ou de fios; tambem se dão. 
de estôpas com algumas picadas de carne com ellas, | 
e guardem sempre não lhe dêem nervos que os não | 
gastam bem, nem gordura, que os enfastia. q 

Os francezes e allemães tem este regimento :) 
quando dão de comer ao Falcão, de ave viva, lhe pas- | 
sam o comer por agua fria, e sendo de ave ou carne | 
fria, a passam por agua morna, e é proveito para ter | 
o Falcão sem orgulho. 

Isto principalmente fazem os caçadores de Bra-' 
mante, que são grandes citreiros, e o tem por officio, e! 
dizem que a vianda muito quente encende o Falcão, . 
e a carne fria causa enfermidades. 

Eu a tenho por boa praticá. 

Sendo caso que o Falcão tenha pequenas ventas, | 
que é n'elles falta principalmente no altaneiro, que | 
tem necessidade de vir abaixo e tornar-se e levantar | 
acima, convem tenha alento e resfolgo soito, lh'as! 
abrirão com um canivete até que deite sangue, e em, 
cima lhe porão algodão sómente, e sarará; e fica o | 
Falcão com boas ventas. e 

Guarde-se de o lavrarem com fogo, que perderá o. 
bico, porque o fogo lavra por alguns dias. 4 

A alcandora em que houver de estar seja grossa, e! 
não porão o nebri junto ao sacre, nem borni, nem na | 
alcandora d'onde elles estiverem, por razão do pio-H 
lho de que elles são mui sujeitos, nem aonde hajam! 
estado gallinhas, nem em casa d'onde haja fumo, nemh 
pó de cal, que ambas estas cousas damnam a vista, el 
debaixo da vara estará sempre a terra varrida, paral 
que se veja se fez a plumada; e não lhe deem de co- 


“mer até que o Falcão a não faça, e se a não fizer, fa- 
“rão como diz adiante o capitulo que d'isso falla. 

Debaixo das mãos do Falcão lhe porão sua luva 
“branda, e de inverno um panno de côr, o que se faz 
para conservar a saude. 

E sendo o Falcão bom altaneiro vôa as pegas em 
parte d'onde não haja arvores, que se desenvolve e 

“se costuma a vir baixo e a levantar-se; e faz boa 
voaria, cria alento e guarda o mestre e cria ligeiresa,. 
“e tendo voado assim um pedaço lhe dêem rol e de 
“comer, e des que voar as pegas algumas vezes bus- 
“quem mestre para o deitarem com elle em companhia 

sobre a agua, e faça seus tornos e se irá com elle á 
» ribeira. 

Larguem primeiro o Falcão mestre que achegue ás 
“adens; então largarão o novo e o deixem com o mes- 
E tre. 

* E sendo as adens levantadas, e o Falcão seguiu o 
“mestre, com a adem que cobrarem deem rol ao novo 

Falcão para que a conheça, e se lhe dê uma perna 

d'ella, e a lingua mastigada e o coração ; e d'esta ar- 

te se governará até que conheça as adens muito bem 
por si só; e procederão alguns dias d'este modo com 

o Falcão em companhia do mestre, e querendo voar e 

houver adens sobre as quaes quizerem largar seja em 

logar limpo d'onde se possa soccorrer por terra en- 

xuta fóra de atoleiros nem genedais, junqueiras ou 
= arvores; nem balças, porque ao golpear o Falcão se- 
= não embarace e aleije, nem haja barrancos que im- 
| pida ao caçador soccorrer-lhe. 

Busque o caçador lagõas e ribeiras em terras lim- 
“pas, e quando largar venha o caçador vento abaixo 
| arredado da ribeira até que o Falcão tome sua altura, 
que se d'outro modo o fizer, e não tomar o vento ás 
adens, levantar-se-hão, e o Falcão tirará após ellas e 


128, BrgLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


poderá perder-se; e fazendo como digo, o Falcão to- 
ma sua altura por cima das adens, as quaes se asse- 
guram, e o Falcão toma vista d'ellas e conhece sob 
o que vôa, e então se levanta em maior altura. 

Não seja o caçador cubiçoso de levantar as adens 
antes de o Falcão tomar a altura que convem, por 
que se costumará mal não se levantando no alto, e 
aguardará voando baixo que lh'as levantem; e a ga- 
lhardia d'esta caça é levantar-se o Falcão bem alto, 
e levantando-lh'as andando baixo, não tem altura para 
alcançar e golpear, e voará pelo adem á tira, e é feio 
caçar e desgostoso, e pode acontecer perder-se o 
Falcão. 

Levantará o caçador as adens peitavento, ou ao 
atravez, que se levantem ellas por secco estando o 
Falcão bem alto, porque então desce o Falcão melhor 
e ellas, entendendo que póde arrecadar, e se a adem 
se accolher a agua levante-a d'ella, deixando primeiro 
tomar ao Falcão sua altura, e se a levar nas mãos 
accuda-lhe logo tirando-lh'a mansamente, e cavalgue 
e corra outra vez a ribeira até que se levante o Falcão ; 
e se outras adens ficarem e as quizer voar, faça como 
fez de primeiro, e não querendo voar mais dêem rol 
e de comer uma perna de galinha, e a lingua e cora- 
ção da adem, e a guarde o caçador até que o Falcão 
se sacuda e alimpe o bico. 


A 


ArTE DA CAÇA DE ALTANERIA 129 


Advertencia quarta, da arte que se tera 
com o Falcão pólio, e a-causa porque 
convém que na caça da altaneria tra- 
ga o caçador gallinha viva 


E o Falcão seguir alguma ralé e fôr pôllo, em 

principio esteja o caçador quedo e dê-lhe vozes 

e chame-o para que torne, e se aos brados não 

vier dé-lhe rol, e se acudir a elle dê de comer, que 

de agradecer é, pois que acudio ; porém se o Falcão fôr 

já voante, e sabe o que ha-de fazer, e sae como dito 

é, e torna havendo adens, deixem-n'o andar, e levan- 
tar-lh'as-hão fazendo o caçador o que convem. 

Advirtam que não façam andar o Falcão sobre adens 
meudas havendo pouca agua, porque quando o Fal- 
cão vem a golpear não ache corpo na ralé de que 
possa afferrar, e dá em terra, e pode-se aleijar; mas 
se a agua fôr muita e houver serzetas e trulhos, e 
outras aves pequenas, façam porque o Falcão as vôe: 
porque ellas tornam á agua, e Os Falcões se aperfei- 
çôam muito emquanto são novos, que se costumam a 
levantar e cahir abaixo, e se affeiçoam e tomam que- 
rença. 

Depois que haja um pouco voado, e acutilado com 
ellas, se dê rol perto d'agua, e de comer, ainda que 
não arrecade. 

E se o caçador topar adens em secco não vôe até 
que ellas não entrem n'agua, porque alevantando-as 
voará o Falcão atraz d'ellas e se perderá o lanço; mas 


FOL. 5 VOL. I 


130 BrsLiorHECA DE CLAssiCOS PORTUGUEZES 


are 


estando ellas junto d'agua aguarde a que entre n'ella, 
e se não entrarem não larguem o nebri; mas tendo 
borni treçó altaneiro façam-n'o voar e pôr em altura, 
e ellas entrarão, e se se forem, o borni não n'as segue 
e não se aventura o nebri. 

Isto fazem as adens commummente em tempo de 
grandes geadas, porque não podem romper as aguas 
com o caramello; tambem estão quasi em secco quan- 
do ha muitas aguas e as hervas cobertas d'ellas, e 
as adens tem sómente os pés mettidos n'agua e cu- 
ram de si. 

Guarde-se o caçador de as voar estando como 
digo. 

Trabalhe o caçador e ponha toda a sua sciencia em 
fazer revoar o Falcão, e remonte que n'isto está o ca- 
bedal do nebri; e quer arrecade ou não, não dê rol 
ao Falcão senão voando algum pouco, porque quanto 
mais alto estiver dando-lh'o, tanto melhor, e estando 
pousado em terra ou em arvore, ou sobre alguma 
casa, aguarde que se levante, e cavalgue e vá pela 
ribeira dando-lhe vozes, e desde que se levantar, an- 
dando um pouco sobre a agua, e não houver aves 
que lhe levantem, então lhe darão rol e de comer. 

Algumas vezes, se não querem levantar as adens 
que estão rendidas na agua pelo grande mêdo, e os 
Falções raivosos se pousam em a ribeira perto d'ellas, 
outros vendo-as rendidas n'agua se lançam a ellas, 
parecendo-lhes que as pódem tomar. 

Isto se escuse com o remedio que possivel fôr. 

Cobre-se o Falcão o mais presto que poder, e ás 
varas e pancadas cobre a adem que está morta, e ca- 
valgue e corra a ribeira para que o Falcão se alce, e 
“estando alto lhe dê rol, e se o Falcão estiver tão mo- 
lhado que se não levante, tomem-n'o na mão, e por 
espaço d'uma hora inteira não lhe dêem de comer. 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 131 


: E se o Falcão se costumar a fazer o mesmo, e o 
faz a meudo, antes sofiram que se perca a adem, e lhe 
| déem o rol, porque não siga este costume, e é cousa 
» que elles fazem muitas vezes com grande fome, e por 
"| andarem baixos ponham-nos em-carne. 

Trará o caçador comsigo sempre gallinha viva, 
porque se o Falcão matar as adens, ou outras quaes- 
quer ralés, lhe não dê a comer d'ellas, se não cousa 
pouca, e o coração e a lingua, e o demais seja gal- 
linha, a qual traz os Falcões temperados, que as car- 
nes das aves montezinhas fazem os Falcões orgulho- 
sos e engordam muito, e não accodem ao rol como 
devem. 

A gallinha seja nova, sem gosma, nem doença al- 
guma. 

O dia que não voar o Falcão na ribeira, ou por 
outra prisão, lhe déem rol, e guarde-se não haja 
névoa, nem chuva, nem muito vento; e se dê então 
rol junto do caçador, o que se faz porque saiba o 
Falcão que tanto lhe dão a comida por caçar como 
por vir ao rol, e tendo gallinha lhe dê encoberta- 
mente a beber o sangue, que é muito bom. 

Perserva de lombrigas e filomeras, e toma o Fal- 
cão affeição ao rol; e sendo póllo, antes de entrar 
em a muda no mez de maio vôe com elle os sizões, 
que se desenvolvem, pondo primeiro o Falcão que 
tome sua altura, e depois se levantarão os sizões, e 
arrecadando, lh'o tirarão da mão docemente, e se porá 
a cavallo e o tornará a fazer revoar. 

E se quizer voar outros, havendo-os, se não dê rol; 
tambem é bom voar n'aquelle tempo os martinetes, 
que é tão boa voaria como de garça. 
$ Muitas aves ha que se podem voar com o nebri, 
"mas de nenhuma acho eu maior numero, que das 
adens, porque entre ellas ha muitas “castas e fortes; 


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132 BrpLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES PAR) 


com todas façam voar o Falcão de uma maneira, lar- 
gando-o primeiro que tome sua altura, como muitas 
vezes disse, e depois levantar as adens; mas a todas 
as mais prisões (salvo aos sizões) se largará o Falcão 
a braço tornado, assim as garças, como os grous, 
martinetes, corvos calvos e alcaravões. 

Tambem é bom algumas vezes voar a perdiz, por- 
que a perdiz faz voar o: Falcão, redondo e alto, e mos- 
tra n'isso certa galhardia; e vôe como disse se ha- 
jam de voar os sizões; e se arrecadar não lhe dê de 
comer, e cavalgue e revõe; e desde que houver bem 
andado no ar, antes que se enfade se lhe dê rol e de 
comer; e quando voar perdiz não traga mais que um 
podengo ou dois bem acostumados, e quando voar 
não seja onde haja arvores, porque ao golpear não se 
aleije. 

O dia que o Falcão voar se porá no campo atado 
em uma pedra com as avessadas, para que cure de si, 
e o logar onde se puzer seja cercado de parede em 
parte d'onde esteja quieto, e o caçador junto a elle, 
porque se se enfadar lhe accuda. 

Esta pratica teem os Bramantins, e dizem que com 
isto tomam os Falcões prazer, e curam de si; nós não 
no uzamos. 


aa ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 133 


Advertencia quinta, do modo e arte que 
se ha de ter com os Falcões tomados 
tarde 


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UITAS vezes se tomam tarde os nebris safaros; 

e não fica tempo para caçarem com elles 

por ser perto da muda, pelo que o caça- 

dor pelas manhãs frias de verão, e tardes, o fará voar 

os sizões e alcaravões, e adens; e assim vá com elle, 
ora caçando, ora dando-lhe rol. 

Tambem võe os martinetes, e des que o Falcão 
começa a mudar, e derriba muito das azas e cabo, 
traga-se na mão, e sofira-se quanto poder de o não 
pôr na muda; mas sendo as pennas em sangue então 
o metta n'ella, e esteja quieto até acabar de mudar. 

O caparão, como já disse, seja que não faça mal 
aos olhos, que muitas vezes com se molhar se enco- 
lhe e dobra; e descuidando-se póde o Falcão padecer 
desgosto, e cria nevôa nos olhos. 

À's vezes incham as mãos por serem as piós aper- 
tadas; cortem-lh'as e ponham outras, como já disse. 

Estando tudo concertado tenha seus cascaveis com 
bom soido, que as adens com elles se aquietam em . 
as aguas; e se o Falcão fôr buliçoso bom é carre- 
galo d'elles de quatro até seis; e sejam de um ta- 
manho, porgue andando o Falcão perdido o ouçam 
os pastores do campo, e se ache depressa; o qual se 
buscará d'onde se perdeu rosto a vento; e trará sem- 
pre caparão de resguardo para se valer perdendo o 


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4 


134 BrpLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


do Falcão, por não ir debatendo-se com a cabeça 
descoberta. 

Não lhe esqueça gallinha viva, nem rol bem con- 
certado, e perdendo-se com a ave, e achando-o com 
ella nas mãos a tirarão, que entenda que não estão 
contentes do que elle fez. a 

E alguns ha tão sagazes que sentindo gente se 
deitam “sobre a prisão para que o não vejam; e se 
voando se acharem, e accudir ao rol, lhe darão sua 
gallinha a degolar n'elle. 

Não tirarão os cascaveis ao buliçozo até não quie- 
tar, não deixarão crescer o bico tanto que não possa 
o Falcão comer, porque além de parecer mal, fen- 
de-se e come resfolegando, como que cança, é se car- 
rega d'agua; e quando lh'o cortarem seja com bom 
tento, que não chegue ao vivo. 

As unhas traga curtas, principalmente o altaneiro, 
e a todos os mais as não cortem. 

Trabalhem que o Falcão vôe pela manhã cedo, que 
é bom costume, porque então as aves miudas não ap- 
parecem, nem as aguias; e tambem vôem á tarde, 
porque o nebri quer-se voado duas vezes. 

Tendo nebri que se avantaje na altanéria, e ande 
bem alto e redondo em a ribeira, em a mesma caça 
se sustente sempre, porque ó dia que garceiro o fize- 
rem se fará preguiçoso, e a belleza da caça de Falcão 
é ser bom altaneiro, que garceiros muitos Falcões o 
são, mui excellentes, e altaneiro famoso não se acha a 
meudo. 

Durma o Falcão na camara do caçador, ou da pes- 
soa que o tiver a cargo, porque soltando-se lhe accuda. 

Alguns caçadores os tem soltos, outros nas alcan- 
doras, conforme cada um ao que lhe parece. 

Eu sempre o tive na alcandora atado com uma luva 
debaixo das mãos, ou panno de côr, sendo de inverno. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 135 


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-» Quando o Falcão tomar alguma bôa ralé, como 
garça, não lhe déem logo a comer n'ella, e depenne 
primeiro um pouco, e desgaste-se, que comendo com 
aquella colera se esquentará muito, e mais comendo 
de aves montezinhas, pelo que lhe darão de comer 
cesde que se haja desenfadado depennando, e não lhe 
consintam que beba do sangue, que esquenta muito e 
faz o Falcão soberbo, que o nebri, de sua natureza 
é bem, por sua condicção nobre e exforço e ardideza, 
pelo que convem se governe temperadamente, e sendo 
caso que algumas vezes não desça com a furia que 
costumava, então lhe déem a comer da adem que to- 
mar em » peito d'elia, por tomar sabor, mas isto seja 
poucas vezes, salvo se o Falcão fôr tibio e duro de 
fazer. 

Sendo caso que o Falcão tome tal ave, como gra- 
lha ou sisão, contra vontade do caçador, lh'a tirem 
das mãos, de modo que entenda elle que não fez bem, 
e lhe porão o caparão, e o deixem estar assim gran- 
de pedaço. 

Algumas vezes lhe podem dar de comer de carne 
de lebre fresca, que é bôa de gastar, e alimpa o buxo, 
e seja isto uma vez no mez, e lhe não dêem o sangue 
d'ella porque desseca o Falcão, e lhe faz olfego, que 
é como em nós asma. 


136 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Advertencia sexta, que mostra a arte e, 
preceito que se deve ter no covar os” 
nebris nas garças / 


UITAS vezes acontece matarem os Falcões as 
garças sem treina, como aconteceu io Ga- 
vião de que fallei em sua caça, porque cos- 

tumados a caçar aves meudas se passam a outjas maio- 
res com facilidade. 

Se o Falcão olha a garça, e chega a ella e a não 
afferra, se abaixará da carne, e lhe darão fome, e se 
com isto não apegar d'ella busquem Falcão mestre que 
seja bom garceiro, e quando o Falcão fôr rendendo 
a garça tirem o caparão e larguem o/Falcão, o qual 
se ajuntará logo com o mestre, e na/garça lhe darão 
a depennar, e o deixem estar n'ella para que a co- 
nheça, e se lhe dê o coração e as canadas, e uma per- 
na de gallinha, e quando estiver /em cima da garça 
com aquella colera lhe deixem comer algumas pica- 
das d'ella; isto de dar de comer na garça se não fará 
nunca senão n'esta occasião, porque é viçoza, € em- 
pacha muito, e tem um cheiro grande de carne mon- 
teza, e muitos Falcões a deixam por isso. 

Depois que o Falcão tiver comido em cinco ou seis 
garças, matando-as já sem mestre denodadamente, mos- 
trem-lhe a garça esquiva á qual deitem primeiro Fal- 
cão que a remonte, e sendo já em bôa altura o lar- 
guem, que não é bom costumal-o a que mate as gar- 
ças no baixo. Quando o largarem seja peito a vento, 
ao contrario das adens, que as garças tomam vento 


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ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 137 


abaixo, e fica sendo melhor lanço encontrando-se, 
e tenha lembrança que não largue em rio grande d'on- 
de não possa o Falcão ser soccorrido. 

E o dia que o Falcão houver de voar garça, leve 
bôa fome, e vá descarregado com cascaveis leves, e 
não esteja ao sol; e se houver adens ou outras quaes- 

“quer ralés, faça de modo com que a garça fique e as 
adens remontem, porque largando o Falcão, estando 
todas juntas, largará elle a garça, e se irá ás adens, 
e perder-se-ha o vôo da garça. 

E se as não viram antes de largar o Falcão, traba- 
lhe quanto fôr possivel pelas não levantar, que já 
então não ha outro remedio. 

Tendo já o Falcão a ponto para o treinar na garça, 
e carecendo d'ella, trabalhem por haver garça viva, 
e n'ella lhe dêem a degollar algumas gallinhas escon- 
didamente por baixo das azas, e tendo já o Falcão 
conhecimento d'ella, larguem-lh'a, voando em pouca 
altura com os olhos cosidos, e um pequeno de cortiça 
mettida no bico, porque não fira o Falcão, e seu cor- 
del delgado e rijo atado nos sancos, e em terra limpa 
porque elle se não embarace; e a segunda vez larga- 
rão a garça com meia vista, e a terceira esperta, con- 
forme ao Falcão mostrar vontade. 

E para a elle ter lhe farão boa fome, como já mui- 
tas vezes disse; entrando n'ella com boas azas irá o 
caçador buscar a garça brava, e faça bom lanço, e 
vôe sobre tarde, e seja garça de morada, que são 
aquellas que sempre costumam uma ribeira ou lagõa, 
que o Falcão fará seu dever. 

Convem que os caçadores tenham garças vivas 
para os ensinos dos Falcões, os quaes vivem muitos 
annos, mettendo-lhe o comer pela bocca, que será 
carne sem sal, e peixinhos do rio, e por que ellas 
teem o pescoço muito comprido ha-de ter cuidado o 


138 BreLrioTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES 


que lhe der de comer, de com a mão lh'o levar á 
foz do papo. 

As piós que lhe atarem sejam postas por cima dos 
joelhos, porque se pelos pés lh'as pozerem, debatendo- 
se, darão comsigo em terra, e acabarão a vida muito 
depressa. 

Tenha seu caparão na cabeça bem aberto que veja 
por elle, que a continuação d'ellas verem quem lhes 
dá de comer, as faz amigas e domesticas. 

Eu tive uma d'este modo e viveu muitos annos, e 
veio comer por si, e tomar da mão o que lhe davam. 

O Marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello, 
grande senhor n'estes reinos, tem muitas garças, mar- 
tinetes, zambralhos, colhareiras meãs e garçotas, em 
uma torre que tem nas suas casas, na cidade d'Evora, 
e n'ella lhe manda pôr alguidares com carne feita em 
pequenos que possam ellas engulir. 

Na sua villa d'Agua de Peixes tem as mesmas aves, 
e vivem assim curadas, que este senhor tem para lhe 
não faltarem treinas. 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 139 


Advertencia setima, que mostra como 
se faz 0 vôo de Milhano com Gerifaltes 
e Sacres 


os capitulos dos gerifaltes e sacres, disse bre- 
vemente de sua caça, mostrando mais seus 
talhes, plumagens e feições, que o ensino nem 
“caçar d'elles, remettendo-os com todos os mais ge- 
neros de Falcões á regra geral da caça dos nebris, 
por evitar prolixidade, e fugir a dizer as cousas mui- 
tas vezes; porque o caçador que bem reger e gover- 
nar os nebris em tudo, com todos os mais se saberá 
entender, assim na caça, como no ensino d'elles; ain- 
da que na caça dos milhanos como se faz com Fal- 
cões, em companhia de gerifaltes e sacres, me pareceu 
cousa conveniente mostrar como os praticos caçado- 
res os fazem amigos e bons companheiros, para se 
ajudarem contra o vilão do milhano, o qual no voar 
tem agilidade e levidão, e no furtar o corpo aos gol- 
pes dos Falcões é manhoso e muito leve, tanto que 
muitas vezes baixa o Falcão cahindo a elle para o le- 
var nas mãos, e o sagaz e levissimo milhano, furtan- 
do-lhe o corpo ficar o nobre Falcão em vão e frus- 
trado, muito longe do que pretendia, e o milhano 
melhorado na altura, pelo que são necessarios dois 
Falcõôes companheiros, gerifaltes e sacres, e ás vezes 
tres sacres. 
Esta voaria é mui excellente; podem voar tres 
Falcões sendo bellos companheiros, dois milhanos 


= 


140 BreLioTHECA DE CrAssicos PORTUGUEZES 


cada dia, que são faceis de achar; os Falcões se | 
fazem mestres n'esta voaria depois de rolleiros, dando- 
lhes de comer sobre os milhanos, e a degollar algumas | 
gallinhas do modo que acima digo, escondidamente | 
por baixo das azas. | 

E como tiverem conhecimento do milhano, lhe 
atarão sobre as costas d'elle um pedaço de carne com 
arte, que o veja bem o Falcão, e com ella largarão o 
milhano atado pelos sancos com um cordel delgado, 
rijo e comprido, e o bico debaixo quebrado, para que 
não escandalise o Falcão mordendo-o; e os alcanços 
tambem atados aos sancos, porque não fira o Falcão 
com as unhas, e assim o largarão com os olhos cosi- 
dos; indo voando no ar baixo, largarão o Falcão ti- 
rando-lhe o caparão, depois do milhano ir voando, 
porque como leva os olhos cosidos, vão voando a 
tento e são cubiçosos, e se o Falcão apegar d'elle lhe 
darão a comer de alguma ave viva de que elle tome 
gosto; e conforme apegar irão descozendo os olhos 
ao milhano até o largarem com a vista toda. 

Notem que não ha-de treinar os Falcões tantas ve- 
zes no milhano, que venham em conhecimento das | 
treinas, que será grande erro. 

Eu vi um sacre pôllo, o qual conhecia tão bem o 
milhano que ihe deitavam de mão, que ainda que em 
muita altura fosse, e com toda a vista,o seguia só e em 
companhia até se abraçar com elle, e largando-o ao 
bravo, se deixava ficar. Enfadado d'elle o mandei atar 
a uma estaca sem caparão, e um milhano junto a elle À 
com os alcanços atados aos pés, ao, qual mandava dar | 
de comer, e ao Falcão nada, tendo o milhano o bico | 
debaixo quebrado, porque se acaso o Falcão se abra- | 
çasse com elle lhe não fizesse escandalo; esteve assim | 
tres dias, ao quarto o matou e comeu constrangido | 
da fome, que ella faz maravilhas, e d'este modo co- | 


I41 


“meu tres. Então o mandei levantar e d'ali a tres dias 
“o larguei em companhia dos mestres ao milhano 
“bravo, e foi excellente terçó de milhano. 

Este mesmo caso aconteceu a Braz d'Escovar, ca- 
çador do conde de Medelim, com eutro sacre (a estes 
sendo póllos, acontece mais esta ignorancia). 

Tendo já os Falcões a ponto, entrando cada um no 
milhano em boa altura, largarão dois juntos a um só 
milhano, e cada um apertará as azas por afferrar pri- 

“ meiro d elle, e se ambos vierem apegados no milhano, 
"* como cada um por si só d'antes fazia, se deixará o 
“que ha-de ficar com o milhano afferrado n'elle, e do 
outro apegará o caçador pela cabeça com arte pu- 
xando para que largue as mãos d'onde as tem pega- 
das, e lhe deitarão uma gallinha atada pelos pés, da 
qual tirarão uma titéla envolta no seu sangue, e a 
darão a comer assim quente ao que está com a presa, 
ficando o outro na gallinha, da qual tirarão o cora- 
ção e entretinho, e o darão ao que está com o mi- 
lhano, e as canadas e o coração do mesmo milhano, 
e lhe farão todos os gazalhados possiveis; e assim 
procederão largando sempre o que ha-de ficar com o 
milhano, e os outros uma vez uns, e outros outra. 

Aos Falcões que houverem de ficar de fóra cor- 
tará o caçador as unhas, e lh'as fará rombas por evi- 
tar os damnos que se podem seguir filhando-se, por- 
que assim se accode a dois males, que ainda que se 
“filhem não se maltratam, nem se ferem, o que póde 
acontecer levando as unhas grandes e agudas. 

— O outro mal é, que sendo os Falcões de muita 

“fome, tragões e cainhos, quando comem afferram da 
carne e luva do caçador, e querendo-os desafferrar de 
onde estão empolgados, tendo as unhas grandes e 

+ Essudas, acontece arrancarem-se em todo ou em parte, 
| € trazendo-as rombas se evitam desastres. 


142 BrpLIOTHECA DE CLassicOs PoRTUGUEZES. 


O aa aa 


E” conselho do Marquez de Ferreira, D. Francisco | 
de Mello, que na caça tem grande voto e é excellente | 
caçador. 

Estando já os Falcões amigos e companheiros, os | 
quaes a poucos lanços sabem qual ha-de ficar com a | 
prisão, qual aguardar pela gallinha, o da prisão se | 
abraça com o milhano e afferra d'elle, e o tem estra- | 
nhamente preso. À 

Eu tive um sacre mudado do ar, Falcão muito | 
grande, e por tal o deixava sempre com o milhano ; | 
este todos que tinha agarrados os afferrava com | 
uma das mãos pela cabeça, e com a outra, ou uma das | 
mãos do milhano ou ambas, porque o não mordesse | 
ou arranhasse; e posto que ao principio não estejam à 
tão destros bastam que afferrem do milhano todos, e | 
o tragam a terra, ainda que juntos venham, que a isso | 
se acode com diligencia e gallinhas. 

Eu tive um sacre, a que chamavam — lugo — pri- | 
ma mudado do ar, o qual prendia o milhano em boa | 
altura e o trazia agarrado até o entregar áquelle que | 
costumava ficar com a preza, e muitas vezes sem ape- | 
gar do milhano vinha cahindo sobre elle, detendo-se | 
até o submetter debaixo e a lanço d'aquelle que o ha- | 
via de levar nas mãos. 

Este ainda que afferrasse da prisão, sempre ficava | 
a meio ar, detendo-se até o entregar ao amigo, e fi- É 
cava aguardando pela gallinha. | 

Estando já os Falcões em ordem para os poderem. / 
cevar no milhano bravo, buscará o caçador para isso | 
aquelle que vir mais mesquinho terçó e póllo, e mal À 
empennado ; e n'estes o cevarão até quatro vezes só-| 
mente, que já então estão seguros, e podem voar o | 
tamo velho, grande e ruivo, e rabiforcado, que es- | 
tes estimam os senhores que os seus Falcões prendam É 
e matem, e é vôo de muito passatempo, e avantaja- 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 143 


do da garça, por a facilidade com que se acham; e 
havendo Falcões mestres podem voar cada dia dois 
com tres Falcões, como já disse e eu já fiz com tres 
sacres. 

O dia antes que houverem de voar darão aos Fal- 
cões de um coração desfeito em agua morna, e á noite 
uma plumada de estopa sem mais cousa alguma, que 
os sacres são Falcões muito quentes e duros, e de 
qualquer cousa se sustentam, ainda que não ha regra 
sem excepção, que alguns ha donzeis e brandos, e bem 
acondicionados, e no engenho do caçador está a elei- 
ção do que se ha-de fazer a cada um ; mas aos sacres 
convem se lhe dê sempre o dia antes de voarem seu 
lavado, e d'elle pouco, e muito desfeito em agua 
morna. 

Pedro de Vesilha, caçador que foi do infante D. 
Luiz, filho d'El-Rei D. Manuel, e quando caçador de 
sacres, costumava sempre trazer na bolsa seixinhos 
redondos muito lizes, do tamanho das plumadas, que 
dava aos sacres em lugar d'ellas. 

Nunca o costumei nem o vi fazer a meu pae, mais 
que dar seu lavado desfeito em agua morna, e a al- 
guns Falcções fazia metter a cabeça até os olhos nella 
para tomarem a-carne no fundo do vaso d'onde lh'a 
davam; e ás vezes pouco d'este lavado, e plumadas 
«de estopas seccas. 

Com outros se havia mais accommodadamente. 

O Falcão que me costumava ficar com o milhano, a 
principio o temperava como os mais, e por elle ficar 
com o milhano apertava com elle; veio este a mos- 
trar tanta nobreza de condição, que me atrevi a voar 
com elle em tempera, e então o fazia melhor, ainda 
que dois e tres milhanos voassem com elle cada dia; 
isto de temperar está na prudencia do caçador. 

Podem com um só milhano treinar os Falcões mui- 


144 BrBLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


tas vezes curando d'elle, mettendo-lhe a comida pela 
bocca, e por não morder a quem lhe der assim de 
comer lhe terão o bico debaixo quebrado, que ainda 
que aperte o dedo não magõôa, nem por isso morre 
tendo cuidado d'elle; tenha as mãos livres para que 
possa estar em pé. 

Para esta voaria tem o caçador necessidade de bufo 
manso que bem vôe ensinado ao pouso, o qual além 
de servir para tomar os milhanos para as treinas, e 
todas as mais aves de rapina com armadilhas, é mui 
necessario para baixar os milhanos, e se poderem lar- 
gar os Falcões a elles com feição e lanço. 

O bufo se largará no lugar mais baixo d'onde se 
achar o milhano, em valle, para que fiquem os ca- 
çadores que hão-de largar os Falcões melhorados, e 
se poder ser que vejam os caçadores as costas d'elle 
baixando ao bufo; é lanço seguro, o qual se uzará em- 
quanto os Falcões não são mestres. 

E porque o milhano não desce com tanta colera 
como as outras aves de rapina, e vem baixando ás 
voltas de vagar, então eleija o caçador o tempo de 
fazer seu lanço, largando os Falcões peito a vento; e 


sendo caso que o vento esteja com o sol não largarão, | 


tendo os Falcões o rosto n'elie, porque com a clari- 
dade do sol se lhe embaraça a vista, e se enleiam que 
não sabem a que os largam, como eu já vi. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 145 


Adveriencia oitava, que ensina os Fal- 
cões caçarem lebres 


opos os Falcões appetecem as lebres, as quaes 

tém um não sei quê, que até os gaviões as com- 

mettem, e todas as aves de rapina as cobiçam, 
e muitos Falcões sem treina as perseguem. 

Alguns caçadores desejosos de tomarem prazer com 
este passatempo e voaria, ensinam seus Falcões a que 
as cacem, e os treinam em suas pelles cheias de algu- 
ma cousa, dando-lhe de comer a principio em cima 
da pelle assim cheia até que o Falcão a conheça dei- 
tando-a de mão, e o Falcão desça a ella de mão fin- 
gindo-a viva, e tendo elles já conhecimento lhe atem 
um cordel pelo pescoço, tirando pelo cordel fingin- 
do-a viva, correndo um moço pelo campo limpo sem 
cardas e mattas. 

O Falcão já costumado a comer nella, em a vendo 
vôa a afferrar da peile, a qual vae encarnada, levando 
em cima pedaços de carne atados; e afferrando o 
Falcão della lhe dão a comer, bolindo a morta pelle 
como se estivesse viva, e isto fazem tantas vezes, até 
que vae de quão longe a vê, e d'este modo procedem 
até estar para o largar á viva lebre. 

N'esta caça são mui apraziveis os alfaneques, sendo 
dois em companhia muito estimados pela voaria e gol- 
pear que fazem, mas assim estes, como todos os mais, 
tem necessidade de soccorro. 

Lembra-me que fallando dos gerifaltes, disse alguns 
matarem as garças sem treina. 


146 BrpLIOTNECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES | 


LIA ras 


Miguel Peres, caçador do Marquez de Ferreira, in- 
do com um gerifalte do almirante de Castella á caça 
das lebres (porque elles n'aquella voaria perdem as 
cocegas das mãos e cobram alento a exercitam os ca- 
çadores praticos) andando no campo, acaso atraves- 
sou uma garça a meio ar, e a viram uns companhei- 
ros, e bradaram ao Peres, o qual levava o gerifalte 
na mao, 

Parecendo-lhe que o avizavam de alguma lebre, deu 
pressa ao cavallo para se melhorar de um alto, tiran- 
do o caparão ao Falcão, o qual poz o rosto na gar- 
ça, e o largou o caçador a ella; o Falcão, como se 
fôra a ellas costumado a levou nas mãos, sem nunca 
ser treinado na garça que viva fôsse. 

Ku matei os milhanos com um sacre sem treina; 
este andando com uma garça bem alta, acertou de 
passar por baixo d'elle um milhano voando á tira, o 
qual se recolhia para a dormida; desceu a elle o sacre 
deixando a garça, e o levou nas mãos, e foi excellente 
garceiro e milhaneiro. 

Este mesmo sacre fez outra fineza. Vindo o prior 
do Crato, filho do infante D. Luiz, de cujo o sacre 
era, de vêr dar rol a uns Falcões, acertou de passar 
uma cegonha para o ninho; meu pae que o Falcão le- 
vava na mão, sem dizer nada aos da companhia, ti- 
rou O caparão ao sacre, que poz o rosto na cegonha, 
e o largou, e em poucos lanços a trouxe a terra. 

Foi o feito, não. pensado, muito festejado do prior. 

Então me disse meu pae, por doutrina: 

— Eu tenho fama de grande caçador, e as minhas 
aves o mesmo, por andar sempre no campo e lhes 
mostrar tudo, que as aves tem umas horas melhores 
que outras, como todas as cousas. 


| 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 147 


NI 


rara, 


RI 


Do estojo e das cousas necessarias das 
quaes 0 caçador estara apercebido 


o estojo ha-de ter o caçador thesouras e fura- 

radór para fazer piós e avessadas ás suas aves, 

e para tosquiar as pennas das feridas, e cor- 

tar as que se houverem de enxerir; e tenazes 
para cortar as unhas e bico aos Falcões; canivete para 
aparar as navalhas e bico, e lima para o aperfeiçoar; 
pinças para tirar as cousas estranhas das feridas; ca- 
nudo para as agulhas. de enxerir, de duas pontas; bo- 
tão de fogo para as apostemas, palmetas para estender 
os unguentos. 

O caçador assim apparelhado, sendo prudente, po- 
derá applicar os remedios e alcançará a saude que de- 
seja ás suas aves, ainda que nem sempre se alcança o 
fim desejado, por que não é na mão do medico que 
sempre sare o seu enfermo, que muitas vezes o mal 
póde mais que a arte. 

Sempre terá caparão de sobrecelente de todas as 
sortes de Falcões, e não porá o caparão de Falcão no 
Açor, nem o que fôr de prima no treçó, nem o do 
treçó no prima, por que sendo o caparão grande, se 
se saccudir ou coçar o lançará fóra da cabeça, e se 
espantará o Falcão vendo as cousas que não cos- 
tuma, e sendo pequeno de treçó e o Falcão prima se 
escandalisará de lhe ser apertado e se assombrará, e 
não poderá o caçador fazer d'elle cousa que boa seja, 
e tenho por mais acertado deixal-o sem caparão 


148 Brsciormeca DE Crassicos PoRTUGUEZES 


até o haver, e tratado com resguardo, tendo em casa 
quieta, sem gente, e entre outras aves domesticas, 
porque com as aves se assegurará, posto que seja sa- 
faro, eo caçador não será culpado em se escandali- 
sar, pois não errou em mais que lhe faltar o caparão, 
pelo que terá muitos para as aves todas de qualquer 
genero que sejam; e piós, e cascaveis e avessadas, 
porque o caçador que d'estas cousas estiver desaper- 
cebido, não se póde chamar pratico n'esta arte, ainda 
que nem todos podem tudo; o que fôr affeiçoado á 
caça de Gavião baste ter o necessario para os Ga- 
viões. 

E da mesma condição e modo se haverá cada qual 
com o genero das aves com que caçar. 


FIM DO PRIMEIRO VOLUME 


FERE 


RI E É quci CER e 5 qr 


I— Historia po CERCO DE is por E de Sousa 
Coutinho, 1 volume... ..... RR 


II — Historia DO CERCO DE MAZAGÃO, por Agostáni A 
Gavy de Mendonça, 1 volume ........ E 


HI -- Ermroria OrrENTAL, por 77. Foão dos san 
2 gróssos volumes. ... .5.5..% “> aa 


IV—O Ixrante D. Pepro, chronica inedita, por 
Gaspar Dias de Landim, 3 volumes .... .. 


V E GanoNTCA D EL-Rer D. Pepro I, (o Cru ou Jjus- . 
TICEIRO), por Yernão Lopes, 1 volume....... 


VI — Cwronica p' EL-Rer D. FERNANDO, + BORA Fernão 
Lopes, 3 volumes NEGRA e F 


VII — Cwronica p'EL-Rer D. João A Por Fernão. 
Lopes, 7 NOlUMES ie 02 oo Epa +“ AA vg 


VIII — Dors CaprrÃEs DA Inpia, por Luciano «o CR R 
TETO Soo ode ETA SR UR EU ! 


IX — Arre DA Caça DE ALTANERIA. por Diogo Her- 
nandes Ferreira, (VOL 1)... at. dal caia 


| 


EM PUBLICAÇÃO 


ArTE DA Caça DE ALTANERIA, por Diogo Fer- 
nandes Ferreira, (vOL. 11) 


POR 


VOLUME II 


=> A 


- 
/ 


EA 


ESCRIP TORTO : 


a7—Rua DOS RETROZEIROS— 147 
E + LISBOA | 


BIBLIOTHECA 
ERASSICOS PORTUGUEZES 


DIRECTOR LITTERARIO 


ConsELHEIRO LUCIANO CORDEIRO 


PROPRIETARIO E FUNDADOR 


MELLO DAZEVEDO 


Ea 
PRA PN 


BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Director LitrrerarIO—(CONSELHEIRO LUCIANO CORDEIRO 


Proprietario o fundador — MELLO D' AzEVEDO 


ARTE DA CAÇA 


ALTANERIA 


POR 


Diogo Fernandes Ferreira 


VOLUME II 


ESCRIP TORTO 


147—Rua DOS RETROZEIROS— I47 
LISBOA 


1899 


Es 


QUARTA PARTE 


Na qual se trata de todas as doenças que aos Gaviões, 
Açores e Falcões pode»: acontecer, e os remedios 
para cada uma 


EAPIIUEO 1 


Como se alimpa o Falcão do piolho 


m vindo o Falcão á mão do caçador lhe dê ba- 
nho para o alimpar do piolho, porque todos os 
trazem, assim os de mar em fóra, como os to- 

mados aqui safaros, porque os de fóra vem muito 
juntos, e uns os apegam a outros, e os safaros aqui 
tomados os tem que se apegam das aves que matam 
e se cevam, conhecendo-se em os Falcões se coçarem, 
e estarem inquietos na alcandora, e não sendo limpos 
d'esta immundicie, não andarão obedientes, porque 
com o sol se esquenta aquella praga, e os inquieta, e 
ás vezes são tantos que se deixam vêr entre as pen- 
nas do Falcão. 


6 BreLiorTHECA DE CLASSICOS PoRTUGUEZES 


O banho se dá de duas maneiras: uma, tomarão 
onça e meia de ouro pimenta, bem moida e peneirada, 
tendo o Falcão derribado por pessoa que saiba, estes 
pos se deitarão por todo o frouxel do Falcão, apartando 
as pennas para que melhor se faça; este se dá aos 
pollos por que é bom para elles, e alimpa bem o pio- 
lho, e tomando-o na mão logo se vêem andar por 
cima da penna, e com uma canninha os deitem fóra. 

E sendo o Falcão bem mudado, vestido de for- 
mosas pennas, por não se tingirem com o ouro pi- 
menta, tomarão uma onça de pimenta bem moida e 
duas oitavas de paparraz, tudo bem moido e penei- 
rado, o atarão em um panno de linho limpo e delgado, 
quanto caibam os pós, e o deitarão em quartilho e 
meio de agua e meio de vinho branco, e se aquentará 
a agua em um tacho limpo, e farão que os pós se 
côem do mesmo panno, que fique o banho morno, e 
com a força dos pós; com esta agua, tendo o Falcão 
derribado por pessoa que saiba, se banhará o Falcão 
molhando um pannosinho, e correndo-lhe com elle 
todo o corpo, advertindo que nas costas e nos cotos 
das azas tem pouca penna, e o não esfreguem, de 
sorte que o esfolem, guardando os olhos, assim n este 
banho como no outro. 

Sendo bem banhado se envolverá em uma toalha 
de linho limpa, com as mãos atadas com a avessada, 
e o porão assim embrulhado em cima de um panno 
de côr, grande, ou na capa do caçador, e o cobrirão 
com uma ponta, ficando a cabeça descoberta do fato, 
porém tendo o caparão n'ella, e d'ahi a um pouco se 
porão com elle ao sol, e tendo-o na mão lhe farão 
como acima digo. 

Disse que se havia de derribar o Falcão : estando 
elle na mão do caçador, o tomarão pelas costas, os 
dedos mostradores prenderão as azas por onde se do- 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 7 


mem 


| bram, e os polegares ficarão pelas cadeiras, e com a 

— mais mão, tirando para baixo um pouco, tomarão as 
azas com as pernas, salvando-lhe quanto fôr possivel 
o peito, e logo em o derribando o que o tem na mão 
com a que lhe fica livre tomará -as do Falcão, e as 
envolverá com as avessadas, e d'esta maneira se lhe 
dará o banho. 


| CAPITULO; E 


Como se cura a agua commum do Falcão que não é 
vidrada 


s pessoas que tratam em Falcões, e os tem para 

JE vender, por escusarem gastos, lhe dão a comer 

viandas de pouco preço, como carne de vacca, 
de ovelha e de cão; a de cão se tem por melhor, e 
não lhe dão plumadas, nem os põem ao sol, nem a 
depennar; e os tem encerrados ás vezes d'onde lhe 
dá fumo, e assim adoecem de agua leve de curar, e se 
conhece dando-lhe de comer saindo-lhe pelas ventas, 
e sacudindo a cabeça rocia o rosto do caçador, e es- 
pirra. 

Esta se cura, deitando umas gottas de aguardente 
nas ventas, algumas vezes dando-lhe a depennar e 
suas plumadas, e a comer boas viandas, gallinha, e se 
a agua fôr grossa, déem-lhe o paparraz bem limpo 
molhado em agua quente, e em cada venta lhe deita- 
rão seu par de gottas, e se o Falcão estiver gordo, 
até quatro; e se porá um pouco ao sol, e o porão na 

“alcandora até que faça suas babadas, e bem tarde lhe 
darão de comer uma perna de gallinha. 


8 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Alguns caçadores untam o ceu da bocca do Falcão 
com mel, com o dedo mettido na bocca, e lhe põem 
em cima mostarda moida que os faz purgar; e para 
escusar d'ahi em diante esta enfermidade, dêem sem- 
pre a depennar ao Falcão, duas vezes ao dia, pelo me- 
nos; guardem-n'o do fumo e más comidas que com 
isto se perservará de similhante doença. 


CAPLPULO 


Como se cura no Falcão a agua vidrada 


STA agua se gera na cabeça do Falcão e se cha- 


ma vidrada, por ser tão grossa que tapa as ven- 

tas ao Falcão, e é como mormo, e uma das peio- 
res enfermidades que acontece ás aves, por que estan- 
do a cabeça doente todo o corpo padece, e logo o 
Falcão mostra o semblante triste, e os lagrimaes dos 
olhos inchados, e o pescoço grosso, e quando se de- 
bate, ou quando deixa de voar, vae com a cabeça 
abaixo, e dá em o outeiro com o bico; e quando come 
ou depenna não mostra tanta força como sohia, e 
assim cresce este mal., 

Para a cura, á noite, dês que não tiver papo, deitem- 
lhe umas gottas de agua morna avinagrada pelas ven- 
tas, ou de summo de cascas de laranjas, tomando a 
casca e espremela nas ventas da ave que caiam al- 
gumas gottas dentro, e se ponha na alcandora e a 
deixem saccudir; e depois a tomem em a mão, e 
deem-lhe a tirar um pouco no roedeiro, e a depennar. 

Ao outro dia lhe deem um pouco de mel duro ; met- 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 9 


tido na bocca lh'a tapem, que deite mel pelas ven- 
tas; e estará na alcandora até que se sacuda d'aquella 
agua; e deem-lhe a comer esse dia, á tarde, e no 
mesmo dia, depois de comer, lhe provem agua e be- 
ba d'ella se quizer. Feito isto tomarão espique, cra- 
vos de Jarofe e canella, e frol de canella, e atem tudo 
em um panno de linho, ferva em uma panella limpa 
até que a agua tome sabor dus especies; e n'esta 
agua tibia lhe deem de comer uma perna de gallinha 
molhando-a n'aquella agua, e tambem se lhe dê a ti- 
tella molhada na mesma agua, como fica dito. 

A agua da salsa-parrilha faz o mesmo efeito, e a 
tenho por bom remedio para esta doença; e lhe es- 
freguem o ceu da bocca com mostarda pizada, que 
tambem ajuda a adelgaçar os humores. 

D'esta agua se faz outra que é mais vidrada que a 
sobredita, e com esta se procederá com os mesmos 
remedios; tem os mesmos signaes, salvo que os lagri- 
maes dos olhos incham e fazem como folles; e quan- 
to mais o Falcão se debate, tanto mais os lagrimaes 
aquillo fazem, e as ventas se lhe tapam com o mor- 
mo coalhado, e não sahe fóra. 

E” enfermidade mui perigosa. Chupar-lhe-ha o caça- 
dor as ventas com a bocca, e deitar-lhe-ha dentro fumo 
de herva santa, que é quente e adelgaça o humor, e 
é remedio experimentado, fazendo-o cada semana uma 
vez até que sare, estando o Falcão sem papo, e dar- 
lhe-hão sempre a tirar, e depennar, e trarão ramos de 
arruda em que elle depenique; e por que similhantes 
enfermidades da caçeba procedem de humores que 
vem do bucho, lhe darão carne envolta em pós de 
salsa tres vezes na semana, e suas plumadas d'algodão, 
e dentro n'ellas tanto como uma unha de pimentos, e 
guarecerá. 


IO BrBLIOTHECA DE CLassiCOSs PORTUGUEZES 


De dana 


CAPITULO IV 


Da purga commum do Falcão 


ECESSARIO é purgar o caçador o seu Falcão pelas 
razões já ditas, e para d'elle poder ordenar á 
sua vontade; porque tendo o bucho sujo das 

más viandas, e não se lhe darem as plumadas neces- 

sarias, veem cheios de humores e encharcados com 
agua, posto que o não mostrem, e é bom concelho 
purgal- os logo, por que com a purga se deminuem e 
depois com o regimento que com elles se tem se aca- 
bam de gastar, e se perservam de enfermidades futu- 
ras, e obedecem, e se lhe faz fome verdadeira pelo 
que logo deve ser purgado, considerando a pessoa do 
Falcão, e se tem carnes ou está falto d'ellas, porque 
conforme a disposição se hajam com elle, notando 
tambem a vontade que mostra no comer, e se vôa 
como d'antes costumava, e se engeita as prisões, e se 
o não faz por orgulho e gordura, e estar sobreposto, 
de crêr é que o faz por estar cheio de maus humores. 

Então se deve purgar, notando juntamente as to- 
lheduras se são feias, e mal ordenadas e de má côr. 

A purga se lhe dará dando-lhe primeiro de um co- 
ração de carneiro desfeito em pequenos em cosimen- 
to de xarope morno de malvas, ou de borragens, ou 
de raizes de lirios, como fica dito na purga dos Aço- 
res, no capitulo 17.º 

As purgas d'estas aves são pilulas que se fazem de 
azebre, e de mechoação feito pós; os antigos davam aos 
Falcões tartaros, que não aconselho se dêem, que 
purgam com vehemencia, e estragam os Falcões; e 


“A Arte DA CAÇA DE ALTANERIA II 

AAA Area 
assim o diz Pero Lopes de Yalla, no tratado da caça 
de Falcão. 

As pilulas se fazem, as de azebre feito em pó, e 
com o dedo molhado em mel se ajuntam e d'elle fa- 
'zem as pilulas para os Fascões, que basta seja o de 
gerifalte e sacre do tamanho de uma avelã bem gran- 
de, a que se der aos mais basta ser do tamanho do 
miolo d'ella. 

Esta pilula se dará envolta em uma pelie de pesco- 
ço de galiinha, ou de outra qualquer ave, ás dez ho- 
ras da noite, tendo o Falcão o papo gastado, metten- 
do-lha pela bocca como as plumadas; e ao outro 
dia se lhe dará de comer, de uma titella de frangão 
quente passada por agua morna ás dez horas do dia, 
e não o havendo, de um coração de carneiro limpo 
de nervos; á noite, de comer do mesmo que se lhe 
deu, passado por agua morna, dando-lhe um pedaço 
de assucar candi ao segundo dia; e depois lhe dêem 
de um membro de gallinha, e o porão n'agua, se a 
quizer tomar ou beber, o deixem; e d'ali por diante 
procederão com bom regimento. 

Esta purga se dará á entrada da muda, e á sahida, 
e mostrando signaes de enfermidade, que tal póde ser 
ella, que seja forçado remedio mais poderoso. E con- 
forme a isso se procederá com a eleição do caçador. 


I2 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES | 


CAPITULO V | 


Do Falcão que emmagrece 


UITAS vezes por o Falcão não ser purgado a 
tempo necessario, nem lhe darem de comer 
ás suas horas, e muitas por pouco, e viandas 
frias, e carnes não frescas, vem a adoecer os Fal- 
cões e emmagrecem e se desecam, e por se lhe ge- 
rarem lombrigas e filomeras; tambem acontece dese- 
carem-se por serem feridos e mal curados, o que 
algumas vezes acontece por descuido do caçador, por 
não olhar o seu Falcão quando anda aos golpes com 
as aves, a vêr se está ferido para curar d'elle, e an- 
dando assim doente se conhece por ter o semblante 
triste, e o sanco frouxo, e não depenna e vae em- 
magrecendo ; a esta doença se lhe não acudirem de 
principio é má de curar, tendo estes signaes, que dis- 
se; se emmagrecer por causa da ferida, veja se é pe- 
netrante e em que parte, e se estiver soldada não lhe 
faça cousa alguma, ainda que penetrante seja, mais 
que dar-lhe boas viandas. 

De todas as carnes, a de porco é a que mais engor- 
da, principalmente toucinho fresco, o qual lhe podem 
dar duas ou tres picadas entre comendo outras vian- 
das, que elles a comem de boa vontade, e pombinhos 
e rôlas, e todas estas frescas e quentes, porque com 
ellas se remedeiam, assim as feridas como as enfermi- 
dades causadas das comidas destemperadas, porque 
se a ferida por dentro tiver alguma parte lésa, ajuda- 
do o Falcão com comidas frescas e quentes dão for- | 
ças á natureza e melhora. 


ArtE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 13 


LNLS SA 


Algumas vezes lhe darão de um ovo duro, limpo 
da pellesinha que está entre a casca e a clara, pisado 
com manteiga de vacca crua e desfeito em leite de 
cabras, de arte que não fique brando, e lhe deitem 
um pouco de açafrão pisado, e de terceiro a terceiro 
dia se dê a comer misturado com a carne. 


CAPITULO VI 


Do Falcão assombrado 


uiros homens querem ser caçadores de aves, e 
por não saberem a pratica da caça, nem aor- 
dem que se tem com os Falcões, os enojam 

ao pôr do caparão, principalmente ao principio, e 
lhe tiram o caparão muitas vezes diante de gente, 
cuidando que fazem bem, e o Falcão vendo as cousas 
desacostumadas se debate, e o novo caçador lhe não 
acode pondo-lhe o caparão docemente, e fica o 
Falcão tão escandalisado que em vendo o rosto do 
homem e a mão, grita deitando-se da mão abaixo; e 
os Falcões que mais depressa se assombram são os 
gerifaltes, principalmente os treçós, e o caçador que 
vê assim o Falcão assombrado se anoja com elle, 
andando ás voltas com a mão em que o tem, e com 
isto cada vez mais se assombra e enoja; e para se 
remediar mal tamanho convem sejam os remedios 
ao contrario dos erros feitos. 

Tomará um caparão bem feito, e que por elle não 
veja cousa alguma, e bem cerrado, que ainda que 
se cosse e sacuda o não deite da cabeça, e não lh'o ti- 
trará se não ao comer, e quando lh'o der seja em uma 


/ 


I4 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


a 


camara escura sem pessoa alguma, porém com a car- 
deia de pouca vista, e ali lhe dê de comer, depois q 
entender que tem grande fome, porque com ella 
esqueça do escandalo e medo que d'antes tinha tom 
do, e deixem-no alimpar o bico e sacudir, e lhe po 
nham o caparão docemente, furtando a mão que a nã 
veja, e não no entreguem a pessoa que faça erro 
com elle; e de noite á candeia lhe dê a tirar, e seus 
dôces, e antes que amanheça o tomem na mão, e dê 
que fôr assegurando lhe mudem o caparão e seja mais! 
aberto que veja por eile, e vá perdendo o medo que, 
d'antes tinha da gente, e assim se procederá até que. 
esteja seguro, e sendo já amigo se procederá com bom | 
tento. | 

Os Falcões nebris querem caçador sofirido, o qual 
lhes não tirará o caparão senão quando quizer voar e 
lhe der de comer e a provar a agua, e na alcandora, 
e em o prado, como já dissemos; o que não tem to- 
dos os mais Falcões que soffrem verem gente, e 
estarem sem caparão em a mão. 

Quando o Falcão fôr tão duro de condição, que não 
obedeça pela regra acima, se haverá o caçador com 
elle ao contrario; á noite o leve d'onde haja pêégo com 
agua, ou em casa em uma bacia grande, ou alguidar 
bem cheio d'agua, o tome pelos sancos ambos, em- 
brulhando n'elles as avessadas, e com a mão direita 
assim atado o mergulhe todo na agua, dando com 
elle alguns golpes que o quebrante, de modo que se 
não possa elle ter em pé e trema, e está a perigo de 
morte, e quando esta obra se fizer não terá nada no 
papo, nem caparão na cabeça, e terá carnes e forças 
para soffrer o trabalho; e o enxugarão ao fogo, e 
aquella noite o deixem sem comer, mas com o caparão 
na cabeça. Sendo manhã lhe darão a degolar um 
frangão, e coma o coração e vermelhos, e beba d'a- 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA I5 


pr a ps Pr e Pr, 


«uelle sangue, de tudo pouco; e como fôr gastando 
rão tendo cuidado dando-lhe viandas boas de gas- 
ar, e trazel-o na mão, procedendo como fica dito. 

Eu fiz já esta boa obra a um gavião, e emendou-se. 

Pero Ferreira, meu pae, o fez a um sacre, e do dia 
que o comprou ao allemão a sete dias, entrou ao mi- 
lhano no ar, e me disse estando mergulhando o sa- 
cre em uma lagôa em Almeirim : 

— Hei-de fazer pasmar estes caçadores d'el-rei, os 
quaes sabendo que ao setimo dia treináramos o sa- 
cre, que era da companhia dos seus que ainda lhe 
“não saltavam na mão, o tiveram por cousa nova. 


CAPITULO VII 


Das gosmas 


osMAS são umas bostellas que nascem na bocca 

e ouvidos dos Falcões; procedem da agua que 

lhe corre pelos narizes e ventas em a bocca, 

e com a quentura se geram. 

São leves de curar. 

Tomem um pannosinho de linho e alimpem-lh'as, 
e tirem-lh'as, e borrifem-lhe a cabeça com agua-ar- 
dente ou vinho até que sare. 

Outras gosmas nascem dos Falcões serem gargan- 
tões, que com a carne comem os ossos e se ferem na 
bocca. 

Tambem estas não são de perigo. 

Tirar-lh'as-hão subtilmente com uma palheta, de- 
pois que tiverem materia, que não façam sangue, pon- 
do-lhe em cima um pequeno de mel, e guarecerá. 


” 


I6 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Outras ha que nascem na cabeça e ouvidos, estas 
inda os que não são caçadores as conhecem, porque 
estão na cabeça e ouvidos em bostellas pequenas co- 
mo grãos de milho, e as tem tambem por toda a boc- 
ca, e entram até á garganta, e são más de curar. 

Tiram-se com uma palheta, tambem se tiram com 
uma penna aparada, trabalhando quanto possivel fôr. 
por lhe não fazer sangue; e deitem-lhe em cima uma, 
pequena de pedra hume moida em pós nos logares | 
d'onde se tirarem as gosmas; e estará o Falcão der-. 
rubado um pouco até a pedra hume fazer sua obra, e 
far-lhe-hão isto de tres em tres dias. | 

Limpas as da cabeça e da bocca, lhe untarão com | 
geropiga e sarará ; sendo primeiro limpas com a pa- | 
lheta, que faça sangue não perde. 

As gosmas que estiverem nas orelhas se não sára | 
mais que tiral-as com a palheta, e pôr-lhe um peque- | 
no de algodão em cima; e se fará duas vezes ao dia. 

Acontece muitas vezes haver gosmas debaixo da, 
lingua, e o Falcão que as tem traz a bocca aberta. | 

Derrubado o falcão lh'as tirarão com a lanceta ou 
com a penna feita a modo d'ella, e lh'as untarão be 
de mel; e por que os Falcões que as tem na bocca 
não querem comer, lhe meterão dentro a comida com 
o dedo por não morrerem ao desamparo. 


4 


<T. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA I7 


CAPITULO VIII 


Do Falcão que amanhece com papo 


A 


UITOS caçadores cuidam que fazem mimos aos 

seus Falcões, principalmente quando matam 

alguma prisão, de gosto lhe dão grandes pa- 

pos descuidando-se da hora em que lhe dão de co- 

mer, e que vianda seja; e acontece não poder levar 

ao buxo, nem gastar o que o caçador lhe deu, por- 

que uns Falcões ha que mais depressa gastam o cor 

mer que outros, e dando-lhes de comer sem conside- 

ração, como digo, amanhecem com o papo por gas- 

tar, e é perigo, que de similhantes erros nascem doen- 
ças. 

A isto se accode com muita facilidade : 

Derrubarão o Falcão e lhe deitarão o papo fóra, 
como disse na criação dos Gaviões, sendo pequenos, 
onde o verá o caçador. 

Sendo eu moço, sahindo á caça com Fradique de 
Menezes, caçador do Adaião de Evora, largou o Açor 
a uma perdiz que elle levou nas mãos, e quando o 
acharam a tinha toda mettida no papo. 

O pobre caçador por trazer perdizes para o amo 
lhe deitou o papo fóra, estando eu presente, e depois: 
de sacudido tornou a caçar e tomou aquelle dia dez 
perdizes com elle. 

Depois de se lhe lançar a comida fóra do papo se 
porá d'ahi a um pouco na agua e se lhe dê a comer 
de alguma coisa boa de gastar, frangão ou rôla, ou 
de ave pequena e nova, que se póde suspeitar ser 
alguma indisposição, e se porá ao sol, e procedendo 


18 BrsLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


com elle até o caçador conhecer se foi de comer 
muito, ou de alguma indisposição; e se foi causa in- 
disposição alguma lhe darão a comer de um coração 
de carneiro, tirando-lhe a gordura e nervos, em agua 
morna, um par de dias, e depois como diz acima. 


CAPELULO IX 


Do Falcão que tem o papo cheio de vento 


ENDO O Falcão que tem o papo cheio de vento, 

e ainda que coma se lhe não sahe, lhe accu- 

dirá o caçador dando-lhe a comer pombas, e 
pombinhos vivos, e coma quanto quizer; e as mais 
pennas que se lhe poderem dar a comer envoltas com 
a carne se lhe darão; e isto farão tantas vezes até 
que sare, que podem ser tres ou quatro dias. 


CAPITULO X 


Do Falcão que tem plumadas velhas 


E os caçadores não advirtem cada dia se os 

Falcões tem feitas as plumadas, dando-lhe de 

comer, tendo-as no bucho, e á noite parecen- 
do-lhe que o seu Falcão a tem feita a noite atraz, lhe 
dá a outra em cima, e o erro é não terem lembrança 
de olharem cada dia se fez o Falcão aquella manhã 
plumada. 


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Arte DA Caça DE ÁLTANERIA I9 


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À este se conhece pela maneira seguinte: 

O Falcão que as tem, sendo já as plumadas podres, 
não póde comer como costumava d'antes que as ti- 
vesse, e se entristece, e cheira-lhe mal a bocca; então 
lhe apalpem o lugar onde tem o brcho, e d'este modo 
achando-lhe o bucho duro se conhece esta doença. 

O remedio é tomar manteiga fresca de vaccas, e 
não na achando fresca se lavará em nove aguas, e 
d'ella lhe déem pela bocca tania quantidade, como 
uma noz, e aquelle dia não coma cousa nenhuma ; ao 
outro dia logo lhe déem os tartaros, como fica-dito 
no capítulo 4.º——da purga, — ou lhe déem pós de ta- 
baco, que eu tenho por melhor, quantidade de um 
grão de ervilhaca envolto na carne; isto lhe darão 
antes de comer cousa alguma, que não duvide que em 
menos de meia hora deite o que tiver no bucho, e se 
se embebedar com isto não cuidem que é de morte. 

Depois lhe dêem de comer de um coração de car- 
neiro lavado em agua morna, bem limpo de gordura 
e nervos, e note-se que tolheduras faz. 

Ao outro dia se lhe dê um membro de gallinha, e 
mostrando melhoria lhe déem do coração lavado, 
como digo; entrepolando os dias, ora d'elle, ora gal- 
linha, e algumas vezes um torrãosinho de mel, pri- 
meiro que coma; e lhe darão sempre a comer taes 
viandas, que não levem nervos, nem ossos, nem pen- 
nas, e os Falcões doentes d'esta doença inda que gua- 
reçam se lhe não dará plumada, e sendo necessaria 
seja pequena e de algodão ou de pelle de lebre, digo 
cabello de lebre; não lhe falte sol nem agua. 


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20 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


LL LS II 


CAPITULO XI 


Do Falcão que tem o bucho inchado e grosso 


*sTA enfermidade se conhece quando perde a von- 

tade de comer e faz as tolheduras grossas e 

e n'ellas vem materia negra entre a branca, e 

apparecem umas caganitas como de rato, e o Falcão 
tolhe de tarde em tarde. 

A esta enfermidade se acode purgando o Falcão. 

Tome assucar candi pisado e miudo porque melhor 
vá ao bucho, e lh'o meta na bocca, e dês que fizer a 
tolhedura do assucar estará ao sol sempre até que fa- 
ça tolhedura como d'antes costumava, e prove-lhe a 
agua aquelle dia em jejum, e se lhe dê de comer de 
um coração de carneiro limpo de nervos e gordura, 
envolto em zaragatôõa, e se purgará como fica dito em 
o capitulo das plumadas velhas. Tambem se purgue 
tomando duas partes darmodatillis e uma de turbit e 
tres de assucar branco; estas cousas todas pisadas e 
peneiradas se darão ao Falcão conforme á pessoa 
d'elle; ao Gavião se dará quantidade d'uma plumada 
de Gavião, os pós embrulhados em uma pelle de pas- 
sarinho ; ao Falcão quantidade da plumada que se lhe 
costumava dar, envolta em uma pelle de gallinha, e o 
mesmo se fará a cada ave que se lhe quizer dar. 

Ao outro dia pela manhã lhe darão suas picadas 
de coração lavado, e d'ahi em diante sua vianda or- 
dinaria, e esta purga é sem perigo; e,o dia que se 
lhe der, coma de um coração de carneiro lavado em 
agua morna, e depois sua vianda ordinaria. 

A causa d'esta enfermidade é erro do caçador dan- 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 21 


do de comer demasiadamente ao Falcão, duas vezes 
ao dia, parecendo-lhe que acerta; e d'este comer mui- 
to, todos os dias, se enche o bucho e tripas de ma- 
teria, e assim perde a vontade de comer. 


CAPITULO XII 


Do Falcão que tem lombrigas 


oR não serem os Falcões purgados a seu tem- 

po, e terem o bucho sujo se geram as lombri- 

gas; que isto seja verdade se prova, purgando 

algumas vezes os caçadores aos Falcões com os 

tartaros ignorando haver lombrigas, por que com os 

tartaros as lançam não sendo ainda vivas, mas já en- 

gendradas; que se ellas vivas foram não as matariam 
os tartaros; mas mortifical-as-hião por alguns dias. 

Ainda que, digo mais, que os tartaros quando lh'os 
dão deitam a semente das lombrigas sómente verme- 
lhas como grãos; e dês que são geradas são más de 
lançar. 

Sendo vivas conhecer-se-ha tel-as o Falcão, por 
que vae muitas vezes com o bico ao oveiro, e se co- 
ça n'elle, e entre as pernas e no papo; algumas vezes 
não mostram estes signaes e tem lombrigas. 

Pelo que o caçador mui a miudo veja a tolhedura 
da sua ave, e se o Falcão as tem logo se verão na 
tolhedura, algumas vermelhas como bichinhos, e se 
collige quando isto fazem terem-as vivas, as quaes 
se geram de vianda grossa e dôce, pelo que se de- 
vem curar d'este modo : 

Tomem açafrão e mettam-no dentro em um cora- 


22 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


ção de gallinha, e dês que entender o caçador que 
está já esmoido no bucho, tomem semente de erva lom- 
brigueira e déem-lh'a em coração de gallinha, quan- 
tidade que bem se possa esconder a erva; e não ha- 
vendo isto tomem leite de cabras em um vaso limpo, 
e se ponha sobre o fogo brando, e n'este leite se dei- 
tem duas gemmas de ovos que serão mechidas até 
que se coalhem, e d'estes ovos se déem a comer ao 
Falcão; e como d'elles não tiver nada no papo lhe 
deem a erva lombrigueira, ou pós de losna metidos 
em uma tripa de gallinha, que faça vulto de uma 
avellã, por que estão as iombrigas movidas com o aça- 
frão, e com o doce mimosas, e indo o amargo as ma- 
ta, para o que se darão tambem as pilulas de azebre, 
feitas como ensina o capitulo da agua vidrada e da 
inchação do bucho. 


CAPITULO. XIII 


Das filandras ou filomeras 


sTA enfermidade pela maior parte é mortal nos 
Falcões por ser ao principio escura e difficul- 
tosa de conhecer. 

Quando estas filomeras ao principio se geram dá o 
Falcão muito com o bico nas costas a miudo e se 
sacode muitas vezes, e aperta a mão do caçador e es- 
tremece; e este se entende ser o principio d'ellas, e o 
caçador se deve rever na sua ave como a mulher no 
espelho, a isto se accode dando-lhe a comer tres dias 
da titella de um frangão molhado em xarope de lirio 
morno, como disse na purga dos Açores, e farão no- 


Eine o 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 23 


Pi 


ve pilulas de azebre sacotrim do tamanho cada uma 
de um gravanço pequeno, estas lhe darão tres cada 
dia, em nove dias, um dia sim outro não; e quando 
lh'as metterem na bocca se as quizer deitar lhe tapa- 
rão o bico; e este é o remedio que tem esta enfermi- 
dade; e o tempo mais perigoso é na muda ao derri- 
bar as thesouras. 

Os francezes por fugirem a este perigo compram 
por mais preço aos Falcões depois de mudados, que 
antes. 

E para evitarmos esta doença, que pela maior par- 
te em os Falcões é mortal, se lhe dará sangue de gal- 
linha tres vezes em a semana, e beba aquelle sangue 
como fica dito na regra dos nebris. 


CAPITULO XIV 


Do Falcão que tem pedra 


STA pedra vi eu muitas vezes em os Gaviões no- 
vos, quando os prendia, e lhe punha o caparão; 
com a mudança do estado, estando mais tempo 

sem fazer tolhedura do costumado, se lhe gerava esta 
doença. 

Em os Falcões se gera por comerem más viandas 
e grossas, e se ajunta na tripa que vae do bucho ao 
oveiro, e se faz uma pedra como giz de alfaiate. 

O Falcão que a tem commette a fazer tolhedura 
uma vez e outra, e não lança pelo oveiro mais que 
quanto 'lhe suje as pennas, e vae com o bico áquelle 
logar, e o cabo bolle e dá com elle na luva. 

Accode-se com lhe darem a comer semente de sal- 


24 BrsLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


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. 


sa misturada com a carne, ou em um coração de gal- 
linha, porque com isto se aparelha a materia. 

Depois d'isto feito lhe deem um pouco de mel 
duro do tamanho de uma noz feito em pedaços, e 
vendo que faz tolhedura do mesmo mel, dêem-lhe co- 
ração de carneiro com zaragatôa, e não na havendo, 
se dará manteiga crua, e se a pedra estiver já junto 
ao oveiro, e de grande a não poder lançar, derrube- 
se o Falcão e lave-se o oveiro com agua tibia, e apal- 
pe-se aquelle logar, e achando a pedra apertem-na 
mansamente com os dedos como quem espreme um 
leicenço, e com isto sahirá; e o mesmo dia lhe darão 
mel e coração de carneiro com a zaragatôa, e d'ahi a 
diante se governe com bôas viandas. 

Dura cousa me parece nas aves usar de ferro, mas 
se com os remedios não se poder o caçador valer, fa- 
rá como se costuma com os capões que os abrem 
para lhe tirarem os genitaes. 

A abertura se faz pelo vão da barriga por uma 
ilharga, tosquiando a parte, e para o caçador se asse- 
gurar, se metterá, de cada banda da abertura, uma li- 
nha com uma agulha; e atravessada se ajuntarão as 
pontas de cada parte, e abrirão o golpe, e com o de- 
do veja o caçador se a pode encaminhar ao oveiro, e 
não podendo ser, se rompa com a lanceta o logar 
d'onde estiver a pedra, e tirada se coza assim o logar 
d'onde a pedra se tirou, como a abertura, e lhe deita- 
rão sangue por cima, e a solda de que falla o capitulo 
atraz da perna quebrada; e se governe com boas 
viandas. 

Já se fez, e viveu o Falcão. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 286 


CAPITULO XV 


Da fistula que se faz em a ferida do Falcão 


uiros Falcões se ferem vindo cahindo ás adens 

com força, por se encontrarem com ramos 

de arvores ou mattas, e muitas vezes por se- 

rem feridos de garças e grous, e por serem as feri- 

das mal curadas se afistulam; sendo feitas em partes 
nervosas são duras de curar com medicamentos. 

A esta se accode com fogo. 

Toma-se um botão de ferro não vermelho de todo 
no fogo e se ponha na parte afistollada subtilmente ; 
e se no logar da fistula houver carne crescida se quei- 
mará com uma palheta, não vermelha no fogo, e em 
cima d'esta queimadura se untará com azeite ou man- 
teiga crua, e lhe deitarão em cima pós de alvaiade; e 
criará bostella grossa, e se n'elle criar alguma pe- 
quena de materia subtilmente lh'a tirem, e lhe lancem 
mais pós duas vezes ao dia, e assim guarecerá. 


26 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPITULO XVI 


Da comichão que os Falcões tem nas pennas e as tiram 
e comem 


o tempo que os Falcões mudam as pennas tem 

o corpo todo movido em sangue novo, e com 

a muita abundancia d'elle, e com lhe darem 

viandas quentes para lhe crescerem as pennas, se lhe 

faz um pruido e comichão no logar d'onde as pennas 

das azas e o cabo lhe apontam, estando assim em san- 

gue vão com o bico a eilas e as arrancam e comem, 
e é grande damno. 

O remedio para se acudir a esta comichão é tomar 
pós de azebre sacotrim envoltos em mel e por-lh'o 
n'aquelle logar d'onde tiver a comichão; e as pennas 
começarem de nascer, e para lhe applacarem o sangue 
lhe darão a comer frangão passado por agua cosida 
de malvas, e o trarão de continuo na mão até que se 
descuide o Falcão e se applaque a comichão. 

O azebre amarga muito, e com o mel posto n'aquel- | 
le logar indo o Falcão com a bocca, achando os amar- 
gos, não tornará como sohia. 

Tambem os pós da coloquintida, que ha na botica, 
farão o mesmo, que são muito mais amáros. 


ArtTE DA Caça DE ÁLTANERIA 27 


PRA APR rr rr rr riram 


CAPITULO XVI 


Da unha que se tira ou cahe ao Falcão 


PRINCIPAL COUSa que convem ter o caçador é ser 

e muito sofírido, por que as aves carecem de 

rasão, e com c mór soffrimento e prudencia 

fazem os Falcões tudo o que os homens d'elles que- 

rem; e não tendo soffrimento é muito pelo contra- 
rio. 

Pela qual rasão encommendo aos caçadores o sof- 
frimento, que ha muitos Falcões tão cainhos, famin- 
tos e apegadores, que estando aferrados na ave que 
matam, os não podem desaferrar d'ella; e o mesmo 
fazem quando lhe dão de comer, ferindo as mãos 
do caçador; e o mal sofirido os desaferra sem 
tento. 

E por estas e outras occasiões acontece arranca- 
rem-se-lhe as unhas aos Falcões em todo ou em parte, 
e se estiver ainda pegada e não sahida de todo, der- 
ribe-se logo e cortem-lhe a dita unha com a tenaz 
que não chegue ao vivo, e tomarão sangue de dragão 
e bollo armenico, azebre e solda, moido tudo muito 
bem; e d'aquelle pó se deite em cima da unha, pon- 
do-a em seu logar primeiro; e com um panno de li- 
nho delgado se coserá, que fique bem composta e 
apertada, e folgue até nove dias, tendo sempre o 
panno cosido; e se a unha fôr arrancada de todo, to- 
mem os ditos pós e cubram com elles a unha, met- 
tendo-a d'onde a unha sahiu, e tomem o mais delgado 
coiro de luva que se achar e cosam-n'o muito bem até 
por cima da junta. 


28 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Tambem pondo-lhe em cima fel de qualquer ani- 
mal com uma pelle de gallinha por cima faz o mesmo 
effeito, cosido como fica dito. 


CAPITULO XV 


Do Falcão que tem cravos nos pés 


STES cravos acontecem em todos os Falcões, e 

se fazem em as plantas e solas dos pés umas 

bostellinhas do tamanho de cravos pequenos, 
pelo que tem este nome, e os Falcões mais sujeitos a 
esta enfermidade são os gerifaltes, os quaes são gran- 
des e pesados, e com o peso do corpo e quentura dos 
pés carnosos, se lhe gera esta enfermidade, e é grande 
desgosto para os mesmos Falcões, os quaes com o re- 
ceio de lhe doerem as mãos deixam de apegar na 
caça. 
Esta doença é difficultosa por ser nos pés d'onde 
ha muitas juntas e nervos, e com o pezo do corpo da 
ave empede o effeito da mezinha, e se alonga a doença 
por mais tempo. 

Ao principio vendo que tem as mãos inchadas, o 
porão em cima de uma pedra redonda, da grossura 
da alcandora, e em cima d'ella um panno de linho 
dobrado quatro vezes, molhado em vinagre destem- 
perado, sobre o qual se porá o Falcão, burrifando- 
lhe as mãos a miudo com agua rosada, e não obede- 
cendo, lhe porão summo de limões misturado com aze- 
bre feito a modo de unguento, que é remedio mais 
poderoso e desseca os humores, e os reperverte e re- 
solve; e lh'o porão duas vezes ao dia, molhando os 


ARTE DA CAÇA DE ALTANERIA 29 


pannos no vinagre a miudo, e sendo caso que a en- 
fermidade vá por diante, e os cravos estejam apega- 
dos e de má feição, então lhe cortarão todas as unhas 
das mãos até que deitem sangue, e tomarão treben- 
tina e sabão francez e cinza de viáss, da cinza e sa- 
bão partes eguaes e da trebentina maior parte, e met- 
terão tudo em uma panella nova pequena, e se porá 
sobre as brazas, e ferva mexendo-a com um pau até 
que faça unguento um pouco duro, e frio de todo, 
d'este unguento se fará emplastro estendido sobre um 
couro de luva bem delgado, do tamanho da palma da 
mão do Falcão que tiver os cravos, e por entre os 
dedos sahirão umas línguas do mesmo couro para que 
se atem no sanco, e fique seguro, que se não des- 
aperte; e assim atado o deixarão em a alcandora por 
espaço de tres dias, e passados elles lh'o tirarão. E se 
aquellas bostellas se abalarem, como que querem 
sahir, tentem com a pinsa se o querem fazer, e não 
sahindo brandamente lhe tornem a pôr o mesmo em- 
plastro, e com isto sahirão os cravos, e depois de 
sahidos no logar d'onde se tiraram se deitem pós de 
verdete e de rasuras de pipa e de tutia partes iguaes, 
tudo bem moido e peneirado, e porão o mesmo couro 
com unguento amarello, e de tutia, e apostolorum 
misturado partes iguaes, lavando a mão do Falcão 
primeiro com vinho cosido com rosas seccas e ale- 
crim e maçãs de cyprestes; seja o vinho misturado e 
meado com agua; hade ferver tudo que mingue a 
metade. 

Este lavatorio se usará depois que os cravos de to- 
do forem fóra, que o lavatorio se uza para alimpar 
a chaga que ficou dos cravos e de seccar os humores. 

E de tres em tres dias lhe ponham umguento apos- 
tolorum que tem potencia de alimpar similhantes cha- 
gas; e procedendo d'esta arte sarará. 


30 BreLIOTHECA DE CLassicos PORTUGUEZES 


Depois se terá cuidado de o porem sobre os pan- 
nos de vinagre, ou em cima de uma almofada de ro- 
sas seccas, burrifando-lhe as mãos com agua rosada 
ou vinagre que lh'as esfrie. 


CAPITULO XIX 


Do Falcão que tem os pes inchados 


Incham os pés algumas vezes aos Falcões por te- 
rem as piós apertadas, e de mau couro, e sendo o Fal- 
cão debatidisso muito mais, o que se faz por culpa 
dos caçadores, e se as piós forem causa da inchação 
se cortarão, e em seu logar lhe porão umas de hol- 
landa, e lhe cortarão as unhas dos dedos da mão in- 
chada até deitar sangue, e depois lhe untarão o pé 
doente com umguento de althéa, duas vezes ao dia, 
e sendo caso que não desinchem, e se lhe façam uns 
nós, e gudilhões do tamanho de grãos pequenos, to- 
mem summo de limões com pós da entrecasca de so- 
vereira, com que curtem as solas, bem moidos e pe- 
neirados, e como emplasto o ponham em cima dos nós 
e durezas, que as desfará; e o mesmo a inchação das 
mãos que apertam e desecam muito, e ficando as 
duresas sem se resolverem não se canse o caçador, 
que estas se tiram com uma lanceta e botões de fogo ; 
mas antes que se deite mão ao ferro, com unguento 
de althéa procederão abrandando-os. 

O botão de fogo que se der será quente, mas não 
feito brasa, e sendo caso que a ave que taes nós ti- 
ver não deixe as ralés, e as tenha até as entregar 
dissimulem com elle, que pode acontecer sendo o 


E 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 31 


fogo dado por caçador pouco esperto, lhe faça o bo- 
tão de fogo mais mai que o que d'antes tinha. 

E se todavia lhe derem botão de fogo, lhe porão 
em cima manteiga crua ou unto de garça, e alvaiade. 


CAPITULO XX 


Do Falcão que tem perna quebrada 


São tantos os acontecimentos que na caça aconte- 
cem, e tão alheios de credito, que se não forem vis- 
tos com os olhos, ou contados a caçadores, se não 
podem dizer, como aconselha D. Jorge Manriques — 
Las cosas de admiracion non las cuentes, que no sa- 
ben todas gentes quales son. 

Contar que um Falcão tão pequeno como é um ta- 
garote, de um golpe derriba um cysne e uma garça, 
e mata um grou, ave tão grande como um homem, 
que quem o não vir, o não podera crêr. 

A um Falcão meu altaneiro se quebrou uma perna 
golpeando as adens afferrando n'ellas no ar, e vindo 
abaixo trazia a perna quebrada pela coxa; acode-se 
a isto por esta maneira : 

Tome incenso e almécega, e sangue de drago, e 
pedra sanguinha, tanto de uma como de outra, e moi- 
do tudo bem, cada cousa por si, e a misturem com 
uma pequena de farinha de trigo, quanto seja a quarta 
parte dos pós, e 2 amassarão com clara de ovo bem 
batida, de maneira que se tire toda a escuma, e com 
a massa que de tudo isto se fizer derrubem o Falcão, 
e sea perna fôr quebrada pela coxa, tosquiar-lhe-hão 
as pennas, e de cannas farão umas canellas á feição 


a2 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


de taboinhas delgadas do comprimento necessario, 
que bem tome a quebradura, tendo conta que fique 
a perna bem limpa sem pennas, e untem-lhe a perna 
com o sobredito umguento, e lh'o ponham á maneira 
de emplasto, pondo-lhe em cima estopas de sedas 
brancas, sem nós, e cubram-n'as d'aquelle emplasto; 
e depois do emplasto posto sobre as estopas, se porá 
as cannas lisas ao derredor da perna; e tomem um 
panno de linho do comprimento das cannas, e o en- 
volverão muitas vezes por cima das cannas apertan- 
do-o de modo que pareça ser necessario, e por cima 
o apertarão com uma linha e o coserão de modo que 
se não affrouxe; e dêem-lhe logo de comer solda, 
quantidade de um gravanço, e se a não quizer comer 
lh'a metam pela bocca. 

A solda melhor de todas se faz tomando momia, 
que tem os boticarios, e pez e a zaragatõa, e semente 
da erva menodilha, que chamam solda menor, e se- 
mente de masturços, e solda raça de Allemanha. 

E tomar-se-ha da solda menodilha uma parte e 
a respeito d'esta parte se toma a quarta de pez e za- 
ragatôa e semente de masturços e da momia a oitava, 
e cada uma d'estas cousas moida por si muito bem, e 
misturar-se-hão todos estes pós, e depois de serem en- 
voltos se metam em um saquete de couro, e pondo-os 
ao sol bem calcados com as mãos; e se não fizer sol 
meta-se no céu junto á carne. 

Do meu conselho todos os caçadores, principalmen- 
te os móres, tenham comsigo esta solda, que é ex- 
cellentissima, e não n'a havendo preparada, lhe po- 
dem dar semente de masturços, ou solda momia de 
tres em tres dias, mettida em um coração de galli- 
nha, do tamanho de um gravanço, seja a solda que 
se der, como fica dito. 

O comer seja frangão, gallinha, rôlla, pombos e a 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 33 


comida seja picada de maneira que não tenha tra- 
balho, nem se estribe sobre a perna doente; e passa- 
dos vinte e um dias, se lhe desatem aquellas atadu- 
ras, e lhe deem de comer em a mão até estar bem es- 
forçado, pondo-o de dia na alcandora, e de noite so- 
bre uma táboa, d'onde estará dês do principio da cu- 
ra, para que se quizer deitar o possa fazer, e assim 
guarecerá; e sendo quebrada pelo sanco se curará da 
mesma maneira tirando-lhe a pió e cascavel. 

Disse fossem as estopas de sêda por mais branda 
e macia, e em seu lugar se podem pôr as de linho, ou 
o mesmo linho. 


CAPITULO XXI 


Do Falcão que se lhe quebra a aza 


o capitulo atraz disse as occaziões pelas quaes 
acontecia quebrarem-se as pernas aos Falcões ; 
as mesmas e ainda mais acontecem no quebrar 

das azas, por que além de brigando com as ralés se 
lhe quebrarem muitas vezes, perseguidas as meãs e 
garçotas dos Falcões, se acolhem ao gado, parecendo- 
lhe que podem assim escapar á furia dos Falcões, e os 
mesmos animaes com os pés lh'as quebram, e ainda os 
matam. 

A mim me aconteceu, largando um Açor, ella de 
medo se acolheu entre uns porcos, o Açor por ella 
se metter debaixo de um, afferrou n'elle, o qual com 
a dôr levantou tal voz e gazeo que ajuntou todo o re- 
banho, e quando tirei o meu Açõr livre o tive a grão 
ventura, e por similhantes successos e outros muitos 
se quebram as azas aos Falcões, ao que se accode 


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34 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


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d'este modo, tosquiando as pennas da aza quebrada, 
e depois lhe egualem os ossos pondo-os em sua pro- 
porção, e lhe porão o emplasto pelo modo que disse 
da perna quebrada, com as mesmas cannas, estopas 
e ataduras feitas com arte, conforme a quebradura, 
pondo-lhe as cannas em cima das estopas, as quaes 
atarão com um fio que fiquem firmes, e por cima se 
porá um panno de linho delgado e limpo, e se cosa 
que fique bem firme. 

Tendo isto feito lhe encolherão a aza como o Fal- 
cão a costuma a ter, e a embrulharão assim em um 
panno, cozendo tudo junto; da aza e do panno sahirá 
uma tira da largura de um dedo com que atiavessan- 
do o peito por baixo do papo cingirão o Falcão, e 
mettendo-lhe a tira por debaixo da aza tornarão a 
cozel-a na mesma tira de modo que fique sempre a 
aza encolhida n'aquelle logar que convem para sol- 
dar; e a mesma quebradura ensinará o modo que se 
ha de ter com ella, que o mais deixo ao engenho de 
cada um, e se lhe dará a solda como fica dito; e no 
primeiro dia que se curar estará encamisado tanto 
tempo até que o emplasto se seque, e estando secco 
se desencamisará o Falcão, e se porá em cima de uma 
tabua chã, em que se deite se quizer, atado pelas 
avessadas, e estará assim vinte e um dias. 

O comer seja, segundo dissemos da perna quebra- 
da, e esteja sem voar até passar a muda e cobre pen- 
nas novas, e não haja duvida em guarecer, que eu 
vi um Falcão com uma aza quebrada curado por esta 
ordem, e ser depois tão bom como d'antes era. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 35 


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CAPITULO XXI 


Do Falcão que se lhe queira o olho 


E por alguma occasião se quebrar o olho do 
Falcão ou outra qualquer ave, se curará d'esta 
maneira: 

Tomem herva andorinha e bulça pastoris, e pizem 
cada uma por si e lhe tirem os summos, os quaes jun- 
tos se deitarão no olho da ave embrulhado em uma 
gotta de mel; o que se fará com uma penna, estando 
o Falcão derribado, e depois de lhe terem deitado es- 
tes summos lhe metterão o caparão; e esteja o Fal- 
cão derribado até lhe parecer que está o summo con- 
sumido, porque o não sacuda, e tenham por certo 
que se a menina não fôr ferida que cobrará toda a 
vista, e se ferida fôr ficará com a formozura do olho 
ainda que não veja. 

Esta mezinha se fará duas vezes ao dia até o olho 
ficar com a formosura que d'antes tinha, e ficando-lhe 
nuvem lhe deite o pó de coral branco moido e bem 
peneirado, e assim ficará são. 


CAPITULO XXIII 


Do Falcão que tem inchação entre o couro e a carne 


CONTECENDO ter o Falcão entre o couro e a car- 

df ne aposthema cheia de vento, que é mui feio 

nas aves, se curará mui facilmente, tomando a 

lanceta delgada e dando-lhe com ella uma picada 

d'onde o vento está, e sahido o vento tomarão losna 

cosida em vinho branco e com este cosimento morno 
lavem aquelle logar, e logo será são. 


CAPITULO XXXIV 


Do Falcão que regeita o que come, e tem as tripas frias 


or descuido do caçador e não ter cuidado de 

dar no inverno as plumadas necessarias aos 

Falcões e Açores, e darem-lhe a comer a car- 

ne fria em tempo de inverno, e estarem em casas 

ventosas e de telhavã em tempos frios, sucecede adoe- 

cerem d'esta enfermidade, e é mui perigosa e má de 
guarecer, porque lhe esfria o papo e bucho. 

Esta doença se conhece quando o Falcão regeita a 
miudo e não logra o que come, e mostra ter vontade 
de comer e bom semblante, mas como vae emma- 
grecendo se vem a entristecer. 

Convém antes que tenha este signal accudir-lhe 
logo, porque depois nenhum remedio tem, porque tem 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 37 


o bucho franzido e encolhido, e o papo não quer re- 
ceber em si cousa alguma ; a esta enfermidade se ac- 
cudirá por este modo: 

Tomem pombinhos novos e affoguem-nos por este 
modo, que é quebrando-lhe o osso do pescoço junto 
á cabeça, sem lhe romper a pelle, e estando cabeça 
abaixo se lhe ajunta todo o sangue n'aquella parte do 
pescoço quebrado, e este sangue assim coalhado e 
quente, lhe darão a comer tres vezes ao dia, e d'ahi 
em diante o mesmo sangue, e a titella, comendo pou- 
co e a miudo, e boas viandas; e por não vir a mal 
tamanho farão como encomendo no regimento e re- 
gra do Açor. 


CAPITULO XXV 


Da ferida que o Falcão tem aberta ou cerrada 


ENDO o Falcão ferido se tosquiará a parte de 
onde a ferida estiver, e se fôr grande e com- 
prida, e estiver com pennas ou terra a alimpa- 

rão e a cozerão, tomando com a agulha alguma pe- 
quena de carne para que assim fique mais firme e 
solde melhor, e atarão cada ponto sobre si, e lhe dei- 
tarão em cima a solda que disse no capitulo da per- 
na quebrada ; e sendo sã lhe cortarão os pontos, e lhe 
tirarão a linha. 

E sendo a chaga aberta se lavará com cosimento 
de losna, tantas vezes até que o couro que d'antes 
estava verde se torne da côr do outro, e se a ferida 
ou chaga fôr entrando por baixo do couro se lhe rom- 
perá, e o lavarão com a mesma losna, como dito é, e 


2 


38 BreLIOTHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


sea chaga fôr funda, depois de lavada lhe deitem pós 
de alecrim bem peneirados, e o lavarão com cosimento 
de losna e vinho morno, e assim procederão até que 
sare. 


CAPITULO XXVI 


Das debateduras e cahidas do Falcão 


us 


À CONTECE cahir a alcandoria por descuido junta- 
mente com o Falcão, e elle ser debatidiço, e 
da queda e debateduras deitar sangue pela 
bocca. 

Para isto tomem sangue de drago e momia e aça- 
frão, e tudo pisado junto se dará ao Falcão em uma 
perna de gallinha quanto seja uma plumada, e a carne 
que depois se lhe der seja passada por cosimento de 
herva escabriosa, e sara. 


CAPITULO XANA 


Do Falcão que tem as tripas fóra 


enDO O Falcão as tripas fóra, se abrirá um pom- 

binho pelas costas, e assim quente e quasi vi- 

vo, se porá sobre as tripas do Falcão, e estan- 

do ellas quentes lh'as metterão onde sahiram, e cose- 
& rão a ferida por cima, alimpando-lhe primeiro a fe- 
rida das cousas estranhas, e tosquiando as pennas do 
logar da ferida, então lhe cozerão o logar por d'onde 


tw 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 39 


as tripas sahiram, como os cortidores cozem as pel- 
les, e sobre a costura untarão a parte com o sangue 
de pombinhos, e em cima d'elle se deitará solda, que 
fica dita, ou pós de incenso macho, e o mesmo farão 
pós de alecrim bem peneirados. 


CAPITULO XXVII 


Do tropiguo do Falcão ou impação 


os Falcões se geram tropesias assim como em 

homens, á qual doença os caçadores com no- 

me rustico chamam tropiguo ou impação, que 

fica quasi respondendo ao nome que verdadeiramente 
é seu de tropesia. 

Os Falcões que padecem esta enfermidade se lhe 
incha o ventre (como os homens a barriga e o esto- 
mago) e se lhe seccam as coxas, e as tolheduras são 
desvariadas, sujas e frouxas, e não perdem o comer ; 
mas no ventre tem uma aposthema, e vulto tamanho 
como um ovo. 

Os Falcões a quem este mal mais acontece são os 
gerifaltes, por serem pesados e afogadiços, e de sua 
natureza queixosos; e se a estes acontece descuido, fi- 
cando na alcandora se debatem, e dão golpes e se 
quebrantam, e de se lhe não darem as plumadas ne- 
cessarias, havendo humores, e de comeres desordenados 
se lhe gera este mal esquentando-se aquella bexiga e 
aposthema que traz no ventre, de modo que abrasa e 
apodrece as entranhas, figados e bucho do Falcão, que 
chega ao ultimo da vida. 

Accode-se a esta enfermidade derribando o Falcão, 


40 BreLIOTHECA DE CLAssicos PoRTUGUEZES 


ram 


e com as avessadas lhe atem as mãos, e com uma 
thesoura boa lhe tosquiem o ventre bem limpo de pen- 
nas e penungem, e tendo o ventre tosquiado lhe po- 
nham as costas para baixo, e o ventre para cima, € 
com uma lanceta lhe abram o ventre, começando da 
ponta do peito em direito do oveiro, não chegando a 
elle, que a abertura e golpe que se ha-de abrir não 
será maior que quanto se coza com tres pontos, não 
sendo mais entre ponto e ponto de distancia de meio 
dêdo; e lhe deitarão a agua da posthema fóra de todo, 
e cozerão a abertura como fica dito no capitulo do 
Falcão das tripas fóra, que é como os cortidores co- 
zem as pelles, a qual obra para ser feita com arte, a 
faça um cirurgião que tem apparelho e costume; e 
por cima da costura lhe deitem do sangue de uma 
gallinha. 

E se digo que por cima lhe deitem sangue, é por 
que o ventre é logar de pouco sangue, e tem neces- 
sidade d'elle para soldar; e cobrirão a parte ferida e 
cozida com solda dita no capitulo desasete, da unha 
fóra, e depois tomem da solda de que fala o capi- 
tulo da perna quebrada, e d'esta se dê ao Falcão a 
quantidade de um grão de comer, se lhe metta pela 
bocca, e todo este dia se não bulla, e esteja encami- 
sado em um panno de linho, deitado sobre um cabeçal, 
o ventre abaixo; e á noite se lhe dê de comer meia 
perna de gallinha picada, e seja tirado o escudete, 
que é aquella parte de fôra; e se o não quizer comer 
se lhe metterá por força na bocca, e este encamisado 
nove dias, e n'elles se lhe dê sempre de tres em tres 
dias sua solda em um coração de gallinha, quantia 
de um grão de comer, e ao cabo d'elles se desembo- 
rilhe, e se ponha em uma boa alcandora, com sua al- 
mofada debaixo das mãos; ha-de ser de panno bran- 
do de lã, cheia da mesma, e se não quizer estar segu- 


é ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 41 


ro, se ponha sobre uma táboa, e pregado n'ella um 
panno de muitas dobras, porque esteja quente, ea 
casa sem vento, nem fumo, e quente; e ao decimo 
dia, ou ao outro onzeno, se coza losna em vinho bran- - 
co em uma panella pequena e ferva até que seja co- 
zida, e com este cozimento se lave cada dia aquella 
chaga, e assim esteja quieto e coma picada a carne; 
por dez ou doze dias sejam as viandes boas e depois 
coma por seu bico, e se lhe não déem plumadas ; e 
d'esta arte se ha-de haver o que curar esta doença 
antes que o figado e buxo seja esquentado, e sarará. 

E se o Falcão tiver o figado e buxo damnado, está 
em duvida se guarecerá ou não, pelo que convem se- 
ja o caçador cuidadoso e veja se o seu Falcão muda 
o semblante, e que doença tem, para lhe accudir a 
tempo com os remedios necessarios, que a tempo Ih'os 
podem fazer que não approveitem. 


CAPITULO XXIX 


De como se deve fazer «a muda ao Falcão 


s Falcões bafaris e sardos, malhorquins, e os 

tagarotes da Romania, são os que mais de- 

pressa começam a mudar, e assim sahem mais 
temporãos. 

Eu vi um Falcão bafari que em a primeira semana 
d'agosto sahiu da muda deceinado, e aquella mesma 
- semana o cevaram; mas commummente começam a mu- 
dar na primeira semana de junho, e uns são mais tem- 
porãos que outros. 

A muda e casa d'onde hão de mudar seja sem fu- 


42 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


mo e quieta, e que não tenha mais de uma janella que 
se abra, quando quizer o caçador, porque o Falcão 
está quieto. 

A alcandora se fará alta da terra, por causa de hu- 
midade, em tábuas e páus rijos; e na casa tenha al- 
guma pedra, e a casa sempre limpa, e tenha sua area, 
e de noite candêa acceza; e algumas vezes se lhe po- 
nham torrões com hervas verdes, que pareça campo; 
para que com aquella verdura tome prazer, coma 
em a mão quando elle quizer, principalmente á tarde, 
attentando que semblante tem, por que estando tris- 
te, «se houver mister ser curado, se cure. 


CAPITULOKAM 


De alguns Falcões que não querem mudar 


OMEÇANDO já os Falcões a derribar as pennas 

como as corvas junto aos cutellos, traga-se 

na mão, e não se ponha na muda até que der- 

ribe as pennas do cabo, e coma quanto quizer de 
boas viandas, e des que tiver derribado se porá 
na muda, e deem-lhe rôlas bem cevadas e gordas, e 
pombinhos enxutos, principalmente quando governar 
as pennas maiores, e quando lhe derem as aves sejam 
depennadas e bem limpas com um panno, do piolho; 
e muitas vezes, ainda que assim sejam bem tratados 
deixam de mudar por não entrarem na muda purga- 
dos, e outros pelo escandalo que tomam da casa em 
que os póem; e se por caso da doença deixar de mu- 
dar, considera o caçador qual seja, e conhecida cure 
d'elle, segundo disse em cada capitulo, e se deixa de 


- 
Es 


TE ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 43 


LL A 


mudar por não estar purgado não se haja o caçador 
por sem culpa; e se o Falcão deixa de mudar por or- 
gulho e não querer socegar, a isto se accode ti- 
rando-se da muda, dando-lhe a comer pouco, tres ou 
quatro dias, de maneira que venha a ter boa fome, e 
torne-se á casa, e lhe irão dando pouco de comer até 
que socegue, e não tão pouco que emmagreça, mas 
moderamente. 

D'ahi em diante se lhe dêem boas viandas, e de 
oito em oito dias se lhe dê um papo de carne de car- 
neiro, de perna fresca e quente, para assim desenfas- 
tiar. 

Ao principio da muda lhe dê rôlas, que são muito 
boas para se porem os Falcões em carne. 

Depois que começam a derribar as pennas reaes, 
são bons os pombinhos, que ajudam a crescer as pen- 
nas grandes e assignaladamente os cutellos maiores, 
que estão em logar de pouca carne, que são as azas 
e hão mister ajuda. 

Os pombinhos enxutos é a melhor vianda que se 
lhe póde então dar. 

Bom é mudar-lhe as viandas porque não enfastiem. 

Tambem é bom dar-lhe as landoas dos bodes e ca- 
bras, as quaes se acham em o pescoço de traz da gar- 
ganta e nas orelhas, e se lhe darão duas vezes na se- 
mana, e de cada vez lhe darão seu papo d'ellas; e se 
o Falcão as não quizer comer, dêem-lhe outras vian- 
das, tentando-lhe ás vezes as landoas até que de todo 
comece a mudar bem. 

Os ratos fazem mudar os Falcões estranhamente, 
dando-lh'os a eomer com pelle e tudo, e não esque- 
çam pombinhos enxutos, porque com elles se criam 
bem as pennas. 


44 BrsciorHECA DE Crassicos PORTUGUEZES 


CAPITULO XXXI 


Como se haverá o caçador com o Falcão depois de 
mudado 


epoIs que o Falcão tem derribado todo o gran- 
dee está em o cutello derradeiro e thezoura, 
tire-se-lhe a carne, dando-lhe menos de co- 
mer, de modo que coma com fome, e vá diminuindo 
de seu vagar a enxunda, e aquelle sahirá da muda mais 
seguro, que fôr assim tratado, porque sahindo carre- 
gado de carnes é grande perigo, porque se se debate 
quebra-se-lhe a enxunda, e nunca aquelle anno anda 
como deve, nem o caçador o pode ordenar como 
convem: e dês que tiver os cutellos ou thezouras der- 
ribado, e a ponta comprimento de dois dedos, tire-se 
da muda á noite, e em a mão ande um pedaço de 
noite e á madrugada. 

O comer sejam frangãos pequenos afogados em 
agua fria para refrescar, e d'elles se lhes faça bom 
papo, e a alcandora seja segura e em casa segura, na 
qual não entre cousa que o espante, e á tarde o to- 
marão na mão, e irão procedendo de maneira que se 
lhe gaste a enxunda, e não fique magro; e dês que 
fôr deceinado o chamarão ao rol, á tira de perto, e 
seja rosto a riba, porque assim se deceina; e não es- 
queçam plumadas dos ossos das juntas mastigadas e 
molhadas em agua tibea, dês que houver fome, que 
emquanto a não tiver as não quererá tomar. 


Dn de SS 


4 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 45 


CAPITULO XXXII 


Das pennas quebradas, e como se enxirem 


E muitas maneiras quebram as pennas aos 
Falcões e Açores, a alguns tomando aves 
grandes, como são grous, abetardas e patas 

bravas, andando n'aquella lucta agarrados, antes de 
serem soccorridos, se lhe quebram as pennas do cabo 
e azas. 

Outras vezes por descuido do caçador, deixando 
esquecida a sua ave na alcandora, se debate, e com 
as debateduras as pennas se lhe torcem e quebram ; 
se depois de torcidas e amolgadas lhe não accodem e 
as endireitam, é culpa grande do caçador. 

Tambem quebram aos que vem do mar em fóra 
trazidos por pessoa que os não sabem tratar. 

Eu vi alguns tão decotados, que não tinham pennas 
nas azas e cabo, que sãos estivessem; algumas vezes 
quebram por dentro da carne até o vivo d'ellas, ao 
redondo, outras fendem pelo meio ao comprido, e al- 
gumas de modo que se pode temer poderem mudar 
por se não poder valer a ave com o bico, por esta- 
rem mui rentes com a carne. 

O remedio que n'este caso se terá, é tomarem umas 
torquezes pequenas feitas a modo de pinças, e não se- 
jam agudas que cortem a penna. 

A ave que tal penna tiver quebrada se derrube, e 
com as tenazes apeguem d'aquella penna, e tirem-lha, 
e no buraco se lhe metta um grão de cevada, esbur- 
gado e limpo, porque o buraco d'onde a penna sahiu 
se não serre, e solde uma carne com a outra, e não 


A 


46 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


voarão com a ave a que isto acontecer até que a 
penna lhe não venha nascendo de todo. 

Isto se faz ás pennas maiores, que estão assentadas 
nos logares pobres de governo, e lhe darão a comer 
boas viandas para que lhe venha a penna bem forni- 
da, porque se não fôr bem governada pode-se temer 
não nascer a penna como convem, e sendo caso que 
dentro na carne lhe fique o canno redondo em modo 
que se lhe possa metter outra penna similhante, se o 
Falcão fôr nebri, a penna seja de nebri, se de gerifalte 
a penna seja de gerifalte, se prima fôr o Falcão a pen- 
na seja de Falcão prima, e se de treçó fôr, seja de 
treçó; e sendo da aza direita a penna que faltar, a 
que se pozer seja da mesma aza, e se possivel fôr, 
sendo mudado, seja a penna do Falcão mudada, e 
sendo pello o mesmo; e não havendo tal penna se ha- 
verá d'outra similhante que melhor quadre, pelo que 
o caçador deve de guardar as pennas para casos si- 
milhantes, e tendo similhantes pennas se egualarão 
áquellas que estão quebradas, nas quaes se hão de pôr 
a enxerir as que se pozerem; e seja a que se pozer da 
aza similhante, como já disse; se faltar penna da aza 
direita, seja a que se pozer da aza direita, e do mes- 
mo logar, e se é o cutello primeiro, se segundo, e 
alli tomem a tal penna e fender-se-ha de modo que 
possa entrar dentro do outro canno até junto do vivo, 
e não se fará esta obra entrando tanto a penna pia se 
de a ave a que se pozer. 

E á penna fendida que se ha de metter dentro no 
canno, se lhe porá uma pequena de terbentina na fen- 
dedura que se lhe fez; e assim se ha de metter na 
penna da ave para que fique firme, e conglutine; e 
depois tomarão uma sovella muito subtil, e com ella 
atravessarão o canno que tem dentro a penna que se 
lhe metteu, e atravessarão com o canno que tem den- 


a 


a 
4 


Ex 


A RO da A 
DSO. 
e 


=, ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 47 


tro a penna que lhe enxeriram; e pelos buracos da 
sovella metterão das pennas de perdiz, das que trazem 
nas azas junto ao cabo, que são curiosas e brandas, e 
se torcem sem quebrar, e primeiro as alimparão do 
frouxel que tem, e dês que as meiterem cortem-se 
com um cannivete junto ao canno, d'onde fica a obra 
feita, advertindo que se ha de ter conta com ficar a 
penna bem direita como as mais, e assim, d'este mo- 
de, se faz obra excellentemente. 

E se a penna fôr quebrada entre a penna e o mo- 
ciço de modo que o canno fique inteiro, então toma- 
rão a penna que se trouxe, e se fará como já disse, 

- fendendo-a ao comprido, mettendo-a pelo outro canno 
da ave, de modo que encache bem uma com outra, e 
tal como esta não tem necessidade de sovella, por- 
que entrada no canno da outra ave engrossa, e esta 
a faz firme. 

Advirtindo que quando se entrarem estas pennas 
pelas outras, encolham o canno das pennas que se 
houverem de metter, e para isso se mandam fender, 
porque não arrebente o canno em que se mettem, as 
quaes depois de estarem mettidas engrossam e endu- 
recem, e não é inconveniente á fenda, e toma me- 
lhor a terbentina. 

-* Às pennas que estiverem quebradas fóra do canno, 
pelo mociço, ou por qualquer logar que seja, ou del- 
gado, ou mais grosso, tomarão a penna que houve- 
rem de enxerir, e a medirão que fique do mesmo 
comprimento, nem mais, nem menos, e contar-se-hão 
as pennas tambem da ave egualadas de tal arte que 
se não cortem as pennas meudas, que fiquem justas 
ambas; assim a que se houver de pôr como a do 
Falcão ou Açor, ou outra qualquer ave, que as que 
estão na ave se se cortarem redondas ficam muito 
feias, e não é feita a obra segundo arte; pelo que 


48 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


advirto o que esta obra fizer, que resguarde as pen- 
nas meudas pegadas ao firme, que fiquem á feição de 
forcado, com que revolvem o trigo; e para se fazer 
sem cortarem as pennas meudas as podem cortar 
com canivete bem agudo, e molhem as duas pennas 
nol ogar em que se ha-de metter, a agulha com agua 
morna. 

Estas pennas se enxirem com agulhas de duas pon- 
tas, as quaes o caçador terá umas maiores, outras me- 
nores, outras mais pequenas e delgadas, as maiores 
para as pennas grossas, as mais cada uma para seu 
logar; e hão-de ser de tres quinas de ponta á pon- 
ta, umas pouco levantadas no meio, com algumas pi- 
caduras ao revés, como as que tem as limas, por- 
que depois que entrarem nas pennas não possam 
sahir. 

Estas picaduras não sejam muito asperas, nem se 
façam se não junto ao meio da agulha, onde hão-de 
ser algum pouco mais grossas; e affirmo que estas 
muito poucas vezes se acham feitas como convem, 
pelo que se hão-de mandar fazer e trazel-as o caça- 
dor comsigo, e não sejam muito longas, e quando se 
pozerem saiba o caçador escolher a agulha para o 
logar, e penna em que se ha-de enxerir. 

Quando a metterem na penna se molhará em sal e 
agua, ou em um alho, porque se mette agulha na 
penna que se ha-de enxerir, e ajuntar com a da ave, 
levando-a o caçador na mão, e a enxir com facili- 
dade. 

E todas estas coisas se farão com bom tento, e não 
se enxerirá torcida, nem fóra de medida. 

E quem bem o souber fazer não se conhecerá se 
foi enxerida, sendo a que se pozer da mesma côr. 

E para isto sempre andará o caçador apercebido 
de boas agulhas de toda a sorte, como já disse, 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 49 


oa a A 


maiores e menores, e agudas para pennas e cutellos 
e thesouras; eas trará o caçador andando á caça, de 
inverno, porque sendo necessario accudam logo ao 
remedio. 

E para evitar quebrarem-se as pennas da ave, o 
caçador terá cuidado das aves que tiver a cargo, 
vendo se tem pennas torcidas ou amolgadas e vendo 
que ha n'ellas retorceduras, então tomem agua quente 
pouco mais de morna, e a deitem em uma procella- 
na limpa, e n'esta agua metterá a penna que quizer 
concertar, e dês que estiver bem soldada, com a mão 
se indireitará, com os dedos molhados na agua propria 
quente e com estopas correndo a penna com ellas mo- 
lhadas na dita agua, e depois a ave terá cuidado e a 
correrá com o bico, e se porventura a penna estiver 
amolgada, e quebrada, mas tal que não esteja de todo 
partida, tome então um tallo de couve, aquente-se 
em pequeno borralho, e sendo quente se tire, e se 
abra ao comprimento, e n'aquella abertura e fenda 
se metterá a penna amolgada e quasi quebrada; e 
soldará estando a penna no tallo mettida por um 
pouco n'aquella fendidura da couve e tallo. 


FOL. 3 VOL. II 


so BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


LNLS AAA AAA AS 


PSI 


CAPITUEO; X KA 


Da tinha que póde acontecer ás aves de caça dal- 
taneria 


ave que tem esta doença lhe nascem bostellas 

pelas coxas e cabeça, e ao redor do ouveiro e 

do bico, e são a modo de uma carepa, que 
aonde está nas aves se come a penna, e nos sancos 
as conchas, e quando as aves tiverem tal enfermi- 
dade, derrubar-se-ha, e lhe untarão os logares d'onde' 
esta carepa e sarna estiver com azeite d'oliveira, ou 
manteiga crua. 

E ao dia seguinte a derrubem, e com um canivete 
que tenha boa ponta o alimpem de toda aquella im- 
mundicia e carepa, e não estando branda que com 
facilidade se desarreigue e tire, o tornem a untar 
comosd'antes; e ao outro dia lh'a torne a tirar o me- 
lhor que poderem, e tendo feito isto tomem uma 
lima, e com o summo d'ella lhe esfreguem as partes 
d'onde lh'a tiraram, muito bem, de arte que se não 
trate mal a ave, e se da primeira vez não sarar, con- 
tinuem com o summo da lima, que com elle será 
são. 

E se fôr tempo de muda melhor, que mudará as 
pennas comidas, e tambem sarará, e lhe sahirão as 
pennas formosissimas fóra da muda, que eu o fiz a 
um Açor, e fóra da muda lhe tornaram as pennas a 
nascer bellissimas. 


o ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 51 


CAPITULO XXXIV 


Que ensina como se fará fome verdadeira ás aves 
sahindo da muda 


OoMEM alquetira e alfofas, e assucar candi, partes 
eguaes, e assucar branco duas partes, e pizarão 
tudo junto, e se peneirarão; e assim se porão 

á parte, e depois se tome de azebre sacrotim, e zaraga- 
tôa e semente dosmastruços, que se não hão-de pizar. 

Da zaragatõa se tomará tanta quantidade quanta 
caiba em uma moeda de dois vintens, e dos mastru- 
ços a metade d'esta quantidade; de zaragatõa e do 
azebre, de tamanho d'um grão de comer; e dos pós, 
dos assucares e alfofas, que disse fossem pizados, 
tomarão quantidade de dois dedaes, e o misturarão 
em o azebre, e as outras coisas se fará plumadas d'el- 
las, e os darão envoltos em uma pelle de pescoço de 
gallinha, ou do corpo d'ella, ou de outra qualquer ave 
bem limpo das pennas. 

Esta plumada se dará á noite, tendo o Falcão co- 
mido aquelle dia de um coração de carneiro lavado. 

Ao outro dia pela manhã lhe darão, antes que 
coma, de um torrão de assucar candi do tamanho de 
uma avelã, e dês que purgar com elle, lhe darão a 
comer de um coração de carneiro lavado. 

E sendo o Falcão nebri se porá na agua primeiro 
que lhe deem o coração lavado, e se fôr ave que não 
tome agua, lhe déem agua morna pela bocca, e as- 
sim fica purgado e limpo do bucho. 

, O que purgar a ave considere a pessoa della, 
como fica dito no capitulo quarto da purga commum 
do Falcão. 


52 BrBLIOTHECA DE CLassicos PORTUGUEZES 


Titulo das receitas 


RECEITA PRIMEIRA DOS SAINETES 


Tomam os Falcões tanto gosto, e sentem que os 
caçadores folgam com o que elles fizeram, se lhe dão 
as canadas das prisões que matam, que deixam de 
comer carne, e olham as mãos dos senhores em quan- 
to lh'as apparelham ; e os caçadores famosos para te- 
rem as aves amigas fazem seus doces, aos quaes os 
castelhanos chamam sainetes, e se fazem: 

Tomem enxundias de gallinha e ponha-se ao se- 
reno em tempo de inverno, pizadas com canella fina, 
misturado tudo com assucar branco, tudo bem pisado 
e posto algumas noites ao sereno, que se endureça a 
enxundia com a mais mistura; e d'esta massa faça O 
caçador pinhões, e os dêem á sua ave, que tomam 
grande sabor n'isto, e conhecem que folgam com o 
que elle fez, e lhe ficam sempre amigos. 


RECEITA SEGUNDA 


PARA MUDAR O FALCÃO POR INDUSTRIA DO CAÇADOR 
AINDA QUE O FALCÃO O NÃO FAÇA NATURALMENTE 


Se o Falcão ou outra ave estando na muda não qui- 
zer mudar com a ordem que manda a regra, fará d'este 
modo : 

Buscarás um kágado vivo, e tira-lhe as conchas am- 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 53 


bas, e a carne d'elle envolva-se em um panno de linho 
delgado, e se porá entre duas táboas como imprensa, 
e lhe porão um pezo em cima, de.arte que fique ex- 
premida da humidade, e molha n'aquella agua que da 
carne do kagado sahir, a carne, e mudará. 


RECEITA TERCEIRA 


PARA O MESMO 


Tomem os peixes meudos do rio d'agua dôce, e os 
seccarão, e depois de seccos os façam em pó, e se 
déem á ave com a comida e vianda que se lhe der, e 
mudará. 


RECEITA QUARTA 


PARA O MESMO 


Tomem um lagarto e o mettam em uma panella no- 
va e a tapem, e se metta em o forno, esteja alli até 
se fazer carvão, e estes feitos pós se dêem a comer, e 
mudará. 


RECEITA QUINTA 
PARA O MESMO 


Ha uns bichinhos vermelhos que se deixam vêr em 
os malvares,e pelas paredes, de verão, a que chamam 


54 Brpr1ioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


os portuguezes bois de Deus, e os castelhanos vaque- 
tas; dadas ás aves fazem mudar. 
Os ratos e a carne d'elles dada ás aves, é bom. 


RECEITA SEXTA 


PARA O MESMO 


Tomem uma cobra e cortem-lhe a cabeça tanto 
como uma mão travez, e do rabo o mesmo, e met- 
ta-se no forno em uma panella nova, e secca se farão 
pós, e moidos elles deitarão d'estes pós, misturando- 
os com pós de coral branco, tanto de uns como de 
outros, e d'elles darão ao Falcão quantia de meia noz, 
e mudará. 


RECEITA PARA A SARNA E RABUGEM DOS PODENGOS 


Os podengos são mui necessarios na caça do Açor, 
e os galgos para soccorro dos Falcões, pelo que não 
é fóra de proposito tratar-se de suas doenças. 

As ordinarias n'elles são sarna e rabugem, a qual 
muitos tem por velhice, outros por serem quentes, 
e na caça do Açor lhe acontecer faltar-lhe a agua, e 
com a calma se esquentam, e ás vezes raivam, ou se 
enchem de sarna e rabugem. 

A esta doença, proceda do que fôr, se accode to- 
mando alcrevite e azeite de oliveira e cebo de bode 
e pez e azinhavre, partes eguaes, as que tiverem ne- 
cessidade de serem pizadas se pizem, e se derreterão 
todas, e feito unguento, tosquiando o cão que tal mal 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 55 


tiver, e quente se untarão as partes que esta sarna 
tiverem, e sarará sem duvida. 

Para o mesmo dizem que fumo de herva santa é 
boa. 


RECEITA PARA QUARTOS DE CAVALLOS 


Os cavallos tambem padecem males, e são o todo 
na caça, e com o trabalho muitas vezes se lhe fende 
o casco dos pés e mãos; áquellas fendas a que cha- 
mam quartos, se accode com este remedio: 

Tomem cebo de bode, unto sem sal, azeite de oli- 
veira e mel, cebo de vella, trebentina, unguento de 
alteia, gorvião, sangue de drago, almecega, incenso, 
alhos ingrimes, cera bella; d'isto feito unguento, elle 
derretido e quente se deite em a fenda e quarto do 
cavallo, e seu casco serrará logo. 

Ha-de ser a fenda e quarto limpo das cousas estra- 
nhas. 


a 


QUINTA PARTE 


Na qual se trata das armadilhas e modo que terá o 
caçador em armal-as 


9 gsTA quinta parte se trata das armadilhas, 


das quaes não havendo caçadores espertos, 

que com redes e laços tomem os Falcões, 

Açores e Gaviões, e as mais aves de rapina, das 

quaes os Reis e principes uzam em suas caças reaes, 

fica a caça falta de seu principio e parte mais necessa- 
ria, porque as armadilhas são um todo para todos. 

E” passatempo de que podem uzar todo genero de 
pessoas, porque aos pobres é proveitosa, aos nobres 
e ricos entretenimento sem offensa, e alívio de cuidados 
tristes, e aos religiosos refugio de suas soledades. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 57 


rs 


CAPITULO I 


Das aves de rapina nocturnas, e como com o Bufo se 
tomam os Falções, Gaviões e as mais aves de ca- 
çar 


Os mochos, corujas, e bufos, são contadas com as 
aves de rapina, por que se mantem de cousas vivas, 
que ellas de noite caçam. 

Estas sendo vistas de dia das outras aves logo se 
vão a ellas, e as perseguem, e espancam, dando-lhe 
golpes e repellões, e se põem junto a ellas espantan- 
do-se muito. 

À gente vulgar diz que cada ave d'aquellas lhe 
emprestou algumas pennas, e quando as vêem lh'as 
querem tomar. 

À causa é que estas aves nocturnas, posto que se- 
jam similhantes ás outras, tem o rosto e os olhos dif- 
- ferentes, porque os tem muito grandes e encendidos 
como lume, e o rosto quasi como de uma criatura hu- 
mana, ainda que coberto de pennas. 

Às corujas são do mesmo talho e feição, e os mo- 
chos o mesmo. 

Os mochos criam nas tocas das arvores, e entre pe- 
dras, onde ha morouços d'ellas. 

Às corujas em torres, em muros velhos e nas egre- 
jas; de noite buscam seu pasto, e onde ha pombaes 
matam para comer os pombinhos pequenos; os mo- 
chos se manteem de bichinhos, e algumas vezes se 
acham nos ninhos pennas de passarinhos, que elles 
caçam; a estes accodem todos os generos de passari- 
nhos silvestres, d'onde os homens vieram a inventar 


58 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


a armadilha do brete, e as varas de visco postas jun- 
to d'elle para se enviscarem. 

Os bufos são aves maiores, e se mantem de caçar 
lebres e coelhos e perdizes que de noite tomam; vão 
onde haja esta caça, longe das villas e logares; criam 
em altas rochas e n'ellas estão de dia escondidos. 

A estes bufos accodem todos os Falcões, e Açores, 
e Gaviões, e Esmerilhões, e todas as mais aves que 
de rapina se mantem, descendo a elle com furia, dan- 
do-lhe repellões e golpes. 

Pelo que os homens engenhosos inventaram as ar- 
madilhas de laços e redes, e costellas, com que estas 
aves se tomam. 

Aqui porei só aquellas que tenho por melhores, e 
algumas nunca vistas inventadas de meu engenho, 
que a estas coisas se inclinou minha natureza. 

Mas é tão difficultosa coisa mostrar por escripto 
as coisas d'esta arte de caçar, e me custa tanto dal-as 
a entender, que me é forçado buscar de fóra algumas 
similhanças conhecidas de todas, com as quaes mos- 
tre o modo que se tem assim em ordenar as arma- 
dilhas, como de armal-as. 

A rede que quero mostrar para se tomarem as 
aves que accodem a esta ave bufo a espancal-o, são 
similhantes aos tremalhos com que se pescam assim 
as sardinhas no mar, como os peixes nos rios doces, 
porque se armam ficando altas; esta que n este capi- 
tulo primeiro mostro, se arma entre duas arvores, 
ficando levantada em pé, como uma parede de uma 
casa; ha-de ser mais comprida que alta, o compri- 
mento será de tres varas e meia até quatro, de altura 
de duas, ficando ella armada. 

Para se fazer a rede do bufo ha-de ser o molde 
d'ella de quatro dedos de largo, que fique a malha 
depois de estar feita, que possa por ella entrar ao 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 59 


justo o punho da mão fechada de um homem; co- 
meçar-se-ha em sessenta malhas, e se acabará em 
trinta e cinco que ha-de ser a altura da rede. 

Tendo a rede feita, logo pelas malhas de cima, 
d'onde se começou, se metterá um cordel feito de 
tres linhas, bem torcido e delgado, de: comprimento 
de oito até dez varas; o mesmo se fará pelas malhas 
de baixo d'onde se acabou a rede de fazer. 

Este cordel debaixo basta ser de quatro varas e 
meia, até cinco; tambem pelas ultimas malhas das 
lhargas se fará o mesmo, e se metterá cada seu cor- 
del, os quaes serão de comprimento de duas varas, 
pouco mais, que hão de servir na altura. 

Posto assim os cordeis o que ha de servir para , 
baixo, que é de duas varas, se atará com a derradeira 
malha de baixo com a malha e cordel da ilharga, e o 
mesmo se fará de cada banda de baixo, atando todos 
os cordeis das ilhargas da rede, da parte que ha de 
servir de longo da terra; atados se irá ás pontas dos 
cordeis que hão-de ficar para cima, por que a rêde ar- 
mada ha de ficar levantada, como já disse. 

E nas pontas dos cordeis das ilhargas se fará em 
cada um d'elles sua azelha, a qual se metterá pelo cor- 
del de cima onde estão as malhas, e em uma das pon- 
tas do cordel comprido, que disse haver de ser de 
oito até dez varas, se atará um ganchinho de pau, o 
qual ha-de servir de estar pegado em as arvores on- 
de se ha-de armar a rede. 

Seja feita de bôa linha rija, tinta de ruivo. 

Eu a tingia de fungão, porque não corta a linha 
e fica a côr quasi do ar. 

Resta armar esta rêde; para se armar é necessario 
haja bufo e este ensinado com arte, o qual se ensina 
d'este modo: 

Logo que tiverem bufo bem em pennas, são das 


60 BrgLiorHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


azas, que bem vôe, irá o caçador com elle ao campo 
e o porá em cima de uma pedra vultosa de altura de 
palmo e meio, e em cima da pedra lhe dará a comer 
umas picadas de carne, e o deixará estar na pedra 
por um pouco, e o levantará na mão esquerda sobre 
a luva com arte, que se não debata elle, nem se an- 
noje, e sendo como dez passos da pedra o lançará a 
ella, tendo a ave o rosto n'ella, e o deixará estar um 
pouco, e lhe dê outras picadas de carne a comer, es- 
' tando elle posto na pedra (que estas aves abrem a 
bocca e n'ella se mette o comer e sentem que folgam 
com o que fez), e assim de pouco em pouco indo cada 
dia se fará mestre. 

E para que não vôe senão ao pouso e pedra se 
metterá uma estaca junto a ella, e na estaca se atará 
um cordel bem feito, grosso, que não tenha nós nem 
torceduras, pelo qual se metterá uma argolinha, e seja 
tal que bem possa o cordel ir por dentro d'ella sem 
estorvo, nem pejo; e esta argola ha-de ser atada em 
um cordel do comprimeuto de um palmo, o qual se 
ha-de atar ás piós do bufo, e o cordel comprido que 
ha-de servir por dentro da argola, o qual será de mui- 
tas varas de comprimento, se ha-de atar na estaca que 
ha-de estar junto ao pouzo de pedra, a que hão-de en- 
sinar o bufo; depois de o cordel estar mettido por 
dentro da argola se ha-de atar na estaca, e o caçador 
com o passaro na mão esquerda e o cordel comprido 
na direita, sendo o bufo já costumado a voar á pedra 
por n'ella lhe darem de comer, quando a ella o larga- 
vam, vae a ella voando de bom animo, e quando o ca- 
çador o largar ha-de ter o cordel bem tezo, levantan- 
do a mão por que se não embarace em as hervas, e O 
passaro fique não podendo ir, e pouze antes que che- 
gue a seu pouzo. 

E sendo caso que o passaro por sua vontade se pouze 


| 


E PE 7. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 61 


antes de ir ao pouzo, se annojará o caçador, dando-lhe 
com a luva no rosto, e com os pés levantando-o da terra, 
e assim o fará ir até que se ponha onde o mandam. 

E na pedra o deixará estar quieto, e lhe dará algu- 
ma cousa de comer. 

Isto se lhe fará tantas vezes até que seja mestre, que 

poucos dias bastam; e vá a ella de cem passos ou o 
mais que possivel fôr, porque estando perto o caça- 
dor da armadilha não cahirão os Falcões, nem as mais 
aves a elle, com receio do caçador, que as aves todas 
temem muito os homens, pelo que o cordel seja de 
cem varas, ou mais. 
- Resta saber armar a rede; buscará o caçador duas 
arvores n'aquellas partes onde lhe parecer que houver 
aves que acudam ao seu bufo, as quaes arvores estejam 
emparelhadas, ainda que apartadas uma da outra sete 
ou oito varas (que para isso disse que o cordel da rede 
que ha-de servir da banda de cima fosse de dez va- 
ras) as quaes sejam em valles, que nos altos ficam muito 
visiveis, e no ganchinho qne disse andarão atadas umas 
poucas de sedas de cavallo. 

Este gancho se apegará em uma das arvores, e na 
azelha do cordel de cima se atará uma seda por que 
não corra, e ali junto deixarão a rêde, e com o cordel 
do gancho se irá o caçador á outra arvore, e o porá 
por cima de algum ramo que fique correspondencia 
na altura d'onde o gancho está; este cordel atará, que 
fique firme e bem estendido, e se irá á rêde que dei- 
xou junto á arvore primeira, e a irá estendendo com 
uma canna até chegar junto da outra arvore, e por 
que o vento a não mova fará o mesmo, atando azelha 
do cordel com uma seda de cavallo, que sempre de- 
vem de andar nas azelhas atadas para este efeito, e 
com a seda a ligarão na arvore, e vão chegando a 

| rêde se atará ao cordel de cima, de modo que se sus- 


62 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


tenha ao vento, estendida, e nos cordeis curtos da 
parte de baixo atará qualquer cousa que se metta na 
terra, que a sustenha do vento como um cardinho, e 
o cordel de dez varas, que disse ficasse firme, tezo e 
atado o fará ligeiro e lesto, de arte como os mais, 
firmando na terra, que nem a rêde caia, nem a ave 
dando se não embarace, ainda que os cordeis das aze- 
lhas ficam bastando, por que em dando a ave, por pe- 
quena que seja, quebram as sedas com que estão ata- 
das e se enredam nella. 

Terá o caçador outra rêde feita da mesma arte, e 
nos ultimos ramos da outra arvore firmará o gancho 
da rêde, e com uma canna ou pau, que sempre trará 
na mão para este efeito, armará a rêde como perdida, 
que fique quasi como em triangulo, porque muitas 
vezes cahem as aves de rapina ao bufo, e não entram 
por baixo das arvores, e n'estas que ficam, como per- 
didas, se enredam. 

O pouzo do bufo se porá junto á rêde, distante po- 
rém cousa de uma vara de medir, ou alguma cousa 
mais, como ao caçador lhe parecer que convém, e á 
pedra e pouzo se porá uma estaca mettida na terra, 
como já disse no ensino do bufo. 

Este bufo sempre se ha-de largar ao pouzo peito a 
vento, e costa abaixo, por que assim vae de melhor 
vontade, e a rêde com a sombra das arvores fica me- 
nos visivel. 

O cordel que ha de servir ao bufo seja bem com- 
prido, sem nós, por que vá com facilidade o passaro 
por elle, o qual terá o caçador junto de si, e o cordel 
na mão, e em vendo a ave tomará o passaro na mão 
esquerda, tendo o cordel levantado da terra, por que 
se não embarace o bufo no caminho, tendo o cordel 
bem tezo, e por que não duvidem as aves que ao bufo 
descem, será o cordel bem comprido. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 63 


eras 


Com esta armadilha se tomam nebris, que sendo 
pollos, valem lcgo, em os tomando, trinta e quarenta 
cruzados, Açores, Gaviões, Esmerilhões, Bulhafres, 
Francelhos, Tartaranhas, Açorenhas, Rabaluas e todas 
as mais aves que de rapina se mantem, até Corvos e 
Milhanos. 

Querendo o caçador ir a alguma parte, ou vindo- 
lhe o somno, ponha o bufo no pouzo, que acontece 
algumas vezes ser visto das aves, e sem o largarem 
cahir nas redes. 

E tambem não sendo o bufo ainda mestre, o dei- 
xem estar sobre a pedra, e em vendo a ave a que o 
quizerem largar vá o caçador por elle, e elle vae com 
melhor vontade tendo o sentido onde o tiraram. 


CAPITULO H 


Da armadilha do bufo em campo sem arvores 


Á disse na armadilha atraz, como o misero pas- 
saro, de se vêr perseguido das aves de rapina, 
não ousava mostrar-se de dia, pelo receio que 
tem de ser mal tratado, porque, não sómente o mo- 
lestam as aves nobres, mas ainda os corvos, pegas e 
gralhas, e todas as que se manteem de bichos o que- 
rem matar e comer, dando-lhe golpes e pancadas com 
muita furia, pelo que tenho as armadilhas, que com 
elle se uzam, por melhores; e por serem taes, inventei 
esta, que facil cousa me foi fazel-o, que os artistas ás 
cousas achadas acrescentam outras de novo com faci- 
lidade. 
Como das rêdes das aranhas o aranhol, que vae 


64 BrBLIOTHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


adiante, assim eu de tres varas engenhei esta nova- 
mente por mim achada, e a tenho pela melhor de to- 
das as que se uzam, e de mais astucia e arte; por 
que os Falcões, Gaviões, Açores, Esmerilhões e Ojas, 
e todas as mais aves de rapina nobres buscam as aves 
que hão-de comer nos campos limpos de arvores e 
mattas, onde elles pela ponta das azas alcancem a 
caça, o que não podem fazer n'aquellas partes onde 
arvores e mattos estiverem; porque as aves perse- 
guidas d'elles se acolhem a ellas, e ainda ás aguas, 
mergulhando-se como fazem as adens. 

Estes de rapina nobres, são os que com mór colera 
cahem ao bufo, e no campo com menos receio, que 
como elles sejam levissimos e grandes voadores, ficam 
senhores de tudo, e no ar nada temem, nem no 
campo, pelo que tenho por bem achada esta que se 
faz com redes alevantadas como casa de paredes al- 
tas, e para isto assim ser, sem arvores, foi necessario 
engenho. 

Tomarão tres varas de dardos delgados, ou de 
outros quaesquer paus, que se não dobrem com faci- 
lidade; a grossura d'elles basta que seja como a do 
dedo pollegar no mais grosso, e no comprimento até 
nove palmos, e nas pontas mais delgados; n'estas 
hastes porão uns canudos de ferro encaixados, que 
fiquem similhantes aos atacadores de espingardas; 
depois de estarem os canudos encaixados nas hastes, 
notam que ha-de ficar o ferro cheio de pau da haste; 
n'este pau que está mettido no canudo de ferro, farão 
um furo com uma verruma, pelo qual entre um ferro 
da grossura do cano de uma penna de cisne, que é 
pouco mais grosso que o da pata, e seja o furo que 
na haste se der por dentro dos canudos de ferro, 
feito da parte de cima da altura de meio dedo mos- 


trador. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 65 


E estas hastes hão-de servir de ter a rêde levan- 
tada no campo em triangulo; nos buracos que disse 
se metterão umas vergas de ferro de tal comprimento 
que ambas façam dezeseis palmos en: alto ou mais, e 
nota que as varas de pau não sejam de mais compri- 
mento que aquelle que se possa alcançar com a mão 
a metter as vergas de ferro nos buracos dus de pau, 
estando ellas metidas na terra. 

N'estas vergas de ferro, que serão feitas com arte, 
menos grossas nas pontas que hão-de servir para o alto, 
por que as que hão-de servir mettidas nos paus hão- 
de ser mais grossas, que as de fóra, nas pontas d'estas 
se fará em cada uma seu furo como tem as agulhas; 
será redondo e bem limado que possa correr por elle 
um fio de brabante, que estas vergas mettidas na 
haste são as que hão-de servir no campo de arvores. 

Faço estas hastes de peças, porque sendo de um 
pau só, não se poderiam armar as rêdes, como se 
verá. 

Agora mostro como se ha-de fazer a réde, a qual 
* será de duzentas e vinte malhas de comprido, e n'es- 
tas se ha-de começar. 

E a altura seja tal que fique servindo a dezoito pal- 
mos, armada, pois que d'estas disse haverem de ser 
de dezeseis, pelo que convem que fique a rêde ser- 
vindo a altura bastantemente; as malhas da rêde se- 
rão como fica dito no capitulo atraz. 

E da mesma linha, pelo comprimento, nas ultimas 
malhas da rêde, assim debaixo, como de cima, mette- 
rão em cada seu cordel feito de tres linhas; o cordel de 
cima seja de comprimento de vinte e cinco varas, e O 
debaixo basta que seja de trinta e cinco palmos; nas 
ultimas malhas das ilhargas, que é a altura das varas, 
metterão outros dois cordeis, estes dois atarão com a 
derradeira malha da rêde com o cordel que disse ser 


FOL. 4 ? VOL. II 


66 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


de trinta e cinco palmos, e nas pontas que hão de 
servir de cima farão duas azelhas, pelas quaes met- 
terão os cordeis do comprimento que hão de servir 
do alto, e no meio da rêde ás cento e dez malhas ata- 
rão outro cordel de vinte e cinco palmos, este atarão 
no cordel que ha-de servir na altura no meio da rêde, 
o qual ha-de servir de a ter levantada. 

Na vara que ha-de estar no meio em triangulo 
mettida no furo que disse fizessem na verga de ferro, 
se ha-de metter este cordel, e em direito d'elle, da 
banda debaixo, atarão outro de quatro palmos só- 
mente, tambem ás cento e dez malhas, o qual ha-de 
servir de ter a rêéde queda ao pé da vara do meio, 
porque a não levante o vento, ou atada em uma sêda 
de cavallo que em baixo póde estar posta na haste, 
ou um pausinho mettido de longo da mesma vara do 
meio. 

Adverta que a rêde ha-de ficar armada da banda 
de dentro das varas, e não de fóra. 

Para armar a rêde se buscará terra limpa de car- 
dos, e todas aquellas coisas que sejam impedimento 
em aquellas partes que saibam que podem tomar aves 
de preço, como são Yalcões nebris pollos, que estes 
são certos cahirem ao bufo, e os estará o caçador 
aguardando com a rêde bem aparelhada, e sendo a 
parte tal affirmarão as varas de pau na terra, distan- 
tes umas das outras, dez passos ou doze, postas em 
triangulo, com tal arte, que fique o bufo, vindo a seu 
pouzo, peito a vento, O qual pouzo ha-de estar junto á 

vara do meio, coisa de dois passos; e terão lembrança 
que tanta distancia ou mais ha-de ficar sem rêde de 
vara a vara, pela qual ha-de vir o bufo entrar ao 


pouzo, porque quando vier voando ao pouzo, não dê 


com as azas na rêde. 
Postas as varas em feição, tomarão o cordel de 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 67 


vinte e cinco palmos, que está atado ás cento e dez 
“malhas; este se metterá pelo buraco do ferro, e se 
metterá o ferro na haste do meio, ficando a rêde toda 
junto a ella, se levantará puxando pelo cordel até ir 
arriba, e estando no alto atará o cordel á vara de 
- pau, ficando a ponta do cordel das duas pontas que 
' ficam, metterão pelo outro furo da verga e o porão 
na outra vara entezado, atando á vara de pau, e se 
correrá a rêde até á vara; a outra ponta do cordel 
que fica se metterá pelo furo da outra verga, a qual 
irão metter na outra haste, e correrão a réde atando 
os cordeis tezos nas hastes, e se correrá a rêde toda: 
de vara a vara, e se virá ao meio aonde deixou o 
cordel atado da banda debaixo, que d'esse bastava 
ser de quatro palmos, e atará no pé da haste do meio, 
fica a rêde levantada, e da feição que ha-de estar ar- 
mada, que ella já parece que o está, mas crasso modo. 

Isto feito, como fica dito, farão o pouzo dois passos 
largos da vara do meio dentro no triangulo, e pro- 
cederá o caçador da maneira que tenho ordenado, 
vindo o bufo peito a vento e costa abaixo. 

Feito isto se fará a rêde ligeira como fizemos no 
capitulo atraz, na armada das arvores, desatando os 
cordeis das hastes, atando-os com cabellos de caval- 
lo, ou pauzinhos levemente, de maneira que quando 
vier o Falcão leve a rêde ás costas, como dito fica. 


68 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPITULO III 


Da armadilha Aranhol de quatro varas; como se faz 
e arma 


STA invenção de armadilha furtaram os homens 

ás mizeras aranhas, vendo como as fracas es- 

tendiam as suas rêdes pelos cardos e ramos das 
arvores, para n'ellas tomarem algumas sevandilhas de 
que se mantivessem. 

A” similhança das mesmas trabalhei eu por mos- 
trar esta rêde, que com os adjuntos com que se arma 
e faz, para a escrever me é trabalhoso, para o que 
me são necessarias similhanças. 

Tomarão quatro varas, pouco mais altas que um 
homem com o braço erguido, sejam de pau que se 
não dobrem, são boas as de esteva, nas pontas onde 
são mais grossas se farão pontas agudas para entrar 
na terra, e nas pontas delgadas se farão umas móças, 
assim como os meninos os fazem nos cálamos da ce- 
vada verde, de que fazem as pipias com que tangem, 
e sendo caso que algumas varas não sofiram móças 
pôr-lh'as-hão postiças, e fique de modo que possa en- 
trar por ellas um cordel torcido de duas linhas. 

Estas varas servem de ter a rêéde em pé como uma 
casa sem telhado, os quaes se hão-de metter na terra 
em quadro, quatro passos uma da outra, com as 
móças para dentro. 

A rêde será de cento e cincoenta malhas de com- 
prido, da altura de duas varas; o molde da rêde seja 
de quatro dedos escassos; depois da rêde feita toma- | 
rão um cordel bem feito de duas linhas, e se porá | 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 69 


f 


em agulha com que se fez a rêéde, e com um molde a 
metade menos do da rêde se fará uma malha, assim na 
parte que ha-de estar de cima como na debaixo, que 
fique alvitanado, que quer dizer a malha mais pe- 
quena quasi a metade, e feita com os mesmos nós, e 
se atarão ás pontas dos cordeis, e ajuntarão as pon- 
tas das malhas dos cabos que fiquem feitas como os 
da mesma rêde que se não conheçam; e assim temos 
o aranhol feito. 

Para se armar se porá um dos cordeis, que seja de 
duas linhas, que ha-de estar para cima, e o que ha-de 
ficar para baixo será de tres. 

O de duas linhas se porá na ponta de uma das va- 
ras da banda de cima, com uma volta que não caia 
e com o mesmo cordel correrão todas as varas, met- 
tendo nas moças que disse, correndo a rêde de longo 
a longo das varas que fique como uma casa. 

Falta a negaça, que é a rôla ou pomba que ha-de 
estar no meio, á qual hão-de accudir os Falcões e mais 
aves de rapina; a rôla, que ha-de servir nesta arma- 
dilha, ha-de ser cega de todo, a qual vendo não estará 
queda, que para bem não ha-de bolir, senão quando 
o caçador quizer que ella o faça, pelo que se servem 
d'ella assim cega, e se faz tomando uma penna do seu 
cabo, e com ella mettida no olho andam á roda, fir- 
mando bem a mão até que se derrame a menina, e 
se lhe faça em ambos os olhos. 

Ha-de ser feita esta boa obra com c cano da penna. 

D'estas rólas cegas se tem sempre meia duzia e 
mais, os que uzam esta armadilha, e é muito bom 
ter dois aranhoes, um de pomba outro de róla, o da 
pomba para Falcões, o da róla para as mais aves. 

Resta que digamos onde hão-de estar as negaças 


postas para lhe accudirem as aves, as quaes se porão 


no champil ou mostrador que estará do meio do ara- 


7o BrsLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


nhol com um cordel muito comprido, pelo qual pu- 
xará o caçador mostrando a negaça á ave que pre- 
tende tomar. 

Advirto que o aranhol se armará em vales, por- 
que nos altos fica muito visivel e o recearão, o que 
não farão se com a vista se encontrar a terra, e se 
porá nas moças subtilmente, que em dando qualquer 
ave caia a rêde, e em terra limpa de cardos, e da 
parte de dentro das varas. 


CAPITULO EM 


Do aranhol de tres varas 


Ão os homens de differentes humores, uns são 
fleugmaticos, outros collericos, como deviam 
de ser os que inventaram os aranhoes de tres 
varas, os quaes quizeram antes andar buscando as 
aves que queriam tomar, que aguardar por ellas, 
com o de quatro, com os olhos longos a vêr se as- 
sumava o Esmerilhão pelo outeiro, e se enxergava o 
Falcão mettido nas nuvens, e as outras aves vindo 
pelo ar, para que vendo-as lhe amostrasse a sua ne- 
gaça, o que o de tres varas não tem, porque o traz o 
caçador comsigo; as varas hão-de ser tres, e de com- 
primento das de quatro, pouco mais; a malha do 
mesmo molde das outras, ha-de ser a linha de tres 
fios que não serve mais que para Falcões, e começará 
em cento e vinte malhas, que ha-de ser o comprido, 
e se acabará na altura conveniente ás varas. 
Pelas ultimas malhas ao comprido, assim para baixo 
como para cima se metterão cordeis de comprimento 
de seis varas até sete, e pelas ultimas malhas das 


ArtTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 71 


ilnargas outros cordeis que serão do comprimento 
das varas, as quaes serão da grossura de um dedo 
delgado. 

Os cordeis que digo, que hão-de estar por cima, se 
atarão nas pontas das varas com réde e tudo, e jun- 
tamente, e o das ilhargas, e na vara do meio se 
atará um cordel de alto a baixo mettido pelas ma- 
lhas. 

O cordel debaixo terá duas agulhas mettidas pelos 
cordeis que estão atados nas varas d'alto abaixo, 
para que dando o Falcão n'eilas corram para cima, e 
assim está perfeitamente acabado. 

Este se arma em triangulo, como disse atraz da ar- 
madilha do bufo em campo razo. 

Vendo o caçador o Falcão posto o armará, e den- 
tro n'elle, como fica dito do bufo, se põe uma 
pomba branca, com toda a vista, atada pelos pés com 
piós que se possa bolir, em uma estaca; o Falcão em 
a vendo adejar se vem a ella; as varas hão-de estar 
tão pouco mettidas na terra, que em dando o Falcão 
n'ellas caiam, e se entrar pela parte d'onde não 
houver rêde, o levantará o caçador com arte para 
que á sahida dê n'ella. 


72 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPIRU TV 


Do aranhol de duas varas 


aranhol de duas varas não differe do de tres 
mais que na altura e na grossura da linha, 
porque ha-de ser de linha delgada, porque 
serve para Gaviões e Esmerilhões, e é de duas sós va- 
rinhas, da grossura do dedo meminho, de tres palmos 
em alto, e a rêde mais meuda alguma coisa e da 
do bufo c aranhol de tres palmos; ficando armada 
pelas malhas que hão-de servir para cima, metterão 
um cordel de duas linhas, como disse na rêde de 
bufo, e pelas ilhargas, que hão-de servir de alto 
abaixo, outro, os quaes se atarão nas pontas das 
varas que hão-de servir para cima, e das ilhargas es- 
tenderão ao longo das varas, e os atarão em baixo, € 
nas ultimas malhas que hão de servir para baixo met- 
terão outro cordel de tamanho e comprimento do 
de cima, e lhe farão umas azelhas que corram pelo 
cordel que está atado de longo das varinhas, para que 
quando o passaro der, corram ellas para cima e fique 
enrofado. 
As varas hão-de ser quasi nada mettidas na terra, 
para que tambem caiam quando o passaro der na réde. 
Esta armadilha se arma estando o passaro pouzado, 
e da parte contraria se lhe pôem um passarinho vivo, 
atado com uma linha pelos narizes; em o Gavião o 
vendo, ou o Esmerilhão se vem a elle voando cozido 
com a terra, e leva a rêde ás costas; com este azanhol 
se tomam todas as aves de rapina, senão Falcões, por 
que o Falcão não faz caso senão de aves grandes. 


da 


CAPITULO VI 


Como se fas e arma a rêde do ar na arvore, e como 
na dormida com ella sz tomam Falcões 


NECESSIDADE inventora e mestra de todas as 

cousas, não tão sómente mostra aos homens, 

e os ensina o que devem fazer para se ampa- 

rarem das injurias do tempo, mas ainda ás aves por 

instincto natural mostra como se devem de haver com 
seus filhos. 

Os Falcões nebris e bafaris, como dissémos, criam 

de verão nas partes do norte, em alta Allemanha, e 

em outras partes frias; tendo, lá no tempo quente, 


seus filhos criados, os trazem .a estas nossas terras de 


Hespanha, França e Italia ter o inverno, e lhe mos- 
tram onde se possam manter, e que haja aves das 
quaes elles possam caçar para se sustentarem, assim 
como no campo de Santarem, em Portugal, e no de 
Coimbra, e no de Evora cidade, e no de Beja, e nas 
rocianas de Sevilha; finalmente por todas as terras 
campinas e partes d'onde elles possam achar aves de 
que se cevem, que não faltam de inverno pelos mui- 
tos numeros, assim de adens, como de garças, colha- 
reiros e garçotas, e infinidade de serzetas, verdizel- 
los, sizões e tarambollas, em cuja companhia elles 
passam a estas nossas comarcas. 

De dia buscam onde e de que se sustentem, por 
que duas vezes ao dia se cevam, alguns tomando adens, 
outros caçando sizões, outros de marrecas e muitos 
de zorzaes e pombos, de que ha grande numero em 
nossa Hespanha no inverno. 


as 


at 


74 BrpriorHECA DE CLAssicos PORTUGUEZES 


De noite tem suas arvores d'onde dormem, as quaes 
os redeiros chamam dormidas; estas buscam os Fal- 
cões a seu modo; pela maior parte são petisegas, e 
de poucas folhas, apartadas das outras, o que elles fa- 
zem porque de noite vejam de longe quem se ache- 
ga á sua morada e se saiam, porque os não prendam, 
que como elles vivem de rapina temem que tambem 
haja quem a elles faça o mesmo. 

Conhecerá a arvore d'onde o Falcão dorme facilis- 
simamente, que logo ao pé d'ella se vê a plumada, 
que é um vulto pequeno, do tamanho de cabeça do 
dedo polegar, feito de pennas, as quaes elles engolem 
e comem juntamente com a carne, e misturado com 
as pennas acontece haver alguns ossozinhos, por que 
alem d'elles comerem a carne, assim comem e engo- 
lem aquellas pennas, para nas noites de inverno, que 
são grandes, e frias, terem o seu bucho acompanhado 
por se não resfriar com a neve e frio da noite; que 
tal é a natureza, e tão grande mestra, que até d'isto 
aviza as aves, e nisto facilmente é conhecida a arvore 
em que dorme. 

E na tolhedura que é alva e grossa, o que não tem 
as outras aves, por que as outras, ainda que carne 
comam, como fazem os milhanos, bulhafres e corvos, 
não é sempre, nem as aves e as suas plumadas são 
de cabellos com caroços misturados. 

E sendo caso que se embarace o caçador, aguarde 
a noite, e verá vir o Falcão entre o lusco e fusco, co- 
mo lá dizem. 

Não soffrem os Falcões que nenhuma outra ave se 
agazalhe na sua arvore, a qual tem para sua morada 
e repouso, e tanta é a querença e affeição que tomam 
á arvore d'onde uma vez se agasalham, que n'aquella 
em que um anno tiveram sua morada e dormida, o 
anno vindouro tornam a ella mesma. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 75 


Meu pae tomou um Falcão treçó de uma muda com 
a rêde do ar, e o deu a D. Pedro da Silva, tio do 
conde da Vidigueira, vizo-rei, que foi, na India, e 
Sahio excellente altaneiro e se foi para a sua terra, e 
vindo outro inverno se tornou a tomar na propria ar- 
vore, com a mesma rêde do ar, e trazia ainda uma 
pió no pé. ] 

Agora fará a rêde do ar ao contrario da do bufo, 
que disse haver de ser mais comprida que larga, por 
se uzar d'ella debaixo das arvores, e esta nossa do ar, 
que ha de ser armada e posta da altura da arvore 
para baixo, basta o que ficar para cima seja de vara 
e meia de largo, e tenha comprimento de tres varas. 

Começar-se-ha em trinta malhas, e acabar-se-ha em 
cento, que fique do comprimento das tres varas. 

A linha seja de tres fios delgados bem torcidos e 
rijos, a malha póde ser alguma cousa maior, que O 
Falcão é ave grande; pelas malhas das ilhargas se 
metterão dois cordeis de quatro linhas, bem feitos e 
torcidos, cada um d'estes cordeis seja de vinte varas 
e mais, porque hão-de servir de se atarem no alto 
da arvore onde dorme o Falcão e chegarem á terra, 
e hão-de ser mettidos pelas ultimas malhas das ilhar- 
gas e pela parte de cima da rêde das ultimas malhas, e 
pela de baixo se porão outros cordeis de vara e meia 
cada um sómente; e nas pontas cada sua azelha, pelas 
quaes azelhas entrarão as pontas des cordeis compri- 
dos; em um d'estes cordeis se atará um ganchozinho, 
e ao pé do gancho umas poucas de sedas de cavallo. 

Achada a arvore verá o caçador qual é a alcan- 
dora e o pouzo do Falcão, que se conhece por estar 
lisa da continuação de se elle pouzar n'aquella parte, 
e muitas vezes cheia de barro, porque os Falcões cos- 
tumam comer as prizões que tomam na terra, e tra- 
zem as mãos enlodadas para que devagar as possam 


76 BreLIOTHECA DE CLASssiCos PORTUGUEZES 


alimpar em sua casa, e assim se conhece o pouzo que 
elle na arvore tem. i 

Conhecida a alcandora pelo caçador, com uma can- 
na que levará na mão, pegará o gancho, que disse le- 
vasse no cordel comprido com as sedas, com as quaes 
atará azelha do cordel de cima, e a outra ponta do 
cordel comprido atará na ponta da canna atando aze- 
lha com sedas ao cordel junto á canna; esta canna, 
será comprida, por dentro da arvore, correspondendo 
á altura e parte d'onde poz o gancho e os cordeis da 
banda de baixo da largura da rêde, tambem hão-de 
ser atados com sedas; azelhas e os cordeis compri- 
dos das ilhargas se irmarão em terra como a do bu- 
fo; e fica esta rêde armada á feição de um. portal da 
largura de vara e meia e de altura de tres. 

Advirto que quando esta rêde se armar, seja á sa- 
hida, porque os Falcões voam sempre peito a vento, 
e é melhor armar-se á sahida, de feição que não ape- 
gue a rêéde em ramo algum, e depois de elle estar 
pouzado vá o caçador e levante-o logo; e quando 
sahe leva a rêéde ás costas e quebram as sedas da 
banda de cima, assim as que estão atadas junto do 
gancho, como as da canna, e a leva ás costas. 

Comvem ter eleição, quando o Falcão sahir dê no 
meio da rêde, e porque as arvores são differentes não 
poderei mostrar claro o como se ha-de haver o ar- 
mador. 

O demais fique á eleição do seu engenho, lem- 
brando que a rêde se arme antes que se acabe o dia, 
e pode ser atada com sedas dobradas que senão des- 
arme, e os cordeis na terra bem firmados que Os não 
arranque o vento, que o Falcão é ave grande e pe- 
sada e tudo leva. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA iz 


CAPITULO VII 


Da costilha como se faz e arma para se tomarem 
— Falcões 


Tambem os homens do campo uzam das suas ar- 
madilhas, tomando passarinhos, ora com buizes, ora 
com costellas, ora com varas d'alçape, e porque d'es- 
tas armadilhas que elles assim sabem e costumam se 
inventou a costilha para tomar os Falcões na dormi- 
da, me parece ter obrigação de dizer tambem das 
suas. 

Os sizões são aves do tamanho de uma adem femea, 
vestido de pennas brancas e pardas, coleirados pelos 
pescoços ; o macho tendo sua mulher no ninho sobre 
os ovos de que ha-de ter os filhos, e o ninho escon- 
dido entre as hervas ou trigos, por não ser achado 
dos homens. Como a femea está em chôco sobre os 
ovos, elle por se lhe mostrar amigo, e que a não des- 
ampara afastado do ninho cousa de trinta passos, se 
passeia em um logar certo dando estalos com a bocca 
e bico, que soam bem longe para que a femea ou- 
vindo-o saiba que o tem alli perto. 

O homem do campo, pelos estalos que o sizão ma- 
cho faz, facilmente dá n'aquelle logar onde o sizão 
macho passeia, o qual elle tem muito limpo, pela 
continuação de andar sempre por elle; e lhe arma 
com armadilha de alçape, e d'estas que tomam as 
aves pelos pés, tomarão os engenhosos d'ella, e das 
costellas a costilha, de que é este capitulo, e se faz 
assim : 

Tomarão um arco de pau da feição do de costella, 


78 Brr.ioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


da grossura de dois dedos; nas pontas farão duas 
moças e lhe porão um cedanho delgado e bem torci- 
do, como se põem nas costellas, e no logar da taboa 
se porá uma vara de marmeleiro liza, sem nenhum nó, 
e limpa da casca, do comprimento de dois palmos e 
meio, e da grossura do dedo meminho, e se possivel 
fôr no cabo mais grosso algum nó. | 

Esta verga se porá no meio, como digo, e se andará 
torcendo com ella, como com a taboa das costellas, 
até que fique bem torcida, que puxando pela ponta da 
vara torne a seu logar com força; na ponta da verga 
e vara de marmeleiro se fará uma mossa com arte que 
se não escôe o cordel de linhas que n'elle se ha-de 
atar e servir de laço, o qual cordel ha-de ser de 
seis linhas finas e rijas, de tal feição torcido que se 
não apartem umas das outras sem nó algum no com- 
primento, que será de quatro palmos largos, e na 
ponta do cordel se fará uma azelha pequena, mas 
bastante para poder correr por ella o cordel, e se 
atará dois dedos da ponta da vara um pausinho a que 
chamam pingalhete, do tamanho do comprimento de 
uma pollegada, e deigadinho, como é o cano de uma 
penna de pomba, que fica sendo similhante ao das 
boizes e varas d'alçapé, e assim como as boizes e va- 
ras de alçapé, tem suas vergas metidas com as pon- 
tas na terra, a que se chamam verdizellas, para n el- 
las se armar o laço; da mesma maneira convem as 
haja na nossa costilha, as quaes serão de ferro ou 
aço, com pontas muito agudas, que se hão-de meter na 
alcandora, porque sem ella se não pode armar a cos- 
tilha, e se fará como fuzil de cadêa do tamanho que 
pregado no pau fique o vão d'ella quanto caiba uma 
pequena noz de comer. 

Terá o caçador d'estas verdizellas de ferro dois pa- 
res pouco maiores umas que outras, e um canudo de 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 79 


canna bem grosso cheio de bicos de carapetos; são 
carapetos uns bicos que nascem em umas arvores pe- 
quenas que não dão fructo, e a folha é similhante á 
de pereiro, armadas; ramos de bicos agudos de com- 
primento de meio dedo mostrador; hão-se de colher 
em verdes e fender pelo meio, como se faz ao aparo 
de penna, ficando a ponta resguardada; d'estes trará 
o caçador muitos mettidos em canudos, porque ser- 
vem na alcandora de ter o laço seguro, que o não 
mova o vento do logar d'onde se deixar, mettendo o 
cordel nas fendas. 

1 No capitulo atraz disse como se conhece a alcandora 
na dormida, e porque póde estar em parte d'onde se 
não possa uzar da rêde do ar que atraz fica, se armará 
a costilha, considerando primeiro o logar que o Fal- 
cão tem mais seguido da continuação de se pôr n'elle, 
e ali metterá uma das verdizellas, c o arco da costi- 
lha se atará em algum ramo com o cedenho em alto, 
para que fique distancia bastantissima a se escoar o 
laço de todo, e dobrará o caçador a vara que chegue 
á ponta e pinguelo á verdizella de ferro, na qual atra- 
vessará um pauzinho da grossura do pinguelo, pondo 
o pinguelo e laço por cima da verdizella, e por detraz 
se atravessará um cardinho da grossura do pingalhete, 
o qual porão com arte que tenha uma ponta no meio 
do alto da verdizella e a outra no pausinho que disse 
se pozesse atravessado n'ella; e assim está meia ar- 
mada. 

Para se armar de todo é necessario ter dois pauzi- 
nhos compridos, quanto seja o pouzo do Falcão; os 
pauzinhos que hão-de estar serão da grossura do canno 
de uma penna de pomba; estes se atarão pelas pontas 
com uma linha distante um do outro, grossura do dedo 
meminho; e as pontas não atadas porão e metterão 
por baixo da verdizella, por cima do pauzinho em que 


80 BrsriorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


está affirmado o pingalhete, e as pontas atadas com 
a linha atarão na alcandora com arte, que fiquem el- 
las de feição que em vindo o Falcão se ponha em 
cima d'ellas, as quaes com o peso do Falcão derru- 
bam o pauzinho que está atravessado em que se sus- 
tenta o pingalhete, e a vara da costilha desarma com 
furia que faz correr o comprimento do laço por 
grande que seja. 

O laço se porá cercando a alcandora e pouzo do 
Falcão de todo. 

Para se sustentar, que o não derrube o vento, to- 
marão os carapetos que disse, e metterão as pontas 
na casca da arvore o mais que poderem, e nas fendas 
se lhe metterá o laço; n'estas pontas de carapetos se 
porão duas, uma de uma parte, outra de outra, bem 
no cabo do pouzo do Falcão, outras duas da mesma 
maneira junto á verdizella; as que pozerem peito a vento 
por d'onde elle ha-de entrar se pregarão de arte, que 
quando o Falcão pouzar as não leve debaixo das 
mãos; e com isto fica a costilha feita e armada, e a 
vista da arvore e logar ensinará o que se ha-de fazer, 
que por escriptura não se póde tudo explicar, prin- 
cipalmente esta. 

E” excellente armadilha para Falcões com o bufo, 
porque muitas vezes rompem as rêdes alguns d'elles, 
e as dividem e se tomam com a costilha d'esta ma- 
neira, armando-a em o tronco ou ramo de alguma 
arvore, deitando o bufo da mão, o Falcão cansado de 
o espancar e cahir a elle, vae pouzar no pau que o 
está convidando para seu descanso, e acha quem o 
leva pelos pés, armando a costilha como fica dito, 
porque todas estas armadilhas querem muito enge- 
nho, e esta é muito excellente e engenhosa. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 81 


CAPITULO VIII 


Como se tomam Falcções na Persia 


OMARAM tanto á sua conta os imperadores, reis 

e principes do mundo, este passatempo de ca- 

çar com umas aves outras, que em todas as par- 

tes se uza e costuma; tanto que na Persia até os of- 

ficiaes mecanicos tem Falcões, e tem por melhores de 
todos os tagarotes. 

Nós uns e outros temos e com todos caçamos com 
melhor arte, porque elles não sabem que seja a nossa 
altaneria, que os nebris sós são senhores d'ella. 

São tantos os Falcões entre os persas, que dão um 
garceiro por dez cruzados, e se acham em tanta quan- 
tidade n'aquellas partes, que quando vem o tempo de 
os mudar os largam, e tomam outros de novo; e para 


“os tomarem tem suas armadilhas. 


a 
dá 


Tomem duas varas de marmeleiro cada uma de 
dois palmos e meio, leves, lizas, sem nós, que se não 
quebrem ; estas atem pelas pontas grossas enxeridas, 
que fiquem bem ao nivel, ao menos quanto possivel 
for, e atadas as enviscarão nas pontas, quasi um 
palmo, e no meio da vara atarão uma pomba branca, 
deixando-lhe piós do comprimento das de Gavião, 
que possa ella voar sem dar no visco das varas en- 
viscadas; a qual pomba será cega, e assim atada, 
vendo o Falcão deitarão a pomba a voar, quando vi- 
rem o Falcão pouzado ou voando, que a pomba como 
é cega, e com o peso das varas vae rabavento, e o 
Falcão em a vendo é certo sahir a ella, e como tem 
as azas mais largas e compridas chega ás varas en- 


FOL. 5 VOL. II 


82 BrrLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


viscadas, e se embaraça, e quanto mais trabalha por 
se vêr livre d'ellas mais se envisca; e vendo-o cahido | 
não pegue o caçador nas varas que se lhe irá o Fal- | 
cão mal voando, mas d'elle. 

Tambem se tomam todas as aves menores com vis- 
co, pondo um passaro vivo entre tres ou quatro va- 
ras enviscadas, vendo-as estar pousadas. 

O visco se desapega das pennas com azeite. 


CAPITULO IX 


Como se tomam as garças reaes, e sambralhos, meãs, 
e martinetes, e garçotas 


ARA as garças tomarão duas varas de marme- 

leiro delgadas, sem nós, e as atarão ambas a 

modo de aspa, e as enviscarão muito bem, e 

na cruz lhe atarão um peixe pequeno do tamanho 

de um' dedo, depois de as pontas das varas estarem 

mettidas na terra, e logo atarão outro peixe em uma 

linha mais comprida que chegue á terra; as quaes va- | 

ras assim cheias de visco porão em as lagõas e pêgos | 

d'onde as garças costumam pescar o que hão-de comer 

pelas bordas, e note o caçador que ponha tantas d'es- 

tas armadilhas que com ellas se encontrem as garças, 

que facil cousa será, vendo ellas os peixes, pegarem 

d'elles, e pegando cahirem as varas em cima d'ellas e 
se enviscarem. 

As varas sejam do comprimento de dois palmos e 

meio. 
Com a mesma armadilha se tomam meãs e garço- 
tas, zambralhos e martinetes; e na cruz d'estas varas 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 83 
LNLS a Naa 


se atarão em uma linha gafanhotos ou cigarras, mi- 
nhocas e peixinhos, louva a Deus, ou qualquer outro 
cibalho que parecer que póde comer a ave que qui- 
zerem tomar. 

Às pontas das varas grossas metterão na terra, de 
arte, que quando o passaro pegar na comida, caiam 
as varas sobre elle, e assim se tomam na Persia e na 
India; e se porão tantas varas que se encontrem as 
aves com ellas. 


CAPITULO X 


Como se tomam as pêgas e gralhas na Persia 


TAM OS persianos uma pequena de carne, minho- 
cas ou bichos, ou cousas que ellas costumam 
comêr, (pães de gallinha, são excellentes para 

isto) em um cordel delgado, e o estendem n'aquellas 
partes d'onde ellas costumam andar; o cordel será 
do comprimento de um palmo, e o enviscam, deixan- 
do obra de tres dedos por enviscar, e na ponta en- 
viscada atam uma pedrinha do tamanho de uma ave- 
lã; como ellas comem o cibalho move-se a corda en- 
viscada, e apega das pennas, e assim as tomam. 

Nós as tomâmos para treinar os Gaviões, com a 
rêde de boleo, atando um gato dentro, d'onde as haja; 
ellas vem a dar repellões no gato, e se põem junto, e 
assim com a rêde as tomam, e com o bufo e suas ar- 
madilhas. 


f: 


84 BrgriorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPAL On 


Regra como os redeiros conhecerão os Falcões, Gaviões, 
e Esmerilhões voando no ar, e o modo que tem em 
buscar as aves de que se hão-de manter, assim elles 
como as mais aves de rapina. 


ARECE-ME que vejo, assim Os que seguem a côr- 

te, como os que vivem nas villas e logares e 

os habitadores no campo, dizerem, que já sa- 

bem fazer as rêdes e armar as armadilhas; mas 

que lhe falta o conhecimento dos Falcões, Gaviões e 

Esmerilhões, por que ainda que digo serem sete ge- 

neros de Falcões, que lh'os mostre e dê noticia para 

que os conheçam voando, pelo que me é forçado com 

alguma similhança dar a conhecer os Falcões nebris 

e bafaris, que só elles passam a invernar a nossa Hes- 

panha, e os Esmerilhões, que os Gaviões são cá mo- 

radores, e de verão criam em bosques, e de inverno 
se vem aos campos e são bem conhecidos. 

O Falcão nebri e bafari na grandeza do corpo e 
vulto são como uma adem femea; mas tem as azas e 
cabo mais compridos; cabeças, bicos e pés simi- 
lhantes aos dos francelhos; mas accomodando tudo 
ao corpo, que o Falcão é passaro muito bem feito e 
aproporcionado; e por não achar similhante o compuz 
de pedaços como pude. 

No voar é redondo ao longo da terra, vôa bem 
apressado, pondo-se no ar de rodéo, faz as voltas com 
graça; os mudados são de côr cinzenta, os pollos são 
pardos, e para saberem que mudas tem: os de uma 
muda sempre tem algumas pennas pollas, por melhor 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 85 


mudado que seja, e ainda as duas acontece terem al- 
gumas do primeiro anno; mas gastadas com os inver- 
nos depois das duas, mal se conhecem de que annos 
seja, os velhos tem a aspereza das mãos gastada, e os 
olhos encendidos; e os mesmos signaes de edade tem 
os Gaviões e Esmerilhões. 

Os Gaviões são como francelhos, maiores algum 
pouco, os Esmerilhões são mais pequenos de todas as 
aves de rapina; elles e os Falcões são no voar simi- 
lhantes a pombas. 

Resta agora mostrar como cada um d'estes procura 
buscar a ave de que se ha-de manter, para que sabi- 
do o seu modo, e conhecida a arte que a natureza lhes 
tem dado, o caçador os conheça e os saiba prender, 
e tomar com as armadilhas. 

Nota: O Falcão pela manhã sahindo da dormida 
vae áquella parte d'onde sabe que póde achar as aves 
de que se ha-de cevar. 

São mui affeiçoados a pombas, que estas sahem a 
comer aos campos, e elles as vem buscar a elle, e as 
seguem com tanto impeto e furia que as coitadas das 
pombas, perseguidas d'elles, muitas vezes se acolhem 
aos lavradores em os arados, e antes se deixam tomar 
dos homens, que serem atravessadas das unhas dos 
Falcões; e quando assim os virem facil é conhecel-os. 

O Gavião pela manhã busca que coma voando bai- 
xo, de longo da terra, pouzando-se a miudo, e se an- 
dando assim de pouzo em pouzo se levanta a perdiz, 
cortiçó, ou ganga, ou pomba, a leva nas mãos, ou 
outro qualquer passaro que seja, que o Gavião aquelle 
primeiro estribão e vôo, comprimento de um tiro de 
pedra, é velocissimo, e mais ligeiro que todas as aves. 

O Esmerilhão busca de comer voando baixo, per- 
segue muito o passaro a que põe o rosto, poucos 
lhe escapam pela ponta da aza; é tão porfiado no 


86 BreLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


NLNLLLLRL LL NLNLL LNLS LNLS LNLS LS SSL LS LS LLS LL GNLRSN SSL LL LA SL 


seguimento dos passaros que pretende tomar, que 
muitas vezes o misero passaro se mette pelas casas e 
nos poços dos campos. 

Já aconteceu a algumas cotovias metterem-se em 
fornos ardendo. 

O Esmerilhão dês que se ceva se deixa repouzar, e não 
se mette nas nuvens, rodeando, como as outras aves., 

O bulhafre tambem busca seu almoço, mas por dif- 
ferente modo, pondo-se no mais alto das arvores, 
olhando para a terra, vendo se descobre alguma cou- 
sa viva, como rato ou topeira. 

As tartaranhas e cabiçalvas e altaformas, buscam 
de comer voando de longo da terra mui apressada- 
mente; acontece levantar-se algum passarinho, e ellas 
levarem-no nas mãos com muita facilidade. 

Estas são aves grandes nas azas e estreitas no pei- 
to, não são de estima entre os caçadores, posto que 
aves vivas cacem, o que fazem poucas vezes, que O 
mais que caçam são ratos e bichos da terra. 

Todas em geral se chamam tartaranhas, mas de- 
baixo d'este nome ha quatro especies bem diferentes. 
As altaformas são de côr azul claro, as açorenhas 
pardas, as rabalvas o mesmo, salvo nas costas, junto 
ao cabo; tem uma grande quantidade de pennas bran- 
cas, e as cabeçalvas tem a cabeça branca, são quasi 
de um tamanho; os bulhafres são grandes e pardos, 
tem os sancos curtos; todas estas aves accodem ao 
bufo estranhamente e á rôla. 

Dos francelhos ha dois generos: uns criam em tor- 
res, outros em arvores; os das torres não accodem á 
róla, os das arvores vem a ella com muito animo. 

Já deixo dito como as aves de rapina de nossa 
Hespanha buscam seu almoço pela manhã, para que 
com os aranhoes armados os saibam buscar os caçado- 
res com a vista. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 87 


Ao meio dia os Gaviões e bulhafres e Falcões até á 
uma hora se põem de rodeo bem alto nas nuvens, 
para que divizem aonde vejam as aves para cahirem 
a elias. 

Os Gaviões e bulhafres andando de rodeo são mui 
certos cahirem á rôla, com as azas fechadas; á tarde, 
uma hora ou duas antes de pôr o sol, e até á noite 
buscam todas as aves de comer ao longo da terra, 
pelo que aconselharei ao armador tenha dois aranhoes, 
um de pomba para o Falcão, o qual despreza a rôla 
por ser pequena, o da rôla para as mais aves. 

Todas as de rapina cahem ao bufo em qualquer 
tempo e hora em que o virem, e quem o tiver póde 
escusar aranhol de quatro varas, e sendo caso que 
com uma armadilha se erre o Falcão, póde-se uzar 
outra. 

Não tratei mais que de mostrar o nebri e bafari, 
por que estes passam a estas partes sómente, e todos 
tem um talhe, e se diíferem é na grandeza. 

São tão nobres os Falcões nebris, que voando o 
infante D. Luiz uma garça remontada nas alagõas 
de Beja cidade, estando ella em muita altura, traba- 
lhando o nobre Falcão com ella, cahindo algumas ve- 
zes a dar-lhe golpes, foi ajudado d'outro Falcão nebri 
bravo, o qual á vista do principe cahia á garça tão 
denodadamente como o fazia o manso Falcão, tido do 
infante em muita estima. 

O que foi mui notado de todos os caçadores d'aquelle 
senhor. 

Na mesma alagõa voando, este principe, outra garça 
com um gerifalte, mui excellente garceiro, descendo 
de alto a ella, a cautelosa garça o aguardou com o 
bico, e ficou o Falcão atravessado n'elle; e assim se 
fez a altaneria, mas ás vesas. 

Do que fica dito podem os armadores, e todos, ter 


88 BreLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


NL NA A AAA a, 


conhecimento das aves de rapina para se tomarem 
com as nossas armadilhas. 

E se uzei d'esta invensão foi por estar a noticia 
d'estas aves e o conhecimento d'ellas tão esquecido 
que me foi forçado buscar este meio, havendo anti- 
gamente n'este reino muitos principes e senhores que 
tinham Falcões, afóra os reis e os principes seus 
filhos. 

Tinham caça real el-rei D. Manuel, e o infante 
D. Luiz, seu filho, e o infante D. Duarte, o Duque 
de Bragança e o de Aveiro, e todos os da casa de 
Tentugal e da Vidigueira, e durou, como já disse, este 
excellente passatempo dos principes, até a jornada de 
Africa, e ainda agora se uza por toda nossa Hespanha. 

E vale um nebri tomado bravo hoje mais do que 
nunca valeu, pelo desejo que tem os nobres de tor- 
narem a este jogo. 


CABITULO NS 


De como se cozem os olhos aos Falcões e às aves bra- 
vas que se caçam e tomam nas armadilhas 


e 


melhor que pude tenho mostrado como Ss. 


conhecerão voando os Falcões, Gaviões 
Esmerilhões, que estes tres generos de ave 
são os que vem ter o inverno a estas partes, que oº 
Açores raramente se viram por cá sáfaros. 
Resta agora dizer como se hão-de haver os que estes 
tomarem com suas armadilhas. 
Primeiramente em sendo tomada qualquer d'estas 
aves nobres, a metterão em sua camiza, para depois 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 89 


de estar vestida n'ella, se lhe cozerem os olhos (que 
aos mais não ha para que os ter vivos). 

À camiza que ha-de ter o caçador para n'ella ves- 
tir o Falcão seja de panno de linho novo, porque os 
Falcões são aves de força, e com os encontros a po- 
dem romper, sendo o panno velho; e se fará do ta- 
manho de um quarto de papel, e no fundo do taleigo, 
ou saquete, que assim fica depois de cozida a camiza, 
se lhe fará um buraco por onde possa bem entrar a 
cabeça do Falcão ; e na bocca larga, por onde ha-de 
entrar, estarão atadas umas tranças de linho, para se 
atar depois de encamizado ; notando que o buraco por 
onde se ha-de metter a cabeça do Falcão, se faça 
bem no meio do fundo do taleigo; estando dentro o 
-corpo do Falcão o atarão com arte, que lhe fiquem 
as mãos e as pontas das azas fóra do taleigo, porque se 
não ha-de atar pelo corpo, se não pelo vão das per- 
nas, cabo e azas; e este encamizar se faz aos bravos 
sómente, que se tomam com as armadilhas, e assim 
vem até casa ; todavia com arte que se não maltrate. 

Outro modo de camiza se faz, no qual sómente 
mettem os côtos das azas, ficando-lhe as costas co- 
bertas, e o peito sem nada, e se armará nas pontas, 
tendo n'ellas uns pequenos de fitas cozidas para se 
atar, ficando com o cabo e azas e sancos fóra. 

O tamanho d'esta camiza seja como a que disse 
acima. 

Os Gaviões e Esmerilhões basta qualquer lenço, 
que não são aves de tanto preço, que os Falcões es- 
tão hoje postos em tanta carestia, que eu vi promet- 
ter por um, tomado de dez Gias, vinte mil réis; e 
custou um a D. João Luiz de Menezes doze, e outro 
este anno de 625, dezeseis mil e quinhentos réis. 

Já deixo o Falcão encamizado, necessario é agora 
saber-lhe cozer os olhos (que os ha-de ter cozidos 


go BreLroTHECA DE CLassicos PORTUGUEZES 


alguns dias) o que se faz para o amansarem, pondo- | 
lhe o caparão e correndo-lhe o rosto com uma penna 
e com a mão, para depois o soffrer; o que se não 
póde fazer sem se assombrar e tomar escandalo, por 
que não sendo assim cozidos dará muito que enten- 
der ao caçador, assim em o amansar, como em lhe 
tirar o medo e assombramento, que das coisas des- 
acostumadas tomou. 

O saber cozer os olhos a estas aves é facil coisa de 
fazer. 

Tomarão uma agulha bem delgada das com que as 
mulheres cozem coisas finas, enfiada com uma linha; 
tendo o Falcão encamizado, lhe tomarão a cabeça 
com a mão esquerda, e com agulha, que terão na 
mão direita, atravessará o caçador a capellada do 
olho do Falcão, da parte debaixo. 

Isto se fará com tanta arte que fique o olho res- 
guardado, e lhe não toque no bugalho, e não farão o 
furo tanto na ponta e borda da capellada que com a 
linha se quebre e rasgue, nem tanto no meio que 
dê pena ao Falcão, quando a estenderem para cima; 
deixarão de fóra uma ponta da linha comprida por 
cima da cabeça, e advirta que se ha-de metter a agu- 
lha pela parte de dentro do olho, e a ponta da agu- 
lha ha-de sahir para fóra, porque sendo de fóra agu- 
lha mettida e a ponta indo para dentro, arrisca-se o 
olho, e póde ser quebrarem-lh'o; e feito, como fica 
dito, não ha perigo. 

E logo irão ao outro olho e farão o mesmo que se 
fez ao primeiro ; e advirto, que quando vierem a fa- 
zer a obra no outro olho, que ha-de ser com a mão 
e linha por cima da cabeça da ave, aonde se achará 
a outra ponta da linha, que disse se deixasse por 
cima na cabeça, e ambas estas pontas se tomarão 
cada uma em sua mão, levantando com ellas as ca- 


elladas de ambos os olhos egualmente, até-que ellas 
cubram os bugalhos de ambos os olhos, e atarão as 


“se cortarão as pontas. 
Lembro que quando se furar a capellada do olho, 
"que seja bem no meio d'ella, que não haja maior dis- 
*tancia de um canto aonde o furo se der que ao outro; 
"porque com mais facilidade ficam os olhos cobertos e 
menos o sentem as aves; e basta aos que tem enge- 
nho, qualquer demonstração para saberem fazer as 
“cousas. 
| | Chegando a casa com o Falcão encamizado, e com 
"os olhos cozidos, como já disse, convem que primeiro 
que se lhe descozam se busque caparão que lhe po- 
nham, o qual lhe porão depois de terceiro dia, por 
“que ainda que sem elle esteja não é damno, que se 
“lhe ha de correr a cabeça e rosto com uma penna e 
| com a mão algumas vezes para se lhe tirarem as co- 
| cegas, antes que se lhe ponha; ainda que isto convem 
faça o caçador, mas o redeiro que saiba proceder 
E modo não perde, nem na ave que tiver os olhos 
“cozidos alguns dias ha perigo, que quando se lhe des- 
| cozem os olhos com a bocca e lingua lhe concertam 
“as capelladas em seu logar, e querendo proceder cem 
“elle até ser manso e ensinal-o de todo, o farão como 
“digo no capitulo das advertencias e preceitos, e re- 
gra dos nebris, onde verá o caçador como se ha de 
"haver com elle, lendo todas desde o principio terá o 
"o fim desejado, que é deter o Falcão manso e gar- 
* Ceiro. 


92 BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 
LL raras 


CAPITULO XII 


Da armadilha do brete e da sorte de passaros que com 
elle se tomam 


STA É mui aprazivel e quieta, a qual se faz diffe- 
rente das que até aqui tratamos. 

Com ella se tomam papafigos, melros, pican- 
ços, negraes e alvares, raberuivas, tutinegras, rouxi- 
noes, tralhões, chascos, e todo o genero de passaros 
silvestres, os quaes vem a criar todos os annos de 
verão a Hespanha. 

E por que com rêdes se não podiam tomar, por 
não se ajuntarem nunca, e cada um por si buscar o 
bicho de que se ha-de manter apartado dos outros, 
inventaram os homens uma invensão de engano para 
caçarem estes, os quaes cuidavam que por estarem 
nos mattos, e apartados das gentes, não seriam nunca 
caçados nem enganados. 

Do receio e espanto que elles fazem se formou a 
morte d'elles, os quaes, com serem de differentes espe- 
cies accodem todos a uma voz que elles entre si tem, 
quando se queixam ou espantam, o que fazem em 
vendo alguma cousa de que se receiam, á qual acco- 
dem todos, em cujo o ouvido sõa este brado e voz, 
que é facil de fingir e se contrafaz com muita faci- 
lidade. 

Tomando uma faca na mão direita, tendo os beiços 
da bocca ambos juntos e fechados, posto o gume da 
faca no meio d'elles e do nariz, e o cabo na mão di- 
reita sobre a barba, tendo o gume como digo, sopram 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 93 


* com os beiços jnntos com força, e o vento que pela 
* bocca sahir se divida com a faca, e faz isto um soido, 
* similhante ao dos foguetes, mas mais tenue e delga- 
| do, e indo a meio espirito do ar, que nem sempre se 
'assopra de um modo, hão-de fazer com os beiços e ar, 
que pela bocca se larga, como os que tremem com 
* frio de maleitas, e lhe batem os dentes, e com esta 
“voz hão-de porseguir, não cessando. À ella accodem 
"como nós ao aqui d'el-rei. 

E para se tomarem busca o caçador bosques de 
silvas, matos, e arvoredos ou pomares onde sabe que 
'* elles andam, e junto a estes logares apartado um pouco 
' dos bosques, em algum escampado fará uma choça 
' em que se esconda, um tiro de malhão da matta, e 
| não deixará pausinho levantado d'onde se possam 
* pôr os passarinhos que á voz accodem, e junto á mes- 
' ma choça se põe o mocho em cima de uma rodeli- 
' nha de cortiça do tamanho da palma da mão, a qual 
| está mettida em uma haste do comprimento de uma 
| vara de medir, e na mão terá o brete deitado fóra 
da choça, convidando aos passaros que pouzem n'elle, 
porque para isso não ha-de haver nenhuma mouta, 
nem páu em que se possam pôr senão o brete, no qual 
elles se pôem sem temôr, que mais se espantam da 
vóz que ouvem, e do mocho que á vista tem, que de 
tudo; e assim se tomam muitos d'estes passaros encer- 
| rados em seus bosques; tambem em lugar de brete, se 
| põem varas de visco. 

à O bretese faz de dois páus delgados e direitos, do 
comprimento de um covado de medir; em um d'es- 
tes páus se ha-de fazer um vão a modo de meia can- 
na fendida, e n'este vão se ha de metter o outro 
* pauzinho roliço; ambos hão-de ser direitos, e justarem 
| o macho e femea de modo que se não escôe um ca- 
| bello, e juntos em um não serão mais grossos que 


94 BrsLioTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES 


rara 


quanto baste pousar n'elle um passarinho, que hão-de 
servir ambos de os tomarem pelos dêdos; basta que 
juntos ambos sejam de grossura de um dêdo, e para 
isto se fará um buraco bem na ponta do páuzinho, 
que tem o vão como meia canna, nas costas do re- 
dondo d'elle, bem no meio, e para não errarem, terão 
ambos os páus juntos macho e femea bem atados, 
trabalhando quanto possivel fôr que o buraco que se 
começou bem na: ponta venha sahir ao vão da meia 
canna, e passe o pau redondo juntamente a outra parte 
d'ambos os páus, inviosado quanto fôr possivel ; e no- 
tem, que mandei dar o buraco na ponta do páu da 
meia canna, e folgarei que saia no outro redondo 
abaixo da sua ponta, grossura de um dêdo perfeito; 
e assim farão outros no meio dos dois páus, come-. 
çando pelo páu redondo, sahindo pelo meio do vão 
da meia canna, as costas d'elle enviosado como o de 
cima, pelos quaes buracos ha-de servir um cordelzinho 
de duas ou tres linhas; estes dois buracos se darão no: 
meio do comprimento, abaixo outra tanta distancia 
como do da ponta ao meio se farão outros dois da 
mesma maneira, tambem enviozados; e assim ficam 
os páus que hão-de servir de tomar os passarinhos, 
perfeitos. 

Lembro, que disse acima: que bem nas pontas se. 
faria o buraco, os quaes hão-de servir de fóra, as pon-| 
tas debaixo tres dedos ficarão sem furos, as quaes se. 
metterão em um páu de figueira grosso, que ha de. 
servir de o ter o caçador na mão, e pela parte d'onde 
elles ambos fecham bem na ponta, cortarão alguma | 
cousinha d'elles que os faça apartar, que os não abar- 
que o passaro ambos com a mão. f 

O fio de duas ou tres linhas que disse haver de ter, 
seja de comprimento de dois covados, que ha de ser- : , 
vir de os ajuntar quando se puzer o passaro, feito com ' 


- ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 95 


' tão boa arte que o passarinho que pousar se não es- 
| coe, e fiquem tão unidos que nem um cabello se possa 
“Sahir d'elles. 

E d'esta armadilha nasceu o rifão, que diz, elle me 
cahirá no brete. 


) 


ERPITULO XIV 


De como se tomam com armadilhas perdizes e codor- 
n1Z€S 


+ ONTRA as perdizes e codernizes se armaram os 
homens de maneira que uns as caçam com 
Açores e Falcões voando pelo ar, outros com 
cães de mostra, outros a coço com cavallos e cães, e 
os moradores do campo com armadilhas que inventa- 
ram do modo que elles tem em seu viver; estas an- 
dam juntas; se acaso as levantam e se espalham, 
chamam a recolher como soldados, e á noite para se 
ajuntarem, por que alguma se aparta algum pouco 
das outras, para de noite estarem amalhadas, chamam 
a se ajuntar; deste seu chamamento inventaram a 
| caça de perdigão, com que se tomam muitas,e em ichós 
| e com boizes de inverno nos pés das trovisqueiras, 
“com espigas de trigo, e com candeio, porque como 
ellas á noite se ajuntam, os homens do campo as es- 
piam por verem d'onde ficam, e tendo-as amalhadas 
vão com candeio, e com uma rêde estendida em duas 
| hastes as tomam, por que ellas se agazalham unidas. 
n Aconteceu a um lavrador avizado por um pastor 
seu que vira ficar uma banda d'ellas, il-as tomar com 
' candeio, e um lençol á falta de rêde. 
| Estas e as codernizes tem muita similhança no 


SEN PERO 


FCEE 


96 BiBLIOTHECA DE CLASSICOS PoORTUGUEZES 


modo de criarem seus filhos, e no sabor e gosto que 
tem sendo comidas, porque cada uma especie d'estes 
passaros criam dez, quinze e vinte filhos de uma ni- 
nhada, e as perdizes, ás vezes, trinta; porque estas | 
muitas vezes pôem duas em um ninho; o que se sabe, | 
porque muitas vezes acham os homens do campo os. 
ninhos d'ellas começando de pôr, e tornando a elles 
vêem os ovos dobrados, a dois cada dia, e assim che- 
gam a pôrem trinta ovos; não tem trabalho a buscar 
de comer aos filhos, ellas nem as codernizes, porque 
uns passarinhos, e outros com a casca do ovo pega- 
do, assim se sahem a buscar de comer, andando em 
companhia das mães. 

Logo nascem com as pennas, voam sendo muito 
pequenos, e as codernizes fazem o mesmo; as quaes 
se tomam com armadilhas, e para se tomarem, fingi- 
rão os homens a voz de femea com um réclamo, que 
ordenado com arte, contrafaz a voz, á qual accodem 
os machos no tempo que andam em seus requebros e 
n'aquelle em que as femeas estão em choco. 

Nas vinhas aonde elles soam chamando pela fê- 
mea, se tomam com um tremalho de altura de um | 
palmo, levantado com umas vergazinhas, porque ellas | 
vendo a voz do réclamo, furando as hervas, e furan- | 
do pelo tremalho que é alvitanado, se enredam. 

Tambem se tomam com uma rêde estendida sobre 
as sementeiras; vindo ellas andando por entre ellas 
até entrar no meio da rêde as levanta o caçador, e 
ficam enredadas. 

São tão cegas estas no tempo de seus amores, que 
ao réclamo vem até os pés do caçador. 

Tambem se tomam as perdizes com uma armadilha 
a que chamam boi, que devia de ser inventada por 
verem que as perdizes andam entre os bois, não se 
espantando d'elles; d'onde vieram aos homens a fingir 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 97 


um boi phantastico, que se faz de panno tinto da côr 
dos mesmos bois, que deixo, porque merece ser des- 
terrada do mundo, e os reis d'este reino castigam com 
pena aquelles que uzam d'ella. 


CAPITULO XV 


Da albardilha como se faz e arma para se tomarem 
Falções 


uITAS armadilhas deixo de significar nesta 
quinta parte, por serem mui ordinarias, e 
não de tanto effeito como as de que tenho 
tratado, ainda que a albardilha posto que seja or- 
dinaria entre os caçadores, assim para se tomarem 
Falcões bravos, como para cobrarem os mal recolhi- 
dos, me pareceu mui necessaria ser sabida de todos, 
a qual se faz de fios do arame delgado e sedas de 
cavallo, tomando tres fios do arame e a cada um 
ajuntando sedas que possam vir a fazer um laço, e 
assim irão fazendo uma trança, entrepolando as se- 
das que fique de laço a laço uma polegada, e os la- 
ços serão de comprimento de uma mão travessa só- 
mente, e taes que os não quebre o Falcão; d'esta 
trançadeira se fará um ovado como meio cidrão pe- 
queno cortado pelo meio ao comprido, e pelo meio 
que é redondo se porá um arco pequeno da mesma 
trança, que fique significando o meio cidrão partido 
debruçado para baixo. 
E advirto, que n'este arco, que disse, se puzesse 
pelo meio do vão do ovado, que tambem ha-de levar 
seus laços entrepolados como os das ilhargas, e as- 


FOL. 6 VOL. II 


98 BreLioTHECA DE CrAssiCOs PORTUGUEZES 


sim fica a armadilha que se ha-de pôr sobre as cos- 
tas da pomba. 

Nos dois arcos do ovado, no meio, se atarão uns 
cordeis pequenos, pelos quaes hão-de ser mettidas as 
perninhas da pomba, e outro cordel na ponta do 
ovado, que ha-de atar na reigada do pescoço, a outro 
cordel pequeno na ponta do ovado para se atar na 
reigada do cabo, para assim a albardilha ir firme so- 
bre as costas da pomba; a qual se armará depois de 
os laços estarem armados como os das tellas com 
que se tomam perdizes e se deitará a voar com toda 
a vista, indo atar na albardilha um cordel de linhas 
delgada e rijo, e bem comprido, bastante a ter o Fal- 
cão que se enlaçar. 


CAPITULO XVI 


Dos milhanos e como se tomam com armadilhas para 
treinarem os Falcções 


os milhanos ha dois generos, uns ruivos, ou- 

tros negros; os negros são estrangeiros e an- 

dão em peregrinação, são mais pequenos que 
os ruivos, os quaes são vistos em toda nossa Hespa- 
nha, onde criam, ali moram sempre; tem o cabo for- | 
cado porque as pennas ultimas d'elle são mais com- | 
pridas que as do meio; o peito tem coberto de pennas | 
ruivas, buscam de comer como as aguias, pondo-se al- | 
tos no ar, e com elle se deixam ir ás voltas olhando a | 
terra; se se lhe offerecem patinhos pequenos descem a ú 
elles, e aos frangãos, e se fazem presa no ar a comem; | 
e assim se se lhe representa um bichinho, o mesmo. ; 


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ARTE DA CAÇA DE ALTANERIA 99 


=. 


fazem, mas seu proprio comer são carniças morri- 
nhosas, pelo que os caçadores os tomam para treinar 
os Falcões, com rêdes de tombos, pondo dentro 
n'ellas um cão morto esfolado, e assim os toma- 
va eu, sendo moço, para treinar os sacres e gerifal- 
tes. 

Esta rêde se fará de malhas maiores que as que cos- 
tumam para tomar aves em os bebedouros, e ellas 
maiores, e os tombos o mesmo, e o cordel por onde 
o caçador ha-de puxar muito comprido, e se armará 
dentro em curraes de pedra, em campinas razas, lim- 
pas de arvores e mattas, e se porá o cordel esten- 
dido por onde se ha-de puxar para aquella parte 
d'onde possa o caçador chegar ao tomar, sem ser 
visto, nem sentido do milhano, que se levantará; e 
não havendo curral se buscará tal terra que haja po- 
der ser isto, e dentro da rêde se porá o cão morto 
esfolado, e se deixe a rêde se o milhano veiu a ella 
uma vez, elle tornará, que logo se conhece na falta 
que fez na carne do cão, que estas aves se detem 
em comer. 

E advirto ao caçador, que sendo caso que o mi- 
lhano esteja posto á vista da armadilha se ausente de 
modo que o milhano o não veja, que em quanto elle 
vir gente não ha-de descer. 

A mim me aconteceu ir pela manhã visitar a mi- 
nha rêde, e o milhano estar posto sobre o curral das 
pedras, e me puz bem longe assentado e estive todo 
o dia aguardando até á noite que se foi sem comer. 

Ao outro dia veiu e o tomei com esta armadilha, 
que assim a costumavam os caçadores do infante 
D. Luiz, a quem meu pae servia n'esta arte. 

Agora se tomam tambem com a rêde de bufo, que 
ensino, por debaixo das arvores, que com a sombra 
d'ella, fica cega, e menos visivel, e ás vezes se en- 


100 BrBLIOTHECA DE CLAssICOSs PORTUGUEZES 


ganam indo ás voltas se mettem por entre as arvores 
e cahem na rêde, que estas aves são tão cautelosas 
que com descerem aos pintos e patinhos, se lh'os põem 
dentro no aranhol que está levantado da terra os 
não olham, pela qual rasão convem haja caçador en- 
genhoso. 


CAPITULO) ea 


Da pena que tem a pessoa que mata o Falcão ou 
Açor perdido levando cascaveis 


CONTECE muitas vezes perderem os caçadores 

os Falcões e Açores com que caçam, e para 

que saiba a pena que tem as pessoas que 
achando-os no campo os matam, me pareceu ser ne- 
cessario contar o que aconteceu em França em um 
caso similhante, o qual Guilhelmo Benedicto conta 
em seu livro de leis-— zm verbo venatione. 

Um lavrador andando no campo tomou um Falcão 
que n'elle achou com cascaveis e o levou para sua 
casa, e atou ao pé d'um banco, dando-lhe de comer 
pão e queijo, e carne salgada, parecendo-lhe que 
sendo curado com os comeres de que elle se susten- 
tava satisfazia a necessidade do Falcão, e assim tra- 
tado acabou o pobre passaro a vida em poucos dias. 

Pediram este Falcão por justiça ao lavrador, o 
qual se defendeu, dizendo que o curara com muito 
amor, e que lhe pesava muito de morrer, e que não 
sabia outro modo melhor que cural-o como sua pes- 
soa, valendo-se da ignorancia. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 101 


Provando-se-lhe que levava cascaveis e que soavam, 
que eram mostras de ter senhor, que o houvera de 
deixar que o seu dono o buscara, foi condemnado o 
lavrador na valia do Falcão. 

Esta causa traz Bartholo no capitulo de Falcane. 


SEXTA PARTE 


Que trata da peregrinação das aves em geral 


TÉ aqui tratei das aves de rapina, e brevemente 
disse como os italianos e francezes chamavam, 
aos Falcões nebris peregrinos. 

A causa da peregrinação d'elles, e de todas as 
aves, se dirá n'esta sexta parte, na qual declararei a 
causa porque as aves do norte se sahem de suas pa- 
trias peregrinando por terras e regiões estranhas, € 
em que tempo o fazem, e no em que se recolhem ás 
suas terras d'onde vieram, para n'ellas criarem seus fi- 
lhos. 
Mostrarei tambem como as nossas de Hespanha 


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Esago SA- 


* Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 103 


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fazem o mesmo, e quaes sejam as agrestes e silves- 
tres, e a differença que tem umas de outras, assim na 
criação dos filhos, como na conservação da sua gera- 
ção, e a ordem que tem cada sorte no governo da 
sua vida, dado da natureza; e tambem se dirá das 
aves naturaes que não peregrinam, as quaes na terra 
d'onde nascem ali moram, sofirendo as calamidades e 
injurias do tempo. 
De alguns farei menção em capitulos separados. 


Í 


CAPITULO 1 


Da peregrinação das aves do norte 


EUS nosso Senhor deu a todas as creaturas seu 
instincto natural para se governarem por or- 
dem da natureza, e modo de viver, buscando 

remedio á vida, para conservação do genero de cada 
uma d'ellas. 

O que se vê bem claro nas aves de rapina, cuja 
moradia é essa Noruega e a Suecia e outras partes do 
norte, onde os Falcões nebris, gerifaltes, sacres e ba- 
faris, criam seus filhos, e outras muitas aves que a 
estas partes passam, entre as quaes vem algumas de 
notavel grandeza á nossa Hespanha, França e Italia e 
ainda ás partes de Africa. 

São tantos os milhares de contos de aves que a es- 
tas partes passam, que escurecem as muitas da nossa 
Europa, em cuja companhia vem os nebris e bafaris, 
os quaes se vem cevando na companhia d'estas aves, 
e por andarem nesta passagem e peregrinação todos 
os annos, lhe chamam os francezes e italianos Fal- 


104 BizLIOTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES 


cões peregrinos; e se apartam por muitas partes de 
França e Italia. 

Dos que n'este reino ficam, são mui estimados, 
aquelles que se tomam no campo de Santarem e no 
de Coimbra, e nos que em Castella nas rosianas de 
Sevilha, por n'estas partes se cevarem em aves gran- 
des e de differentes côres; tambem são vistos no cam- 
po de Evora cidade, e Beja, n'este reino, e em Olme- 
do, em Castella. 

Estes não são tão louvados, porque muitas vezes 
se cevam em pombas e zorzaes, e se tomam em 
muitas partes com armadilhas. 

Os que se tem por melhores são os do campo de 
Santarem, os de Coimbra e os das rocianas de Sevi- 
lha, por se cevarem em aves de muita grandeza. 

Os gerifaltes e sacres não são vistos n'esta pere- 
grinação, e não me posso persuadir se deixem ficar 
nas terras d'onde antes se mantinham das aves, 
ficando ellas sem nenhumas, ainda que alguns gran- 
des caçadores tem opinião de os sacres se manterem de 
animaes morrinhozos, como os milhanos em Hespa- 
nha e corvos; soffro isto n estes Falcões, mas os ge- 

-rifaltes parece ser o contrario da experiencia, os 
quaes se devem tambem de sahir, por algumas vezes 
se tomarem em naus, como este anno de ÓIA4 se to- 
mou um em uma nau flamenga, o qual o mestre 
apresentou ao duque d'Aveiro, e elle o mandou a 
sua magestade; e na costa do Brazil se tomou outro, 
o qual se deu ao infante D. Luiz, filho d'el-rei D. 
Manuel, e era tão alvo como uma pomba. 

Na ilha de Layron se tomou outro gerifalte branco 
sáfaro, tido por grão maravilha. 

Assim o testemunha Pero Lopes d'Avyala, o qual 
offereceram a el-rei Zacharia, de França, e o teve 
por estado sem fazer nada com elle; e como os sa- 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 105 


+ 
cres e gerifaltes sejam Falcões grandes e pezados, 
não podem seguir voando a companhia das aves em 
que os nebris se cevam, por não serem de tanto 
alento, e devem de ficar por essas ilhas onde passem 
o inverno, pelo que não são vistos por estas nossas 
"partes. 

Todas estas aves do norte que a estas partes pas- 
sam se tornam a recolher dês de fevereiro até o fm 
de março; e se algumas garças ou verdizellos ficam, 
é a causa alguma enfermidade. 

Das que n'esta passagem andam de notavel gran- 
deza, direi em capitulos apartados. 


CAPITULO II 


Dos tordos e estorninhos 


ssmmM como das partes do norte vem invernar as 

aves d'elle ás nossas comarcas, o fazem os tor- 

dos e zorzaes, os quaes vem das partes do sul 
ás nossas azeitonas. 

Os zorzaes criam na ilha do Fayal e Terceira, os 
tordos em Africa, como parece de um adagio, e é 
que tornando-se elles para Africa encontrando as an- 
dorinhas que vinham, ellas lhe disseram : 

D'onde vindes loucos, que fostes muitos e tornaes 
poucos? Donde vós ides juntas, que ides poucas e 
tornaes muitas? 

Os tordos se tomam n'estas partes com armadi- 
lhas, e são gostosos ao comer e gordos, o que não 
tem os zorzaes, que são magros e duros, e vem gran- 
des bandos ás nossas azeitonas, acompanham as pom- 


106 BrsLioTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES 


bas e se agazalham de noite com ellas em os pom- 
baes. 

Em um que eu na Cuba tenho, se tomaram em uma 
noite quatro centos e oitenta, tapando as trapeiras do 
pombal com mantas, e com um candeio accezo, só 
posto a um canto, junto a algumas pessoas, com uma 
canna bolindo o pombal, elles se iam á claridade, e 
os tomavam ás mãos, não fazendo as pombas nenhum 
movimento de si; são aves que fazem eo nas azei- 
tonas, por serem muitos 

Os Gaviões e Ialcões se cevam d'elles. 

Em apontando o verão se tornam, ficando alguns 
que cá criam, com nome de estorninhos, nos quaes 
não ha differença. 

Os curiosos os criam de pequenos e os tem em 
gaiolas, por alguns d'elles fallarem estranhamente, 

Uma freira, em Badajoz, teve um, grande chocar- 
reiro e fallador, o qual lhe fugio no tempo do cio, e 
se ajuntou com outros bravos, e cazo o tomaram 
com alguns mais em uma rêde. Estando elle assim 
enredado, vendo que o caçador matava os que tirava 
d'ella, lhe disse — não me mates que sou da abbadessa 
de tal mosteiro. 

O caçador alegre com a presa, mandou recado á 
dona do seu passaro, que tinha um negocio de impor- 
tancia que tratar com ella. Veio, e dizendo-lhe o ca- 
çador se daria alviçaras a quem lhe desse novas do 
seu estorninho, ella lh'as prometteu. 

Na voz conheceu, o démo do passaro, a senhora 
que o creára e lhe fallou dizendo-lhe — senhora, aqui 
estou. 

Tomando-o ella nas mãos, queixando-se, dizendo— 
por que me queimaste o sangue e te foste? 

Ao que elle respondeu: — Senhora, estes amores 
deitam a perder a gente. 


A 


Arre DA CAÇA DE ÁLTANERIA 107 


D. Henrique, senhor das Alcaçovas, criou um fran- 
celho de rama em sua casa, o qual viveu vinte e oito 
annos, e todos no tempo de criarem os filhos, se 
ajuntava com os bravos, e no campo os criava, e se 
o comer lhe faltava para elles o vinha buscar a casa 
dos senhores, e tendo os filhos criados se tornava a 
casa dos amos, onde estava tão quieto e domestico 
como que não tivera companhia com os bravos. 

El-rei D. João II fallando com D. Henrique, de 
cujo o francelho era, lhe contou que elle mandára ao 
imperador Carlos V um papagaio que fallava e res- 
pondia a proposito; o passaro vendo-se entre gente 
que não conhecia, por mais que o imperador lhe per- 
guntava, a nada respondia; mandou chamar o homem 
que lh'o levara e lhe disse : 

—El-rei nosso senhor me escreveu maravilhas d'este 
papagaio, pergunta-lhe qual é a razão por que não 
falla ? 

João Fernandes (que assim se chamava o homem 
que o levou) lhe perguntou qual era a causa por que 
diante de Sua Magestade não fallava, ao que o papa- 
gaio respondeu : 

— João Fernandes, não me entendo com esta gente. 

Assim como estas que mostram fallando que se en- 
tende, da mesma maneira podemos colligir entende 
rem-se umas com outras. 


108 BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


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CAPLTU EO TE 


Dos grous 


ÃO os grous aves grandes de corpo, excedem 

na grandura d'elle a todas as aves que passam 

a estas partes; tem as pernas e pescoço e bi- 

co muito compridos; postos em pé com a cabeça le- 

vantada em alto serão da altura de um homem de 

boa estatura; as pennas de que tem o corpo coberto 

são de côr azul claro, e nas azas e cabeça algumas 
pennas pretas. 

Criam na India oriental, em as praias e lezirias do 
rio Indo, do qual toda a India tomou o nome. 

Os reis e senhores d'aquellas partes os não matam, 
antes castigam com grandes penas a todos os que 
mal lhe fazem, por terem contratadas as pennas que 
elles cada anno mudam por muito dinheiro; a causa 
d'este contrato são os martinetes, que os reis e gran- 
des senhores e as princezas do mundo trazem nas gor- 
ras e grinaldas em cima de suas cabeças, por galhar- 
dia, os quaes os contratadores ajuntam das pennas 
que os grous todos os annos mudam. 

Estes e outros que criam em outras partes passam 
de inverno a toda a Europa, e o mar em Africa; 
recolhem-se a criar aonde vieram, no fim de feverei- 
ro; a cauza d'esta peregrinação e passagem de cada 
anno, é falta das hervas e sementes, das quaes elles 
se sustentam, por razão das grandes neves que lhe 
cobrem as terras e o pasto de que se mantem, e as- 
sim constrangidos da fome andam n'esta peregrina- 
ção buscando de que sustentem a vida n'aquellas 
partes onde haja hervas e sementes que comam. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 109 


Ovidio que na invenção das fabulas faz vantagem 
a todos os poetas, d'estes grous conta uma famosa; 
por ser das aves ralés dos nossos Falcões a escrevo, 
e bem saiba o caçador algumas d'ellas para entrete- 
nimento da caça, emquanto se não faz voaria, 

Diz elle que Primea era rainha, e teve competencia 
com Juno, mulher de Jupiter, o qual estomagado 
d'ella, a converteu em ave grou, e que em pena do 
seu atrevimento lhe não obedecessem nunca os pi- 
gmeus, seus vassallos. 

Plínio diz que estes pigmeus é gente pequena de 
corpo, e que na altura são de dois pés e um quarto, 
os quaes se armam com arco e frechas cavalleiros, 
em cima de cabras e carneiros, e assim armados cada 
tres mezes entram em batalha campal com os grous, 
e que das cascas e pennas d'estas aves fabricam suas 
casas; daqui será o que fôr. 

Pero Lopes d' Ayala no tratado que fez da caça de 
Falcão, diz, que quando os grous se tornam, tomam 
terra no reino de Babylonia em algumas partes, nas 
quaes os senhores d'aquellas partes os vão aguardar 
no passo com Falcões, os quaes lhe levam os allemães 
por contrato, e tanto dão pelo que lhe levam morto, 
como pelo vivo, para que assim estejam providos pa- 
ra este passatempo, o qual dura por um mez, como 
o passo dos nossos passarinhos, quando se recolhem 
a invernar á Africa, que se ajuntam no cabo do Es- 
pichel e Cascaes com fréto vento soão, e ventando 
norte se passam. 

D'estes tratarei adiante na sua caça, que se faz com 
os Gaviões. 

Alguns escriptores dizem que estas aves dormem 
com uma pedra na mão e a tem levantada, e estão so- 
bre um só pé para que assim estejam mais vigilantes; 
digam-me como o sabem e quem os vio, que o que 


ITO BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


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eu sei é que todas as aves de rapina, e as garças, e as 
patas bravas e as coreixas quando querem dormir seu 
somno solto e descuidado encolhem uma das mãos, 
e à põem de longo do peito mettida por entre as 
pennas, e viram a cabeça por detraz das costas e a 
mettem por entre as pennas das azas para terem o 
rosto quente, e se inclinam sobre um só pé, e d'este 
modo dormem descançadas. 

Vulgarmente, dizem alguns, que aquelles que co- 
mem carne de grou, não morrem aquelle anno; ha 
d'esta carne tão pouca que o devem de dizer de burla, 
que os grous não são tão bons de caçar que são aves 
cautelosas, as quaes com terem suas dormidas certas, - 
por não serem vistos dos homens, vem a ellas muito 
de serão, as quaes elles tem e escolhem junto d'algu- 
mas ribeiras nadiveis e grandes pégos, e lagõas famo- 
sas em campinas razas, limpas de arvoredo e mattas, 
e hoje não ha caçadores de Falcões tão astutos e sa- 
bios que com elles os cacem como no tempo d'el-rei 
D. Fernando; que Pero Lopes, diz d'elle no mesmo 
tratado, que tinha cem Falcões garceiros e cem alta- 
neiros e outros tantos garceiros. E de tantos, hoje, 
onde acharemos um ? 

Tambem querem que se um d'estes grous cança o 
levam os outros ás costas; são muito pesados; nasceu 
isto que como elles voam em fileiras, uns após os ou- 
tros, quando se achegam muito que se encobre o cla- 
ro d'entre elles lhe parece que póde ser o que dizem 
os que das aves querem escrever, estando debaixo da 
telha sem as verem, nem tratarem. 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA HI 


CAPITULO IV. 


Das garças 


ARÇAS SãO aves peregrinas, passam a estas par- 

tes muitos milhares d'ellas a ter o inverno 

fóra das regiões d'onde de verão moram e 

criam seus filhos, que são esses lagos, ilhas, rios e de- 
sertos, debaixo do norte. 

Da sua passagem tratei no capitulo primeiro d'este 
tratado, que são as neves que lhes coalham os rios e 
lagõas d'onde ellas pescavam suas comidas. 

São aves grandes de corpo, muito pernaltas, e bico 
e pescoço comprido, e tem muito estendidas azas ; 
postas em pé direitas darão pelos peitos a qualquer 
pessoa; tem pouca carne, pelo que são leves em seu 
voar, mas gordas, cuja gordura e as banhas mettidas 
em o seu bucho, elle curado ao ar e fumo, é mui ex- 
cellente remedio para frialdades, principalmente as 
sciaticas, de tumor frio; as pennas de que se vestem 
são de côr azul claro, tem os olhos graciosos, tiran- 
tes á mesma côr das pennas; é passaro grave, bem 
estreado, seu vôo é estimado dos principes por ser 
ave bella, o seu proprio nome é garça real, por que 
ha outras a que chamam garças ruivas, por que são 
bem similhantes ás reaes na feição e talhe, mas são 
de côr ruiva nas pennas de que estão vestidas. 

“Da caça d'estas se não faz tanto caso que são aves 
mesquinhas. 

As reaes são ralés proprias do Falcão de fama, por 
que estes as vão prender mettidas nas nuvens, quasi 
perdidas de vista, as quaes quando vem a estas par- 


112 BrBLIOTHECA DE CLassicOs PORTUGUEZES | 


tes passam juntas, e depois de chegadas se apartam, 
buscando rios caudalosos, e ribeiras nadíveis e gran- 
des lagos e lagõas famosas, e logares humidos, apaú- 
lados e marinhas e lezirias dos rios, nas quaes pos- 
sam achar cibalho de que se sustentem e comam; e 
nas grandes enchentes de rios caudalosos se passam 
aos menores; d'onde se põem um dia se deixam estar 
aguardando que se lhe offereça a enguia, rã, cobra ou 
rato, e o peixinho, e outras cevandilhas d'agua que 
comam. E assim cada um por si busca seu manti- 
mento, o que não fazem as aves que se mantêem de 
sementes e hervas, que andam juntas, e assim andam 
até fins de fevereiro, que se recolhem, ainda que d'el- 
las ficam algumas por fracas, e alguns verdizelhos. 

O que se sabe, por que os caçadores matam algu- 
mas d'estas aves não tem mais que a penna, de ma- 
gras, e por se não atreverem a voar áquella distancia 
de tempo bastante até chegar onde vieram, ficam e 
criam d'ellas nos logares apaúlados, como nos de Al- 
meirim, onde criam os nossos martinetes e zambra- 
lhos e colhareiros, garçotas, e as meãs e perotas, aves 
que parece serem creadas para a caça real dos reis e 
grandes senhores do mundo, porque nos talhes e for- 
mosura fazem vantagem a todas as outras aves; as 
quaes parece crial-as Deus, Nosso Senhor, para este 
passatempo, e os grandes se entreterem sem estarem 
ociozos. 

E posto que ellas á vista se avantajam na formo- 
sura e feição e côr das pennas das mais aves, não 
são gostosas de comer, porque a carne d'ellas cheira a 
montes, e tanto que até os Falcões se veem a enfas- 
tiar se lhes dão sempre de comer da sua carne, e à 
engeitam, pelo que as não querem vêr. 

Os grandes caçadores praticos desta arte de caça, 
ainda que os seus Falcões façam maravilhas em as ma- 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA II3 


tar, lhe dão gallinha escondida por baixo das azas, e 
d'ella o coração e canadas, e a depennar emquanto 
elles estão com estas coleras, que a gallinha não al- 
tera nem enfastia, ainda que nem todos as engeitam 
por isso; mas o melhor e mais seguro é dar gallinha. 

Todos os reis e principes do mundo se entretem 
com este passatempo. 

Ulisses, que foi o primeiro inventor d'esta caça, a 
exercitou por evitar e alliviar a pena que lhe dava a 
lembrança da morte dos parentes e principes seus 
amigos, que no cêrco da cidade de Troya acabaram; 
como astuto e prudente, que era, buscou este modo 
de passatempo, o qual embaraça cuidados pesados e 
tristes, e faz os homens ardilosos para a guerra, por- 
que a natureza a todas as creaturas deu seu instincto 
natural para offenderem e se defenderem dos seus 
inimigos, pela qual razão os reis tem esta caça e são 
amigos d'ella, como sempre foram os nossos antepas- 
sados, deixando áparte os que não conheci. 

O infante D. Luiz, filho d'el-rei D. Manuel, irmão 
d'el-rei D. João III, principe de altos pensamentos, 
foi um grande caçador de Falcão, e teve em seu ser- 
viço oitenta caçadores assalariados, muitos d'elles ex- 
trangeiros, mui praticos n'esta arte; e elle no paço e 
casa d'onde estava tinha Falcões e os dava em cui- 
dado aos seus moços da camara, dos quaes eu conheci 
alguns muito nobres, e cada caçador tinha á sua conta 
dois e tres Falcões. 

+ Meu pae, Pero Ferreira (que tambem o servia de 
seu moço da camara) foi excellente n'esta arte, e de- 
pois da morte d'este principe serviu ao senhor D. 
Antonio, prior do Crato, filho natural d'este principe, 
o qual seguindo as pisadas e pensamentos do pae teve 
mui redonda caça de Falcões, garceiros e milhanei- 
ros, e altaneiros, e Gaviões e Açores, e foi homem de 


FOL. 7 ; VOL. II 


II4 BreLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


altos pensamentos, que assaz custaram á nação por- 
tugueza. 

Este senhor a quem eu servia de pagem, e n'esta 
caça me assignalava por me haver criado n'ella dês de 
menino, me era afieiçoado, o que deixo, por voar uma 
garça, pois d'ellas é este capitulo. 

Sahindo meu amo á caça da villa de Montouto, an- 
nexa ao seu priorado, a qual elle foi visitar, acompa- 
nhado sómente dos caçadores, tendo voado o milha- 
no, e morto dois pares de adães com os Falcões alta- 
neiros, e com os Gaviões, pegas e ferdizelhos, já quasi 
sol posto, achamos uma garça; o seu caçador mór 
lhe metteu um sacre na mão, e lhe disse: 

— Mate Vossa Exceilencia esta garça. Elle que era 
bem engenhoso largou o sacre o qual a rendeu no 
mesmo pêgo d'onde se levantou. 

Alguns dos caçadores se lançaram ao pêgo por se 
a garça erguer antes que o Falcão se pozesse em ter- 
ra, a qual sahio da agua por aquella parte d'onde o se- 
nhor D. Antonio estava, e por falta de vento, e não 
tomar terra com os pés, se não poude levantar, e as- 
sim baixa foi voando por aquella parte d'onde este 
senhor estava, que a seguia com o cavallo, que era 
bello corredor, e a alcançou e levou nas mãos, menos 
alta que o senhor a cavallo; e foi festejado o caso do 
principe, e não quiz a entregasse ao Falcão, e m'a deu 
em cuidado; ao Falcão fizeram papo de uma gallinha, 
sendo já o sol coberto com a terra. 

Disse o caçador mor: Faça Vossa Excellencia como 
eu fizer. Tomou aposta a quem todos seguiram, che- 
garam em breve á villa ainda que eram duas leguas, 
onde estavam os seus, aguardando com a meza posta, 
tratando na ceia do passatempo d'aquelle dia com os 
nobres que o serviam, virando o rosto ao seu caça- 
dor-mór, disse: 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA IIS 


— Bem poderei eu já agora ganhar de comer por 
caçador ? 

— Pero Ferreira, a quem se fez a pergunta, respon- 
deu : 

— Muito bem, que tem Vossa Excellencia muito 
bom engenho. 

E sempre de similhantes respostas, nascem outras, 
perguntou de novo : 

— Que cousa é engenho ? 

O caçador embaraçado, respondeu : 

Engenho díria eu que era fazer aquillo que visse 
fazer a outro, e ajuntar-lhe alguma cousa mais. 

Meu pae, a quem a pergunta se fez, acabada a ceia 
veio a mim, que estava dando ordem aos Falcões, 
e me disse: 

— Filho venho morto, que me perguntou teu amo 
que cousa era engenho. 

Contando o caso, lhe disse: 

— À resposta que V. M. deu não foi de caçador de 
aves do campo, se não de cortezão sapientissimo, por 
que engenho, segundo dizem os histoicos, é um ha- 
bito em o prudente apressado inventor do que deve 
de fazer; outros dizem que é uma força d'animo com 
que inventamos o que nos não ensinaram ; os peripa- 
teticos dizem ser uma potencia naturalmente enxerida 
em os animos que estriba em suas forças, eu que é in- 
venção nascida da memoria e entendimento, achado 
para perfeição de alguma cousa que se haja de fazer. 


ITÓ BrzLiorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


LNLS LILA Aa a 


CAPITULO M 


Dos cisnes . 


+ ISNES são aves estrangeiras; na feição das mãos, 
sancos, azas, e pescoço e bico bem similhan- 
te ás nossas patas mansas. 

São tambem amigas das aguas, differem na côr, por 
que os cisnes são alvos como a neve; d'elles diz Po- 
neope em uma epistola de Ovidio a Enéas: 

— Quando sentem achegar-se-lhe o ultimo dia da 
vida se deitam sobre as hervas humidas, e em cima 
d'ellas, sentindo a morte, cantam dulcissimamente. 

São ralés dos Falcões nebris e gerifaltes, os quaes 
os Falcões prendem e caçam por industria de caçado- 
res, e muitos d'elles appetecem por sua natureza o 
branco. 

Ovidio d'estas aves, conta uma fabula: 

— Jupiter levado do desejo de Leda, mulher de Da- 
ro, rei de Lacedemonia, filho de Tito, ordenou uma tra- 
ma, fingindo-se cisne, e que o perseguia uma aguia, e 
por escapar ás unhas d'ella se acolheu aos paços de 
Leda, buscando seu favor e amparo, a que a aguia o 
não matasse, e assim voando e atemorisado buscou a 
pessoa da rainha; ella vendo a perseguição da aguia 
e o medo que o cisne fingido mostrava, o amparou e 
defendeu, e ainda recolheu em sua casa, vendo a for- 
mosura d'elle e a alvura das pennas, que como neve, 
eram claras, lhe mostrou ficar affeiçoada, e d'ali em 
diante teve conta com elle, que era o que Jupiter de- 
sejava, e assim conseguiu seu desejo; e de ambos nas- 
ceram dois principes, Castor e Polux, dos quaes diz 


ARTE DA CAÇA DE ÁALTANERIA 117 


mr 


Diodoro Ciculo em sua bibliotheca, serem reis mui 
poderosos nas partes de Tracia. 

São os cisnes aves com os quaes os senhores fol- 
gam e as tem em seus jardins, como hoje se vêem no 
de D. Francisco de Faro. 


CAPITULO VI 


Da ave Ema e da sua caça 


MA é passaro grande de corpo, chamada por 
outro nome abestruz, visto poucas vezes n este 
reino. 

Criam em Africa, no reino de Marrocos e no de 
Sus ; são as maiores de todas as que eu sei; são par- 
das na côr, nos pannos de armar se mostram tão na- 
turaes que parecem vivas. 

Estas sem estarem scbre os ovos, nem os choca- 
rem, sem buscarem de comer aos filhos para se cria- 
rem e sustentarem, lhes deu a natureza esta ordem: 
os ovos que parem, não os põem juntos, mas 
apartados algum tanto uns dos outros em fileira, e 
depois que tem posto os ovos, dos quaes hão-de 
nascer os filhos, parem outros defronte d'aquelles ; de 
uns nascem os filhos, os quaes em nascendo se vão aos 
outros ovos e com o bico os abrem e comem, até que 
tem forças para buscar de comer; e por estas aves: 
porem os ovos apartados uns dos outros imaginam 
os homens que com os olhos os chocam, e que bas- 
ta a vista para dentro gerarem os filhos. 

Proveu a natureza estas aves de arte que buscas- 
sem terra e região tão temperada e quente, que com 


IIS BrgLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


er 


a quentura do sol, e d'ella fosse bastante para se ge- | 
rarem os filhos; o mesmo acontece ás tartarugas cria- | 
das no mar, as quaes não parem filhos, se não ovos, e | 
por ellas se criarem no mar se sahem fóra d'elle, e 
põem os ovos em terra não tão longe da agua, que 
os filhos que dos ovos sahirem não atinem aonde suas 
mães vivem, que é o mar, as quaes buscam a terra 
temperada e quente, e tal, que nem a muita quentu- 
ra O asse e queime, nem a frialdade das aguas os go- 
re, que a divina providencia assim proveu ás suas 
creaturas, porque as tartarugas se sobre os ovos se 
pozessém os quebrariam, e se nas aguas, com as agi- 
tações d'ellas, se perderiam todos. 

Tornando ás nossas aves, os mouros africanos, nos- 
sos visinhos, as caçam nas grandes calmas, e na sua 
caça tomam grande passatempo, o dia que querem sa- 
hir a ellas, não dão de comer aos cavallos mais que 
pela manhã de beber, e assim os tem até ao meio dia, 
e cavalgando vão em busca d'estas aves; em as ven- 
do vão traz ellas, levando um pedaço de pau na mão, 
e a corso as perseguem com os cavallos, dando-lhe 
de paus se as alcançam, as quaes, ora correndo pela 
terra, ora voando pelo ar, trabalham por escapar, e 
sendo mui perseguidas ás vezes se viram com os pés 
e bicos contra os cavalleiros até darem a obediencia, 
ou as matam a puras pancadas. 

São os mouros africanos grandes caçadores de Fal- 
cão, principalmente os alarves, os quaes se tem por 
mais nobres, e muitas vezes fazem guerra aos Xeri- 
fes, não lhes querendo pagar o tributo, por que di- 
zem serem os homens livres, e não hão-de obedecer a 
outros; estes trazem a lança na mão direita e a adarga | 
na esquerda, e o Falcão no hombro, andando na guer- | 
ra, e o tem por grande honra, e insignia de nobresa, 
e cavallaria. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA IIQ 


Os Falcões nebris, sacres e gerifaltes, e bafaris 
entre estes africanos guardam o mesmo nome. 

A mim me aconteceu vindo da caça, e dois irmãos 
neus, com cada seu Falcão, trazendo uma garça mor- 
ta d'aquelle dia, alcançarmos um mouro que entregou 
Arxilla a el-rei D. Sebastião, vindo bem acompanha- 
do (cujo nome era Cidimuça, entre estes barbaros, 
nobze e rico) o qual se passou a este reino com sua 
mulher e filhos. 

Cide Albequerim, seu genro, me perguntou cujos 
eramos Falcões, porque n'aquelle tempo eramos todos 
de peuca edade, a quem disse eu serem elles da Ma- 
gestace real, perguntando-me o Albequerim quanto 
davamos a el-rei por nos deixar caçar com elles, ao 
que respondi que elle a nós dava os cavallos em que 
andavamos e de comer a nós e Falcões, e nos casava 
nossos flhos, e se em seu serviço algum caçador mor- 
ria, de comer a sua mulher. 

Disse o mouro: —Eu vos tenho por mais nobres, 
que todo; os cavalleiros do mundo, porque a honra 
deste passatempo real, se deve estimar mais que todo 
o dinheiro da terra, por que nós outros a temos por 
honroso e nobre. 


CAPITULO VI 


Das Cegonhas 


s cegonhas são aves do tamanho das garças; 
É tem as pernas, pescoço e bico comprido, as 
» pennas de que vestem o corpo são brancas e 
b as azas pretas. 


120 BisrrioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


Andam em peregrinação de umas partes a ou- 
tras. 

Joannes Textor e todos os auctores que d'estas 
aves fallam, dizem que sendo os paes consumidos co 
a velhice, e não podendo voar, os sustentam e trazém 
ás costas. 

Nasceu este erro da errada informação que se deu, 
porque as cegonhas depois de terem seus filhos Zria- 
dos no ninho os tiram d'elle ao campo, senço já 
grandes, e lhe levam á bocca o que elles conem, 
como fazem quando os tem no ninho; e assim os sus- 
tentam até elles saberem buscar o rato, lagarto, e 
cobra, com que os paes os criaram, e os mantem 
todo o verão, até que saibam; e vindo o invtrno se 
passam a outras partes, e quando Já tornam sabem 
buscar seu mantimento. / 

E os homens que d'antes viram no verã» dar de 
comer a outras, sendo tão grandes como ellis, e tor- 

nadas o não fazem; imaginaram que os filhos deixa- 
vam os paes velhos em alguma ilha. 

Não me maravilho escreverem os escripfores simi- 
lhantes cousas d'estas aves. / 

D'ellas diz Guilherme Benedicto, no Copia Ri 
nuncius verbo quidam Petro, aborrecerdm as cego- 
nhas sumamente o adulterio, e diz que se alguma d'el- 
las se ajunta a outra que não seja o marido, as ou- 
tras a matam ás picadas, etraz esta historia: 

Uma d'estas aves fazendo adulterio ao marido, se 
lavava; um soldado, vendo isto, a impedio que se não 
lavasse, as outras a mataram ás picadas. 

Estando o infante D. Luiz em Almeirim (por ra- 
zão da caça) ceiando, lhe contou um caçador seu, to- 
mara uma cegonha no ninho tendo já ovos, para trei- 
nar um Falcão, e logo ao outro dia o marido se ca- 
sara, e quando se juntou á femea viera acompanhado 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA I2I 


de grande numero d'ellas, fazendo festa pelo ar, dando 
estalos com o bico, com mostras de prazer. 

Ao que o principe respondeu : 

— Às aves entendem-se e tem seu instincto natural. 


CAPITULO VII 


Das aves de Hespanha que peregrinam 


EIXANDO as aves do norte a Hespanha desam- 
parada, as quaes se foram passado o inverno 
áquellas partes de Allemanha d'onde vieram, 

logo as nossas meãs e garçotas, zambralhos e marti- 
netes, colhareiros e cegonhas, perotas e coreixas e gar- 
ças ruivas, ralés dos nossos Falcões, começam a vir, 
as quaes se foram tambem invernar fóra da sua pa- 
tria; ainda que juntas venham se apartam buscando 
terra aonde criem seus filhos; as mães d'estas buscam 
lagos e grandes lezirias de rios caudalosos e terras 
empaulanadas cheias de arvores e silvas, outras ma- 
rinhas e lagõas famosas, onde possam esconder os 
ninhos, como em Almeirim, no paul da Azeitada, e 
outros lagos de Hespanha. 

A estas acompanham grande caterva de passaros 
| | meudos, melroas, picanços, papafigos, abelharucos, 
| rouxinoes, e raberruivas, felosas e outros muitos; 
tambem rôlas e as trocazes. 

As causas de virem crear a estas partes é por que 
elles de verão acham bichos e sevandilhas voadoras, 
com as quaes possam manter seus filhos até os cria- 
rem de todo. 

Todas estas aves fazem seus ninhos alevantados da 
terra, ainda que differentes na grandeza; seguem to- 


122 BiBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


das um modo e ordem de conservar a vida, e cada HE 
uma por si busca seu cibalho, e como seja de bichos | 
e cousas vivas, cada qual trabalha por si na busca de | 
sua comida, e não se ajuntam senão quando vem ou | 
se tornam, o que se vê claro nas andorinhas nossas 
caseiras; os rouxinoes, melros e mais passaros miu- 
dos, em tomando terra de Hespanha se emboscam | 
apartados por montes, vales e ribeiras, d'onde haja 

silvados, serras e mattas; e voando de pouco em | 
pouco e de arvore em arvore, atravessam toda a Hes- 

panha. 

Tambem fazem os ninhos levantados da terra; são 
prisões e ralés dos nossos Gaviões (emquanto andam 
de verão) estas ainda que nos bosques estejam escon- 
didas, não se escondeu aos homens invenção para as 
caçarem com armadilhas do brete e visco, a qual 
arte de as tomar nasceu de uma voz que elles entre 
si formam de queixa e espanto, á qual todos aquelles 
que a ouvem accodem, como os homens «o aqui 
del-rei. E se tomam uma melrôa e lhe apertam uma 
aza, ou a qualquer d'estes passaros, a que vozeia quei- 
xando-se, accodem. São aves todas estas silvestres, 
differem na criação das aves agrestes. 


CAPITULO IX 


Das aves agrestes que não peregrinam 


s abetardas, sizões, alcaravões, gangas e corti- 

çós, calhandras, trigueirões, cotovias, perdizes, 

pintasilgos, milheiras e pintarroxos, verdilhões 
e carreirós, são nossas naturaes. 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 123 


D'onde criam de verão, sofirem o inverno, e as fal- 
tas d'elle; todas andam em bandos, cada qual segue 
seu genero. 

Os pintasilgos, milheiras, verdilhões e pintarroxos 
criam e fazem seus ninhos nas arvores, tiram os filhos 
á luz nos mezes de estio, os quaes como são aves pe- 
quenas, sustentam os filhos com sementes de cardos e 
hervinhas, e ainda d'ellas lhes não dão mais que o 
miolo, porque não tem força nem corpo para os ga- 
fanhotos, de que todas geralmente mantem seus fi- 
lhos, as quaes criam no mez de maio por haver muita 
diversidade de bichinhos e gafanhotos, com que os 
sustentam no ninho. 

As perdizes e codornizes, não tem cuidado em bus- 
car de comer aos filhos, por que elles em nascendo 
acompanhando as mães, que com as azas os agazalham, 
buscam o que hão-de comer. 

Das perdizes dizem que algumas vezes põem duas 
seus ovos em um ninho, alguns pastores achando os 
ninhos d'estas, visitando-os, acham os ovos dobrados 
postos dois em um dia; d'estas e codornizes, aves esti- 
madas nas mezas dos senhores, quiz Deus Nosso Se- 
nhor, que ellas criassem de uma ninhada de quinze 
até vinte; andam em bandas as perdizes, e se acaso 
alguem as levanta e se espalham, á noite chamam a 
recolher, e juntas de noite as tomam algumas vezes 
com candeio, e com laços com outras perdizes; e por 
serem tão estimadas inventaram os homens uma réde 
feita a modo de um tezão, e com um bôói phantastico 
as cercam levando-as á rêde; não ponho aqui a feição 
della, nem a arte com que se arma, por merecer 
desterrada, por ser destruição d'ellas, sendo notavel 
passatempo dos senhores, caçando-as com ÀAçores 
aletos, e a cavallo a corrição, e assim tem pena 
aquelles que similhante rede armam. 


124 BrBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


CAPITULO 


Das abetardas, aves nossas naturaes 


s abetardas são as maiores aves, e as que fazem 

JA vantagem a todas as que passam á nossa Hes- 
panha; são pardas na côr, no talhe e na feição 

dos nossos perus, porém de maior corpo e cabeça; 
nos olhos, o que nós temos branco, tem ellas ama- 
rello. 
Onde criam seus filhos ali moram sempre, não 
andam em peregrinação, como as de que até agora 
fallámos. 
Chamam-se abetardas porque como sejam pesadas 
para se levantarem e tomarem seu vôo, correm pri- 
meiro adejando para tomarem vento, e com elle se 
poderem levar da terra, pelo que os latinos lhe cha- 
mam avistarda. 
Criam no mez de abril e maio, entre os trigos, 
onde haja grandes campos semeados, muitas vezes 
molhados com os orvalhos, e aguas por andarem nas 
ementeiras. 
Se tomam a corço, porque são aves muito carrega- 
das e grandes, e molhadas se não podem levantar; 
no tempo de seus amores, encontrando-se dois ma- 
chos, com ciumes que cada um tem da sua femea, 
brigam com tanta colera, que muitas vezes os ho- 
mens do campo, vendo-os brigar, por terem já ex- 
periencia que se matam uns aos outros, se vão a elles 
com qualquer pau que na mão levem, e lhe quebram 
as azas e as tomam. 
Eu vi um lavrador, o qual vendo estes andar bri- 


DORME IT RS 1 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 125 


gando deixou o arado, e com aguilhada, que na mão 
levava, chegou aos passaros da peleja, os quaes com 
a colera não fizeram caso d'elle, e ás pancadas lhe 
quebrou as azas, e depois de os ter presos pelos pes- 
coços, tanta era a colera que tinham, que se não lem- 
bravam do estado triste em que estavam, que assim 
remetia um ao outro, como que estivessem livres. 

Depois de criarem os filhos se ajuntam e andam 
em bandas. 

A carne d'ellas é doce; mantem-se de sementes 
e hervas, e encontrando gafanhotos os não engei- 
* tam. 

Estas abetardas tomam os homens do campo com 
uma armadilha a que chamam bugalho, que deixo 
por ser d'elles mui ordinaria. 


CAPITULO XI 


Dos sizões e alcaravões, gangas e cortiçós 


s sizões são do tamanho das adãs, entre bran- 
cos e pardos, com colar preto no pescoço, 
Os alcaravões são pardos de todo, as per- 
nas um pouco compridas e o pescoço. Criam em 
terra, são ralés dos nossos Falcões; estes andam jun- 
tos depois de criarem seus filhos. 

As gangas e cortiçós são aves algum tanto maio- 
res que perdizes, entre estas ha pouca diferença na 
grandeza do corpo, talhe e vôo; andam em bandas, 
mantem-se de sementes e hervas; só em uma coisa 
differem umas das outras: em terem as cortiçós uma 
lista negra como colar pelo pescoço. 


126 BrsLIOTHECA DE CLAssICOS PORTUGUEZES | 


São grandes voadores; os caçadores não largam os | 
seus Falcões a ellas por se não perderem. | 


CAPITULO XTI 


Dos quebranta ossos 


s quebranta ossos vivem de rapina, moram | 
nestas partes de verão e de inverno, são 

pouco menores que as aguias, tem o corpo 
vestido de pennas brancas, e azas pardas. 
Sua caça é nos mattos, buscam os coelhos de que 
se mantem, com uma invenção estranha para desco- 
brirem os coelhos que de dia estão escondidos; an- 
dam macho e femea juntos, um d'elles anda dando 
com as azas pelas mattas, como que rasteja, e ás ve- 
zes finge voz de cão, porque a caça se levante, o 
companheiro anda a meio ar, para que em se levan- | 
tando o coelho ou lebre, de alto desça e o fille; eas- | 
sim se mantem e criam os filhos, que tanto cuidado | 
teve a natureza doctissima de mostrar a cada ave O 
modo de buscar de comer para si, e seus filhos, que. 
a estas que não tem tanta velocidade que possam al- 
cançar voando outras aves, lhes mostra o modo e 
arte com que hão-de caçar os coelhos escondidos nos | 
bosques, fingindo a voz dos cães que não é sua. 


Arte DA CAÇA DE ÁLTANERIA 127 


EAPETULO XTt 


Dos Guinchos 


ÃO os guinchos aves maritimas, do corpo de 
nossos milhanos, de côr sinzentos. 

Criam em rochas e em arvores; seu manti- 
mento são peixes do mar, elles os tomam de mergu- 
lho e os levam nas unhas, as quaes tem tão grandes 
como os Gaviões. São aves prudentes; o dia que veem 
bom e o mar quieto, metem-no em casa (o man- 
timento) trazendo peixes em um dia que bastaria para 
toda a semana; o que tem o ninho d'estas aves, em- 
quanto elles tem filhos, tem de comer peixe para alguns 
dias em abastança; d'onde nasceu este rifão das mu- 
lheres : 

Foão não hajais dó d'ella, que tem em tal pessoa 
um ninho de guincho. 


“CAPITULO XIV 
Das gralhas, corvos e frouvas e pegas 


ODAS estas aves são pretas; a pega difere algum 
tanto, que tem a barriga branca, mas na voz, 
talhe e feição são quasi de uma similhança, 
porque no grasnar e voar não differem muito. 
Não são de comer, porque se mantem de bichos no- 
josos; são ralés dos Gaviões; de fama, mostradoras de 
annuncios tristes. 


128 BisrrorHECA DE CLassicos PoRTUGUEZES 


D'ellas diz Pero de Boavistão, que no tempo d'el- 
rei Luiz de França, junto a Santo Albino, houve uma 
batalha cruel entre pegas e gralhas, e foi tão pelejada 
que de cada parte cahiram em terra muitas mortas; 


e foram tantas as que se ajuntaram n'esta peleja que 


tomavam campo de duas leguas. 

Foi isto annuncio de uma batalha que n'aquelle lo- 
gar houve d'ali a alguns dias, em que morreu infinita 
gente. 


CAPITULO XV 


Dos pelicanos 


A Opiniões que os pelicanos tiram com o bico 

carne do peito para darem aos filhos ; estes 

tem no peito um callo carnoso descoberto de 
pennas, e quando mettem na bocca o comer aos 
filhos, os que estão sem comer afferram e picam o 
peito da mãe, e lhe fazem chaga, a mãe soffre (pelo 
muito que aos filhos ama) as dóres do peito; d'onde 
vieram a cuidar que a mesma mãe o fazia para os 
manter, o que é contrario do que a natureza ensina 
ás criaturas, o que sei pela experiencia de criar os 
Gaviões em pequenos, estando muitos juntos, e entre 
elles algum que tinha descoberta de penna alguma 
parte carnosa, os outros o picavam e mordiam, que 
por o não matarem o tirava d'entre os outros até es- 
tar coberto de penna; e se isto lhe não fazia o mata- 
vam e comiam. 


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ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 129 


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k CAPITULO XVI 


Que diz a causa porque umas aves tem bucho e outras 
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a natureza tão prudente que a todas as cousas 
deu seu logar acomodado e proprio, e orde- 
nado de arte que não houvesse faltas. 

“À umas aves deu bucho, o qual tem todas aquellas 
que se mantem de cousas molles, como são as aves 
de rapina, e as que comem peixes e bichos de terra, 
como são garças, cegonhas, coreixas, e outras muitas; 
pelo contrario são aquellas que se mantem de semen- 
tes e fazem seu pasto de hervas e de algumas pedra- 
sinhas molles, como se vê muitas vezes nas perdizes, 
estas ordenou tivessem muella, a qual é grossa, e pela 
parte de dentro, d'onde se hão de cozer as sementes 
criou uma pelle durissima franzida, quente e secca, 
de tal modo que a quentura com a agua, que as aves 
que sementes comem bebem, se cozesse para que com 
facilidade, pelos logares acomodados, se expedissem 
as fezes. 

Dir-me-ha o leitor que os animaes comem semen- 
tes e se mantem de pastar hervas e mattas, que tem 
bucho, e não muellas. 

Respondendo, digo, que os animaes tem seus den- 
tes, e muito primeiro que mandem ao ventre o que 
comem o mastigam entre os dentes, e lá tem armado 
o bucho com certa grossura de pelles com uma sorte 
de bicos, que ajuda acabar de gastar o que se deixou 
com os dentes de moer. 

Outros animaes engolem o pasto mal mastigado, e 


FOL. 8 VOL. H 


130 BreciorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


então remoendo, depois trazendo-o outra vez á bocca, 
o que se vê bem claro nos bois e ovelhas. 

As aves de rapina por se valerem contra o frio, como 
já disse, e não terem no inverno o bucho desampara- 
do engolem com a carne algumas pennazinhas, ten- 
do-o lá no bucho gastam a carne molle, e a deitam 
pelo logar acommodado da natureza, e as pennas e 
ossoszinhos pela bocca em plumada. 


CAPITULO XVII 


Da ave Cartaxo 


srou vendo todos os caçadores de Gavião com 
armas contra mim parecendo-lhes que tenho 
mandado ao esquecimento aquella ralé tão or- 
dinaria de seus Gaviões amados, como é o nosso Car- 
taxo, por que d'elle havia de fazer particular menção 
por ser mui conhecido, assim dos caçadores como de 
todos os moradores nos campos, que elles em todos 
os logares e partes se acham, assim de verão como 
de inverno, e bem é que digamos de seu genero, dos 
passarinhos que os Gaviões appetecem, elles são os 
mais pequenos, tem as cabeças pretas e as azas o mes- 
mo, e o peito vestido de pennas amarellas, e o cabo 
curto, no voar redondo, e o mesmo não voando. 
Sustentam-se de bichinhos da terra. Onde nascem 
ahi habitam, trazem seus filhas á luz primeiro que to- 
das as aves; já pelo entrudo os tem, d'onde nasceu 
aquelle dito rustico: Cartaxo de bom cuido, tem 
seus filhos pelo entrudo. 
Os caçadores de Gavião por elles começam de os 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA | 131 


ensinar, porque como os cartaxos são pouco voado- 
res, em o Gavião pondo o rosto n'elles se mettem na 
matta que mais perto acham, e n'elles cevam os ca- 
çadores seus Gaviões, pela qual razão são amados e 
conhecidos de todos. 

Na cidade de Tanger, em Africa, vivia um caval- 
leiro mourisco, o qual por sua vontade se veiu con- 
verter á fê de Nosso Senhor Jesus Christo. 

Este se casou na mesma cidade com uma mulher vir- 
tuosa, da qual teve uma filha, que desejava casar ; ti- 
nha este homem um cavalleiro por amigo, morador 
na mesma cidade, e foram tão unidos em amizade, 
que ambos comiam, ambos faziam suas entradas aos 
mouros, que o amor é tão poderoso que ajunta os 
corações das pessoas ainda que sejam de differentes 
nações. 

O mourisco desejava casar a filha, mas como ella 
tinha aquella raça, não achava quem se quizesse ap- 
parentar com elles, que fossem cavalleiros, que o era 
o mourisco muito grande e estimado por esse e que- 
rido de todos os fronteiros e nobres da cidade, sendo 
este, ou fosse por rogos da mulher, ou por a filha lhe 
não ficar por casada, em sua vida lhe deu por marido 
a um soldado, ainda que honrado (tem por desegual- 
dade os cavalleiros casarem suas filhas com simi- 
lhantes homens). 

O amigo christão soffreu tão mal casar assim O 
mourisco a filha, fóra do que a moça estava mere- 
cendo, por que era muito formoza, que o não quiz 
mais vêr nem fallar; e aonde via o pae da moça se 
apartava, furtando-lhe o corpo, por se não encontrar 
com elle. 

O mourisco soffrendo mal o desprezo, entendendo 
a causa por que o amigo lhe não fallava, foi-se a ele 
e lhe disse: 


132 BrpLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


— Bem sei que me deixais de vêr por casar minha 
filha com um soldado; não me culpeis que eu fiz co- 
mo faz o Gavião, o qual em se levantando pela ma- 
nhã, põem em sua vontade comer uma perdiz, pas- 
sa-se a manhã sem a poder vêr, nem achar; já que 
não acho perdiz, comerei uma pomba; é meio dia e a 
pomba não apparece; determina de tomar uma rôla; 
nem essa póde descobrir; vem a tarde, já com fome, 
deseja de se encontrar com um picanço, nem este se 
lhe representa nem topa; é noite e por se não deitar 
sem ceia, toma um cartaxo; assim fiz eu, tomei o que 
achei. 

O nosso cartaxo é ralé de todo o tempo. 


CAPITULO XVII 


Da caça de Gavião aos passarinhos onde elles se ajun- 
tam para passar o mar em Africa 


ASSADOS Os mezes de verão e estio, tendo as nos- 

sas aves já criado seus filhos, assim cegonhas, 

como garças ruivas, e martinetes, colhareiros, 

zambralhos, andorinhas, rouxinoes, papafigos, felo- 

zas, gaios, abelharucos, trocazes, rôllas, e outras mui- 

tas, chegado o mez de setembro, mostrador de in- 

verno, ellas se ajuntam, cada aves com suas pares, 

como dizem, e se tornam a invernar áquellas partes 
d'onde vieram. 

As cegonhas e coreixas levam seus filhos a d'onde 
lhes 'não falte que comam, ás umas, aquelles ratos, 
t*ãs, sapos, lagartos e cobras com que n'estas partes 
foram creados. 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 133 


Os rouxinoes, as andorinhas e felozas se vão aonde 
achem moscas, e outros bichinhos de que se man- 
tenham. 

As trocazes e rôllas, como se mantem de sementes, 
se passam a essa Ethiopia aos milhos e .arrozes 
d'ella, e áquellas partes que seja verão, que achem 
sementes de que se mantenham. 

Pero Lopes diz que se viram já em nossa Hespa- 
nha rôllas com inçenço pegado no bico e pennas, que 
deviam de vir d'essa Arabia d'onde tiveram o inverno. 

As aves grandes, forçosas e prestes no voar, como 
são os martinetes, zambralhos, garças ruivas, e outras 
se passam com facilidade, e assim guiadas da provi- 
dencia divina vão onde conservem sua geração, e isto 
tanto assim, que se não esqueceu das fracas felosi- 
nhas, nem das rabervivas; lembra-se dos chascos, tra- 
lhões e tutinegras, e de outra grande caterva de passa- 
ros pequenos, os quaes voando com o peito no vento, 
em um dia não voam uma legua, pela pouca força de 
suas azas, e pouco alento; estas, cujo comer são for- 
migas, moscas, bichinhos, mosquitos, e outras sevan- 
dilhas, das quaes de inverno, n'estas nossas partes 
ha muita falta, por acabarem com os rigores do frio 
e muitas aguas, aguardam que a providencia divina 
tenha cuidado de os levar áquellas partes d'onde, 
como creaturas suas, se não consumam e acabem, 
accudindo-lhe com o vento suão, com o qual se sahem 
dos mattos d'onde criaram e se levantam abertas as 
vellas de suas azinhas, como nau que vem vento em 
pôpa, governados pelo piloto da Divina Providencia, 
vem tomar a altura do Cabo Espichel e Cascaes, e 
em algumas partes do Algarve. 

Estes se deixam estar aguardando pelo vento norte; 
em elle ventando se levantam voando, e se passam á 
Africa, e muitos navegantes os sentem de noute pas- 


134 BreLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


LN LIS SA ap 


sando, fazendo sua harmonia, e os que não tinham 
força para contravento voarem uma legua em muito 
poucas horas, passam o mar de cento e tantas. Este 
passo dura por muito dias, em o mez de setembro, e 
n'este todas as vezes que venta suão se ajuntam, e 
com o norte se passam, e assim vão procedendo até 
que se passam todos os que se cá criaram. 

A este ajuntamento de passarinhos vão muitos se- 
nhores com Gaviões á sua caça, e por serem entre 
elles vistos outros, a que chamam torcicollos, do ta- 
manho das calhandras, assim pardas, com algumas 
pintas varias por todo o corpo; tem os pés curtos, 
dois dedos por diante e dois por detraz, como pa- 
pagaio, a lingua comprida e forcada, mantem-se de 
formigas mettendo a lingua no formigueiro, engulin- 
do-as que se lhe apegam n'ella. 

São muito gordos, pouco voadores; tomados na 
mão torcem o pescoço, d'onde tomaram o nome, e 
por serem tantos, e de tão differentes especies os 
passaros que ali se ajuntam, e em dias intrepollados, 
tem para si todos os d'aquella terra haver alguma 
ilha perto d'onde estes passaros ali arribam, pelo que 
lhe chamam arribação. 

Agora pelo discurso da peregrinação de todos se 
verá claro criarem por toda a Hespanha, e os que 
vem primeiro para se passarem, são os que mais perto 
do cabo criaram. 

Dos torcicollos por serem pouco vistos e não se 
achar ninhos d'elles fazem muito caso para confirma- 
rem a opinião tão errada, que dizem virem de alguma 
ilha escondida, ! 

Estes torcicollos andam pela terra escondidos nos 
bosques e nas espessuras dos mattos, e porque lá 
criam, sendo tão pequenos e desmanelados se não 
faz caso d'elles, e é tanto isto assim que se o caçador 


Arte DA CAÇA DE ALTANERIA 135 


de Gavião os não encontra com os pés, pelo ar nem 
nas mattas pousados parecem estes. 


CAPITULO XIX 


Das andorinhas e da herva do seu nome que restitue 
a vista perdida 


s andorinhas são tão familiares nossas que den- 
tro comnosco moram em nossas casas, e criam 
os filhos. 

Cada verão tiram á luz tres ninhadas d'elles, de 
cada vez quatro a cinco, e como são muitos e o ni- 
nho pequeno e as mães lhe dão muito a comer, que 
o seu mantimento são moscas, e muitas vezes com a 
immundicia dos filhos dando-lhe nos olhos se privam 
de vista. 

Para esta enfermidade conhecem estes passarinhos 
uma herva do seu nome, que se chama andorinha, 
mui conhecida de todos, a qual nasce pelos campos 
em muitas partes, em terras seccas de pedrinhas meu- 
das, e pelas ruas, defronte de S. Vicente de Fóra, 
d'esta cidade de Lisboa, na calçada da porta da egreja 
vi eu muita, e os hervolarios a conhecem todos. 

No capitulo 21, do olho quebrado do Falcão, faço 
menção d'ella. 

E” remedio certo nos olhos das aves, do que tenho 
experiencia. 

Para os homens: 

No Crato havia um cego mal acondicionado e ra- 
bugento, e por ser este entendiam com elles os mo- 
ços; acaso lhe deu um com uma varinha em um lhoo 


136 BreLiorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


que lhe fez sangue, e como nos olhos se sente a dôr 
muito, gritou, accudindo com as mãos ao rosto. 

Estando presente Pero Fernandes Ferreira, caçador 
de aves de altaneria, lhe deitou no olho o summo 
d'esta herva andorinha, e em cima d'elle lh'a poz pi- 
zada; ao terceiro dia não tinha vermilhidão alguma, 
e disse que via d'elle. 

Mostrando-lhe coisas differentes, affirmou quaes 
eram, e pela melhoria fizeram ao outro o mesmo, e 
assim recuperou a vista de ambos. 

Os medicos tem para si, que a que faz estes mila- 
gres é a herva a que chamam celidonia, porque em 
latim celidon, quer dizer andorinha, e tanto dizem 
d'ella, que Leonardo Feravante lhe chama dom do 
ceu, sendo ella esta que digo; e de suas virtudes sei 
pelo effeito que faz, de até os olhos feridos, como 
não seja a menina, soldarem. 

No capitulo acima allegado accuda o curioso, e 
verá suas propriedades; é remedio para camaras dan- 
do-se a beber em pó, sendo a causa fria, em vinho, e 
quente em agua de pés de rozas. 


CA PIDULO 


Dos rouxinoes 


Ão os rouxinoes conhecidos de todos os mora- 
dores da nossa Hespanha, e estimados por 
toda a Europa, pela melodia e suavidade de 
seu canto, e por esta causa os tomam em pequenos 
nos ninhos, e os criam os homens com corações de 
carneiro picados, assim como se criam os Gaviões em 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 137 


- pequenos, e com gafanhotos, porque elles todo o 


comer que lhe mettem, seja qual fôr engolem, e as- 
sim com facilidade vivem, por pequenos que sejam, 
que em lhe tocando no bico com um pausinho em 
que levam a comida que lhe dão abrem a bocca, 
como verá quem os quizer criar; e assim procederão 
com elles até serem grandes, e então lhe darão a co- 
mer bichos que se criam nas atafonas, no interior 
d'ellas, e não havendo atafonas acharão bichos simi- 
lhantes dentro nos gamões e cardos brancos, de uns 
compridos que nascem nos campos, os quaes lhe dei- 
tarão nos comedouros, para que elles em os vendo 
bulir comecem a comer por elles, e em sabendo ir ao 
comedouro a buscar os bichinhos, que são amarellos, 
de grossura de uma minhoca, de comprimento de 
meio dedo meminho, lhe deitarão com elles uma massa 
que se faz de assucar e açafrão e miolos de amendoas 
piladas, e com esta massa os mantem, e se lhe dá 
todo o anno, a qual massa se faz tomando uma 
gemma de ovo assada e bem dura, e outro tanto de 
assucar branco, e da massa de amendoas doces qua- 
tro duzias de miolos, pizados e pillados d'aquella cas- 
quinha de cima, e umas feveras de açafrão, e todo 
junto pizado se faz massa que se deita no comedouro 
feita em pó, elles a comem de bom animo. 

Convem que seja a massa fresca, porque se azeda 
sendo de muitos dias, pelo que cada quatro cinco 
dias a fizera eu. 

Tambem os sáfaros se estimam muito, e sahem ex- 
cellentes, tomados logo quando vem de ter inverno 
fóra a criar os seus filhos. 

Os bons são os que se tomam no fim de março 
até dez de abril, porque tomados depois de andarem 
em seus requebros, morrem com saudade da sua fe- 
mêa, e não escapa nenhum, o que passa pelo contra- 


138 BrsLioTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


rio logo em elles entrando na terra, que em buscar de 
comer põem todo o seu cuidado, pelo tempo ser frio; 
então os tomam com costellas, que para isso tem os 
curiosos, e as fazem em modo que elles fiquem em pé 
e não prezos pelo pescoço, como as qua costumam 
na caça dos outros passarinhos. 

Não me canço na demonstração RL porque 
aquelles que os quizerem caçar basta significar-lhe 
que hão ellas de ser feitas de modo que fiquem elles 
em pé dentro nas costellas cobertos da rêde; e para 
isso convem seja grande; são faceis de tomar logo 
quando vem com os bichos que disse. 

Depois de tomados estes sáfaros se mettem em uma 
gaiolla, que tenha fundo de tábuas ou cortiça e se 
cobre com um panno; e ali por tempo de tres dias 
se lhe dê de comer coração de carneiro picado, met- 
tendo-lh'o com um pausinho pela bocca, ou deitan- 
do-lh'o no comedouro. 

Melhor são os bichos, havendo-os, que os vêem 
elles bulir e cobiçam-nos, e é seu cibalho natural. 

Como elles começam a comer os vão descobrindo, 
tendo-os á candeia de noite, e aquelle mesmo anno 
cantam. 

Este anno de 614, um amigo meu foi á caça d'elles 
nas oitavas da paschoa e tomou seis, e todos vive- 
ram. 

Nos tomados nos ninhos se não conhece qual seja 
o macho, nem a femêa, por que como são mui peque- 
nos não julga homem d'elles senão depois de crea- 
dos. 

Nos sáfaros com facilidade se conhecem, que os 
machos fazem alguma vantagem no tamanho ás fe- 
mêas, e tem o bico mais grosso. 

De inverno convem que os tenham em casa quen- 
te e cobertos, por que sua morte total é o frio, e por 


ARTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA 139 


esta causa se vão elles a sua patria em tempo de in- 
verno a buscar terra quente. 


CAPITULO XXI 


D'el-rei Terco e da rainha Proné, filha de el-rei de 
Athenas, e de sua irmã Philomena e do principe 
Tíens, e a causa porque foram convertidos em aves 


+ ONTAM as fabulas que Tereo, filho de Marte e de 

Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com 

Proné, filha d'el-rei de Athenas, e a trouxe 

para o seu reino; n'ella houve um filho lindissimo, a 

que chamavam Itens, tão desejado no reino, que o 
dia que nasceu se festejava como festa solemne, 

Teve a rainha Proné saudade de vêr sua irmã Philo- 
mena; pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fos- 
se elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe 
lhe concederiam licença para a irmã vir. 

Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, 

foi bem recebido dos sogros, rei e rainha, e da cu- 
nhada Philomena, a qual em Tereo a vendo, se en- 
cendeu de amores por sua formosura; então com 
mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a 
licença que pretendia. 
-* Fez-se-lhe a vontade, embarcados vieram a salva- 
mento, e chegados a um porto do reino de Tereo sa- 
hiram em terra, elle e a cunhada, dizendo elle que o 
fazia para n'aquella floresta descançar do trabalho do 
mar ; e sendo longe das naus e gente, não tanto como 
elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cu- 
nhada áquelle intento que desejava. 


140 BreriorHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


DD 


E vendo que nenhumas promessas, nem palavras 
bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu- 
se á força e com ella, muito contra vontade da affli- 
cta princeza, de donzella a tornou dona. 

Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão gran- 
de maldade, e que havia de ser pregoeira de tama- 
nha vileza e traição, e se havia de tomar vingança de 
tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade, ar- 
rancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um 
criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. 

Aos das naus disse que as féras a mataram, e che- 
gando a sua casa se fizeram muitas mostras de triste- 
sa pela morte fingida da cunhada, a qual estando em 
poder do vassalo de Tereo pediu por accenos lhe dessem 
olânda, e sêdas de côres, que queria entreter-se; tra- 
zida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por ace- 
nos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim 
lavrada á rainha Proné, que lhe havia de ser bem 
pago o trabalho que n'isso tomasse. 

Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. 

Nºaquelle tempo se faziam umas festas que de tres 
annos se celebravam n'aquelle reino; disse Proné ao 
marido que desejava ir a ellas; ida, foi aonde a irmã 
estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim 
a trouxe para sua casa, em trajo demudado. 

Ambas determinaram a vingança do marido, bem 
extraordinaria, e foi que tomaram Itens, o principe, 
filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e 
mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differen- 
tes; e tendo isto ordenado pediu Proné ao marido lhe 
concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis da sua 
terra, que era comerem sós; foi-lhe feita a vontade; 
partiu Tereo os manjares e guisados feitos do corpo 
do filho; depois de comer d'elles pediu á mulher lhe 
mandasse vir o principe Itens, seu filho, que elle 


ArTE DA CAÇA DE ÁLTANERIA I41 


muito amava; então sahiu Philomena de uma camara 
com a cabeça nas mãos e os pés do filho, desejando 
ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. 

Tereo vendo o caso, deu com a meza em terra, e 
lançou mão á espada; ellas fugiram, Proné convertida 
em andorinha e Philomena em rouxinol, Itens em ay- 
vão, Tereo em poupa. 

Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxi- 
nol quasi não tem lingua, e a andorinha de ser ves- 
tida de preto, e ao peito ter umas nodoas vermelhas, 
e ter o canto triste, como que conta a historia da 
maldade do marido, e as pennas roxas como sangue 
da crueldade que teve em matar o filho em vingança 
da irmã. 

E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a 
vida a forçada Philomena, e do ayvão porque no seu 
canto parece que grita como menino, e na poupa pela 
significação da corôa da cabeça e na formosura das 
pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei; 
porque a poupa tomada na mão tem mau cheiro, e o 
ninho d'ella o mesmo; em que se dá a entender, 
que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por 
reis e pessoas graves, se ha-de fugir d'elles e virar- 
lhe o rosto, como cousa abominavel e fedorenta. 

Por ser esta fabula das nossas andorinhas e rouxi- 
noes, e para o nosso caçador saber tambem alguma, 
e vêr como grandes engenhos se occupam em cousas 
vãs, o que não tem a nossa arte, que mostra valor e 
animo aos homens, e os faz industriosos, não sómente 
na caça, mas tirando d'ella exemplos manhosos para 
a guerra, da qual a caça tem verdadeira similhança 
e além d'isso muita grandeza e magnificencia; d'onde 
Cicero no setimo das Familiares veiu a dizer, fallando 
d'ella: 


Bisuae sunt venationes magnificae nemo negat. 


142 BieLiOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES 


E assim os senhores a esta arte affeiçoados são li- | 
beraes, cheios de grandes e altos pensamentos. “a 

O capitão Gonçalo Fernandes, nosso hespanhol, | 
grande caçador de Falcão, andando no campo á caça, | 
foi chamado do Imperador Carlos V. 4 

Logo que lhe deram o recado no campo se disse | 
que era para alguma cousa grande. 

Vindo á côrte, informado de sua magestade do que 
havia de fazer em seu serviço em França, d'onde o 
mandava, sendo-lhe dado dinheiro para a custa do 
caminho, tornou a mudar o Imperador o parecer, e 
pedindo-se o dinheiro áquelle grande caçador e capi- | 
tão, já cheio de altos pensamentos, se foi à sua ma- | 
gestade, e lhe disse: | 


«Senhor sinó le contenta la burrica que pierda da 
serial, y sirva-se vuestra magestad de mim, que me | 
siento para mucho.» 


FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME 


INDEX 


CarrruLo I — Que diz que cousa seja caça e quem foram 
RRRRanERos inventores della. .........2.c.ii oiro 
Carrruro IH — Das aves de rapina em geral ........... 
Carrruto HI — Dos Gaviões..... ça JS RR apo: 
CarrruLo IV — Onde se acham os Gaviôs, e como se 
Nemam peloshomens- no ar... ecccl.cs..s..s 
CarrruLo V — Da arte que se ha-de ter no fazer da gaiola 


para virem pelo caminho........ Dos nfpia ba po PI 
CarrruLo VI — Da arte que se hade ter « em à lhes dar de 
REGA GIO sas mi somo eres cio die sich: 


CarrtuLo VII — Dos Gaviões criados em casa, e a diffe- 
rença que ha d'elles aos criados no ar, e como se en- 
EI E GA ÇÃE. e neo É ES PAR piso ; 

CarrruLo VIII — De como se treina o Gavião para com 
elle se tomarem pegas e francelhos, e as mais ralés. . 

CarrruLo IX — De como se ensina o Gavião a matar fran- 
RARAS DRRaÇAS, 4. uno aa ce moreira no ; 

Cariruro X — Dos Gaviões safaros e em que diferem 
E VE E pipe AGIA FENDA PADRE RR NEAR 

CarrruLo XI — Quaes sejam melhores dos Gaviões de 
RR REM ERRA SS = sn istolo re 2 Dj 062 E A fita ra 

Carrruro XII — Dos Esmerilhões e sua caça, da qual 
podem uzar as princezas em suas galerias ...... 

CarrruLo XIII — De como se amansam os Esmerilhões 


pelos portuguezes d'hoje......... RR O PRA TR A, 


Rea REVO Das ogeas.....c sos cesnisc co tita 
PARTE SEGUNDA 
Dos Açores 
CariruLo I — Dos Açores em geral................... 


CarrruLo II — Das partes em que se acham em Hespa- 
nha Açores e como se criam no ar.... ........... 


E AG: 


23 
27 
29 
30 
32 


35 


37 
40 
41 
43 
45 
47 


49 
so 


s2 
54 


CarrruLo III — De como se amansa o Açor depois de 


Préso; é Ceva ... situ ins o elslo palito o pi ER 55 
CarrruLo IV — Que tal ha-de ser a terra em que se hão- 

de uzar Os Açores novos. ......% clico «moto SR 57 
CarprruLo V — Do Açor errado e sua emenda......... 59 
CapruLo VI — Dos Açores de Irlanda, de Galliza e Na- 

NATEd se o ao credo to to jo ih rO o Lo Vi6 8 folia o ca A AEE DR 61 
CariruLo VII — Do Açor tibio e a de fazer, e sua 

emenda... srta alo a ri] o da Sa ONA 63 
CarrruLo VIII — Da alcandora..... 2.00 sus an 65 


Carrruco IX — Dos caparões, e em que tempo se hão 
de pôr no Açor e nos Falcões sem cerradouros.... 66 
CarrruLo X — Dos Açores estrangeiros. .............. 68 
CarrruLro XI — Que diz a causa porque os Açores de 
Noruega morrem muito antes de cevados, e depois 


duram pouco, e o remedio que haverá n'isso ...... 7o 
CarrruLo XII — Dos Açores do Brazil ................ Panos É) 
CarrruLo XIII — Como se podem trazer Açores de mar 

em fóra sem perigo: «/<./ 1. Lib e ciais a ana 74 
CarrruLo XIV — Da causa porque os treçós da Allema- 

nha são melhores para as perdizes que os primas... 75 
CarrruLo XV — De como se treina o Açor para caçar 

abetardas e garças. ....-pirsieds pb etnia NPR 77 
CarrruLo XVI — Como se fará a muda ao Açor, e como 

se ha-de governar. .s ts ...m 5 pes ea a 8o 
CarrruLo XVII — Da purga para os Açores........... 82 
Regra ao caçador novo... ce vens pro 83 


CarrruLo XVIII — Da aguia e a razão por que das aves 
de rapina são maiores as femeas que os machos, e 


melhores na Caçã... «.:b cms Viaiw cisto elo E a 95 
Carrruro XIX — Como as aguias criam seus filhos..... 99 
CarrruLo XX — Dos corvos aves de rapina ; é digno de 

ser ido «1 “sto /h 1onb nto o ion gia bio o AR 102 


PARTE TERCEIRA 


CarrruLo I — Dos Falcões Nebris ................. MEP RE cc) 
CarrruLo II — Do Falcão Bafari Tagarote............. 109 
CarrruLo HI — Dos Gerifaltes.... 25%. 2 «ne a IIO 
CarrruLo IV — Do Falcão Sactfe............ «ecos 113 
CariruLo V — Do Falcão Borni........o avisar ain IIS 


Pac. 
Carrruto VI — Dos Alfaneques a RR E ado ne des e 116 
Emo VA — Dos Aletos..-.-...0 2 u=ccgu ces vz 117 
Regra geral de advertencias, 119 a;................. 148 
QUARTA PARTE 
CaprruLo I — Como se alimpa o Falcão do piolho ..... 5 
CarrruLo II — Como se cura a agua commum do Fal- 

Rena gidtada... 20:20 lussl cassia ds 7 
CaprruLo II — Como se cura no Falcão a agua vidrada 8 
Carrruro IV — Da purga commum do Falcão ......... IO 
CarrruLo V — Do Falcão que emmagrece............. 12 
Carrruto VI — Do Falcão assombrado ............... 13 
Emmtuco VIE Dasgosmas......2. secs ss.. asia I5 
Caprruro VIII — Do Falcão que amanhece com papo.. 17 
Cariruro IX — Do Falcão que tem o papo cheio de 

TERÍE E DV AR DES RE SAP etedd pe I8 
Caprruto X — Do Falcão que tem plumadas velhas .... 18 
Carrruro XI — Do Falcão que tem o bucho inchado e 

grossO ........cccccecertecar crrrarcorner narra 20 
Cariruro XII — Do Falcão que tem lombrigas......... 21 
Carrruro XIII — Das filandras ou filomeras........... 22 
Caprruto XIV — Do Falcão que tem pedra .. ........ 23 
Carrruro XV — Da fistula que se faz em a ferida do 

ERR SS o iss Salao elo atajo Va TEA aro 25 
Caprruro XVI — Da Comichão que os Falcões tem nas 

Demos e as tiram .é comem. ....-..s.2.. 0002.2058 26 
Carrruco XVII— Da unha que se tira ou cahe ao Fal- 

e DE RARE ERA SD Sp 27 
Carrruro XVII — Do Falcão que tem cravos nos pés. 28 
CarrruLto XIX — Do Falcão que tem os pés inchados... 30 
Capitruro XX — Do Falcão que tem perna quebrada... 31 
CarrruLco XXI — Do Falcão que se lhe quebra a aza... 33 


Caprruro XXII — Do Falcão que se lhe quebra o olho. 35 
CariruLo XXIII — Do Falcão que tem inchação entre o 


CEARNE ALICATE Ds AS o 00, à Sa fipe ara a A RD 36 
Caprruco XXIV — Do Falcão que regeita o que come, 

ERES JERERENS ARA 2 en io moro an é 206 0) est ut ET pa 36 
CarrruLo XXV — Da ferida que o Falcão tem aberta ou 

DESIRE |) cd a E cin co ata o é Sra a SRTA E So Na 37 


CarfruLo XXVI — Das debateduras e cahidas do Faltão 38 
E 


“25 


F. 


CariruLo XXVII — Do Falcão que tem as tripas fóra.. 
CaprruLo XXVIII — Do tropiguo do Falcão ou impação 
CariruLo XXIX — De como se deve fazer a muda ao 


EaÍGÃO eclesial UNA a a LÃ BREAD fo bit 
CariruLo XXX — De leuao Falcões que não querem 
MUdAL Sc to far Sera Ele Po oro Dr RD PSU NTE NU Voce 
CAPITULO XXXI — Como se haverá o caçador com o 
Falcão depois deimudado. - 2.0. Cu RA $8 
CarrruLo KXXII — Das pennas quebradas, e como se 
EXITO. «cs mos ago o cio Sin faso o PEA e a E ' 
CAPITULO XXXIII — Da tinha que póde acontecer ás 
aves de caça d'altaneria...... ES dos Mi 
CaprruLco XXXIV — Que ensina como se fará fome ver- 
dadeira ás aves sahindo da muda............ Pie 
Titulos das receitas, 52 àa.......... a sie va A ada 


QUINTA PARTE 


CarrruLo I— Das aves de rapina nocturnas, e como 
com o Bufo se tomam os F acess Gaviões e as mais 


AVES ENCACAL: ai ala ota EIA Ro eb Sal é Sat 
CaprruLo II — Da armadilha do bufo | em campo sem ar- 
VOTESM A Sata es o 2 eo Vaio EN o Ta a RAR eli e prato iia 


CarrruLo HI — Da armadilha Aranhol de quatro * varas: 
como:se faz e iara or Ru TS MATEO ad al 
CaprruLo IV — Do aranhol de tres varas La Sr aaa a 
Caprruco V — Do aranhol de duas varas.......... NAT 
CaprruLo VI — Como se faz e arma a rêde do ar na ar- 
vore, e como na dormida com ella se tomam Falcões 
CariruLo VII — Da costilha como se faz e arma para se 
tomarem Falcões.. EE AP à o BRA a 
CarrruLo VII — CORE se mam Ruleots na Persia... 
CariruLo IX — Como se tomam as garças reaes, e zam- 


bralhos, meãs, e maritinetes, e garçotas ........... 
CarrruLo X — Como se tomam as pêgas e gralhas na 
Bessa LA MO ada à is TE po ro de Pa ota VON TV TER 


CariruLo XI — Regra como os redeiros conhecerão os 
Falções, Gaviões, e Esmerilhões voando ncar, e o 
modo que tem em buscar as aves de que se hão-de 
manter, assim elles como as mais aves de rapina... | 


LO 


: 


Caritruro XII — De como se cozem os olhos aos Falcões 
e ás aves bravas que se caçam e tomam nas arma- 
RR O Sa Bco = cas e calao dá eres Vaio o Bio e Oo de 

Carrruto XII — Da armadilha do brete e da sorte de 


passaros que com elle se tomam ...... ......... 
CapriruLo XIV — De como se tomam com armadilhas 
RE RMES o caos = os cia e cjá ess 


CarituLo XV — Da albardilha como se faz e arma para 
RECEM PAC OSS 4 2 o nm apo 5 2aNa 0 0/s a(o 6 Do é araa 
CariruLo XVI — Dos milhanos e como se tomam com 
armadilhas para trincarem os Falcões............. 
CaprruLo XVII — Da pena que tem a pessoa que mata 
jo Falcão ou Açor perdido levando cascaveis....... 


SEXTA PARTE 


Caririto I— Da peregrinação das aves do norte. .... 
Carrruro II — Dos tordos e estorninhos .............. 
RREO PIGA Gras A. Sl Slos- i.e cs ssa ves 
E erruco IV — Das Garças....-..cesssisolcsserrcueo 
Rara W>— Dos CISnES +. 2.-scainsscoceinio ERA A 
CarrruLo VI — Da ave Ema e da sua caça............ 
CariruLo VII — Das Cegonhas................... 
CarrruLo VHI — Das aves de Hespanha que peregri- 
CO E EPSON RPM PSD SIGN PRPNERAÇS s 
-CareesL0 IX — Das aves agrestes que não peregrinam. 
CarrruLo X — Das abetardas, aves nossas naturaes... 
Carrruco XI — Dos sizões e alcaravões, gangas e corti- 
ÇOS ..cccesenccceacuueunaco uuunananaccana rea 
CaprruLo XII— Dos quebranta ossos ................ 
CarrruLo XII — Dos Guinchos................... 
CarrruLo XIV — Das gralhas, corvos e frouvas e pegas 
Carrmuto XV — Dos pelicanos E Note at 4 Fera RE 
gprruLOo XVI — Que diz a causa porque umas aves tem 
Eno e outras ntrellas.. 22! ess 20. D o e dn 
CerrruLo XVII — Da ave Cartaxo..... ......... ee... 


Caprruro XVIII — Da caça de Gavião aos passarinhos 
onde elles se ajuntam para passar o mar em Africa. 
Capyruro XIX — Das andorinhas e da herva do seu no- 
que restitue a vista perdida... ............0... 


a 


I00 


Cariruro XX — Dos rouxinoes. PRP 


Carrruro XXI — D'el-rei Térco é e Ria Rainha Proné, filha 
de el-rei de Athenas e de sua irmã Philomena e do 


Rr Itens e a causa Berque foram convertidos 
em aves. E À 


[= Misto DO CERCO DE o por Loo 
Contznho; 1 NOMES sa compania ore 

II1— HisroriA no Cerco DE MAzAGÃO, por Ag 
Gavy de Mendonça, 1 volume .. a 


HI -- Ermroria OrrenTAL, por 47. Foão dos 
-* 2 grossos volumes. ..... ERG ir 


IV,—O Dime D. Pero, chronica ini 
Gaspar Dias de L ad 3 volumes . 


a V — Cmrosica D'Et-Rer D. anRRiE (o Cru E | 
TICEIRO), por Mernão Lopes, 1 volume. rs: 


Lopes, 7 RR AR PRA 


VII — Dois ERA e DA ÍNDIA, pOr Luciano Corde 
- NOME ais 4 


IX — ArTE DA abas DE ÁLTANERIA. POr Diogo 
nandes Ferreira, (2 VOLUMES) - Des 


EM PUBLICAÇÃO ia 


Cwronica D'Et-Rer D. João I, por Gomes é, 
Ennes d' Azurara. 


Fernandes Ferreira, Diogo 
Arte da caça de altaneria 


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SUNS 2,2.